19 de mai de 2010

Menino - VII

As coisas não andam nada fácil por aqui. Tá todo mundo mudado. Meu avô ficava prostrado na cadeira dele, sonolento, calado e ninguém dava a menor pelota pra ele. Agora, depois que ele sumiu, até a cadeira de rodas dele virou santa. Fui brincar nela, outro dia, e saí dependurado pela orelha. - Menino, respeita seu avô!, gritou minha mãe. – Como assim?! Isto é apenas uma cadeira de rodas, mãe!, pensei, mas deixei pra lá. Mãe só chora. Deu de olhar pro telefone e ficar esperando não sei o quê. Meu pai olha pra mim e acha que fui eu quem fiz vô desaparecer. – Eu?!... Seu Zé acha que foi o capeta. A mulher dele acha que foi minha vó que ninguém nem nunca conheceu. A Maria, cozinheira, só se benze e diz: - Coitado, Deus o tenha. Tá todo mundo transtornado e ninguém ouve ninguém. Se me ouvissem teriam seguido o mesmo caminho de vô e visto que ele foi quase se arrastando até o rio: na poeira, ficaram lá os dois risquinhos sem fim dos chinelos e as bolinhas, uma depois de outra, da ponta da bengala dele. Quando eu mostrei para o meu pai, sabe o que ele me disse? Me xingou e disse que aquilo era coisa minha, que vô não andava... É que, ultimamente, todo mundo anda preferindo acreditar em coisas de outro mundo. Inventam cada história mais doida do que a outra. Já chamaram polícia, padre, benzedeira, mãe-de-santo... e nada! Estão todos cegos. Não querem enxergar que vô se cansou da vida ruim, ao nosso lado, e foi buscar uma vida mais calma na beira do rio. Só isso...

Um comentário:

Flávia disse...

Obrigada!