24 de mai de 2010

Menino - X

'Tá tudo fora dos eixos. Ninguém, nem um samaritano que seja, consegue fazer alguma coisa que presta, ultimamente. Meu Zé, levanta, anima, vai pro curral e desanima. Diz que as vacas estão desconformes. Todas com saudades do velho. Não querem comer, não querem dar leite, não querem emprenhar, não querem nada com nada. Como o meu Zé diz, 'tá tudo tão esquisito que até vaca 'tá estranhando bezerro. Vixe! Meu patrão zanza pra cima e pra baixa, consola a dona, traz uma companhia nova pra ela, um remédio novo de acalmar, mas trabalhar que é bom, nada! Mesmo porque isso nunca foi assunto dele. Minha patroa só chora. Não sei de onde arruma tanta lágrima. Chora e chora. Não cuida da casa, não dá ordem, nada! 'Tá todo mundo esperando Deus descer na terra e dar um rumo pra história. Esclarecer tim-tim-por-tim-tim. Por obra e graça de quem o velho saiu da cadeira e aonde o danado se meteu. No sentido ou na falta de sentido dessa confusão. É nisso que fica todo mundo pensando o tempo todo. A não ser, é claro, na hora que resolvem botar a culpa no coitado do menino. O pai acha que ele emalucou. Meu Zé acha que ele encapetou. A mãe não sei se acha alguma coisa, mas xinga o pobre coitado de manhã, de tarde e de noite. Bom sinal isso não é. Eu, de minha parte, eu mesma não acho nada. Mas daí também a acreditar na mentirada que ele anda inventando de que o velho se arrastou até o rio, aí já é demais. Vejo a insistência dele nessa conversa e não acho nem coisa de maluco, nem coisa de capeta. Só tenho dó...

Nenhum comentário: