8 de mai de 2010

Menino - III

Meu sogro era um velho filhodaputa. Sempre foi um fazendeiro respeitado, mas excêntrico. Eu nasci em fazenda, cresci num curral e sabia tudo sobre roça até começar a freqüentar sua casa. Já era viúvo e solitário. Eu tive que esquecer tudo que sabia pra lidar com ele. Falava de vacas como se fossem mulheres. Eu gostava das vacas de úbere grande; ele dizia que eram muito masculinas, que preferia vacas mais femininas. Eu gostava de vacas dóceis, ele preferia as tristes. Eu quis trazer toda tecnologia para ajudar no manejo do gado, mas me deparei com problemas básicos: ele não aceitava brincar, numerar ou marcar suas vacas. – É muita ignorância, dizia. – As coitadas têm nomes, justificava. Era um homem doce, gentil. Não era de dar conselho, não era de ensinar nada de nada. Ao cair da tarde, na varanda, se tivesse sorte, no máximo, você ouviria um caso antigo muito particular ou um comentário sobre um passarinho novo no jardim ou um lamento pelo mugido muito triste de uma vaca, longe no pasto [- Predileta está agoniada hoje!, explicaria ele também agoniado]. A fama de excêntrico era pelo fato de gostar de livros, não sei. Fazendeiros não gostam de livros. Ou de gostar de estar sempre só. Sempre só, banho tomado, com um livro velho nas mãos, na varanda, ao cair da tarde. Isso era ele, até que desistiu de viver e foi parar numa cadeira de rodas. Os médicos alegaram várias doenças: AVC, isquemias, essas coisas. Certo é que nunca mais andou, nunca mais falou. Eu sempre duvidei. Sempre achei que não vivia um estado vegetativo, mas um estado seletivo. Embora meu filho negue, tenho certeza que com ele, o avô conversava. A doença mudou tudo em casa, menos a relação apaixonada deles dois: avô e neto. Seguiram como se não houvesse doença. Muito estranho... Daí porque não me assustei quando meu filho me chegou com os chinelos sujos do avô. Vi logo que era uma trapaça dos dois. Até hoje, meu filho não derramou uma só lágrima pela perda de quem ele mais amava; ele só ri. Tenho certeza que ele sabe onde o velho está...

4 comentários:

Quim Drummond disse...

É Flávio,já ja vai sair um livro.
Quando baixa a inspiração ninguem segura...com certeza é o seu porto seguro em meio a tanta tempestade. Da uma grande satifasção ler estes textos, é com se a gente tirasse os sapatos e saisse por aí descalço sem eira nem beira a mode sentir as coisas simples desta vida.

Flávia disse...

Seu menino,

Que bom que você consegue se distanciar mesmo estando no meio do furacão.

Bj

Flávia

Anônimo disse...

Até eu, que leio sempre seu blog pra ver se decifro alguma coisa do nosso "aumento", me divirto com essas crônicas, por isso pergunto se tem continuação.
Bom é quando vejo que tem mesmo.
Gosto de escrever tbm, faz bem a alma de quem lê e principalmente de quem escreve.
Saúde e Paz.

Blog de Flávio de Castro disse...

Anônimo,
Não ponha sob responsabilidade desse blog informar sobre o 'aumento' do servidor. Essa decisão não me pertence. Eu desenvolvi uma linha de raciocínio e diversos cenários para análise do prefeito. Outras pessoas que integram o processo têm opinião divergente e ofereceram alternativa diversa. Cabe ao prefeito Maroca decidir e anunciar. Seguramente, superada a etapa de decisão e negociação, eu vou me sentir no direito de trazer pra cá alguns pontos para debate. Por ora, você sabem bem, não é correto que eu avance o sinal. Torço muito para que tenhamos uma solução de convergência.
Abs, Flávio