11 de mai de 2010

Menino - V

Eu vejo sua cadeira de rodas com a manta xadrez dobrada e choro. Tenho chorado muito. Compulsivamente, mesmo. Papai não teria como ter saído dali sozinho. Era um vivo-morto. Olho e me pergunto: - quem pode ter feito tamanha maldade com um velho doente, meu Deus? Já fiz novenas, não paro de rezar o terço, padrenossos e avemarias em série. Não sei mais a quem recorrer. Os vaqueiros da fazenda já vasculharam palmo por palmo de terra. Nada! A polícia entrou e saiu do caso. Nada! Quando falo que a polícia foi indolente, ainda sou obrigada a ouvir provocações do meu filho: - mãe, a senhora queria que a polícia prendesse o rio? Ai, meu Deus! Pior é que, no fundo, tenho um sentimento de culpa danado por ele. Mamãe morreu cedo e ele foi pai e mãe pra mim. E eu passei a vida lhe obrigando a atender aos meus caprichos. Pobre coitado! Quando queria uma boneca, chorava e embirrava, e lá vinha ele, tarde da noite, cansado, com uma feita de palha de milho, coisa lá da cabeça dele. Linda! Quando queria uma casinha, chorava e embirrava, e lá vinha ele, sujo da roça, com uma casa imaginária com móveis feitos de sabugo, manga verde, tocos miúdos e sei lá mais o quê. Linda! Foi assim: ele sempre alegre me iludindo com as suas invenções. Mas ando pensando muito, esses dias, que era uma alegria de esconder tristeza. Isso agora não me sai da cabeça. Será? Seu jeito afetuoso, manso era apenas para repor o ar que a tristeza lhe tirava? Isso está me corroendo. Olho para sua cadeira de rodas com a manta xadrez dobrada e choro, choro. Será que foi um seqüestro? Olho com expectativa pro telefone. Bem que podia...

Um comentário:

Disa disse...

Viva a Imaginação!
Imagem + Ação.
Beijo grande de alegria, que os ventos tragam sempre a inspiração.