11 de mai de 2010

Menino - VI

Quando eu conheci o patrão, ele me fez uma desfeita que eu, até hoje, não gosto nem de lembrar. Uma história de uns passarinhos. Coisa de gente ruim. Durante muito tempo, eu via ele e pensava: oh velho desgraçado de ruim! E vou falar uma coisa: mas eu gastei foi muito tempo mesmo dessa minha vida pensando numa vingança. Mas aí fui me entretendo com ele, passei a achar que ele era um velho meio ruim, depois nem tanto, até ver que era um velho de um tipo que não existe. Veja bem, a coisa que eu mais gosto nesse mundo é de passarinho; e não é que ele gostava mais. Eu nem tinha ouvido ainda um pio; ele já dizia: - os assanhaços estão de volta. Lá no alto da beira do rio, numa distância que eu duvido que ele via, ele dizia: - os manuelzinhos da croa estão inquietos na beira d’água. Era chegar perto: e eles lá! Premonição. De onde já se viu velho fazendeiro gostar de passarinho desse tanto?! Com a criação, que nem. Quando inventaram de confinar gado leiteiro, todo mundo confinou. Aquela coisa de trato e mais trato e nada de pasto. Ele não. O genro dele veio dizer pra ele que era bom, que era tecnologia, o céu na terra. Quase chamou o velho de cabeça dura. Mas antes, ele atalhou: - não é que eu sou burro, meu genro; eu tenho é dó. Viver presa?... E ninguém nunca mais ficou inventando moda perto dele. Nem o genro, que, inclusive, anda manso com as vacas mesmo depois que o velho sumiu. Acho que é por gratidão. Deus me perdoe falar dos outros, mas motivo de gratidão não falta: faz anos que ele está aí, tranqüilo, bonachão, comida na mesa, roupa lavada, servicinho leve... Já cheguei até a pensar que talvez seja gratidão demais. Sei não... Gratidão demais é que nem milagre: milagre quando é muito a gente desconfia do santo. Pois é... Será que foi ele que sumiu com o velho? Sei não... Deus me perdoe falar dos outros...

Um comentário:

Flávia disse...

Conta mais, tô curiosa!