8 de mai de 2010

Menino - IV

Meu patrão era um velho filhadaputa. Quando viemos pra cá, ele quase matou meu Zé do coração. Zé sempre gostou de mim. Mas ele nunca mentiu: sempre disse que mais do que eu, pra ele era os passarinhos. Zé tinha de todos em gaiolas: curiós, chapinhas, pássaros pretos, sabiás, azulões, tudo. Meu patrão nem nos esperou mudar. Chamou Zé e disse: - Seu Zé, nós temos uma coisa em comum: nós dois adoramos passarinho. Mas nós temos uma desavença: você gosta dos bichos em gaiolas miúdas, eu gosto em viveiros grandes. E nem deu um prazo de prosa pro Zé dizer ‘pois é’ e deu ordem: - Zé, ponha seus bichos no meu viveiro. Disse doce, meigo, sem maldade. E Zé, tolo, confiante demais, disse: - claro! Zé custou um mundo de tempo pra entender que o viveiro dele era a fazenda toda. E Zé teve que soltar bicho por bicho. Chorou sem lágrima um a um, deu adeus um a um. De noite, achei que Zé ia morrer ou matar o velho. Só blasfemava: - velho, filhadaputa, corno, filhadaputa. De manhã, meu patrão apareceu com um tabuleiro espetado na ponta de um pau, com um telhadinho por cima para por comida de passarinho. Zé não disse um a. Com o tempo Zé desemburrou e aprendeu a lidar com o velho. O velho gostava mais de bicho do que Zé e Zé não esperava por isso. No final, depois de tantos anos, os dois enlouqueceram juntos: conversavam com as vacas, acarinhavam cada uma, acho até que desabafavam com elas seus problemas. Quando o velho entrevou, Zé disse: - Deus não presta! Eu pensei diferente. Já vi muita gente entrevando. Gente quando entreva, entreva tudo, menos o olho. O olho fica boiando. Mas o meu patrão entrevou todo. Nunca vi assim. Até o olho adentrou. Eu vi que era coisa dele próprio. Era saudade da esposa. Ele entrevou a própria alma. Quando ele sumiu da cadeira, Zé disse: - isso é coisa do demo. Eu pensei diferente. Essa história do rio é invenção do neto. Foi a dona dele que levou ele. Ela também estava com saudade. Quem não teria de um velho daquele?...

4 comentários:

Flávia disse...

Oi,

Você tá aí?

Blog de Flávio de Castro disse...

Estou no trecho. Meio febril. Eu e Jayme estamos que nem gêmeos: um numa cama com febre, outro no quarto ao lado, com febre. Cedo, fomos parar no hospital com medo de dengue. À tarde, vim pra BH. Estou escrevendo besteiras pra distrair o corpo...

Flávia disse...

E aí? É dengue mesmo?
Melhoras.

Flávia

Blog de Flávio de Castro disse...

Sei lá...
A suspeita era por causa da febre sem outros sintomas comuns em viroses (garganta, resfriado etc) e por causa da dor no corpo. Mas o exame de sangue deu uma alteração pequena. É uma virose, por certo. Não necessariamente uma dengue. Se tanto, uma dengue branda. É aguardar pra ver...
Boa noite. Flávio