8 de mai de 2010

Menino - II

Eu acordei com a casa em polvorosa. Uns entravam, outros saiam. Uns perguntavam: - e então, alguma novidade?; outros respondiam decepcionados: - não, nenhuma. Minha mãe repetia: - não consigo entender como isso aconteceu; meu pai, num entra e sai, dizia: - calma, ele não pode estar longe... Eu perguntava: - que que foi, gente?; mas ninguém me dava atenção. Eu custei a entender que meu avô tinha sumido. Só me dei conta que esse era o motivo do transtorno quando vi sua cadeira de rodas vazia e a enfermeira em estado de choque dizendo sem parar: - eu o deixei dormindo e fui à cozinha preparar seu almoço como todo dia, como todo dia, como todo dia... Eu sai correndo pela varanda, rapidamente transpus o gramado, quase voando adentrei pelo pasto em direção ao rio. Sozinho. Na minha cabeça ecoava a voz do meu avô: - neto, manhã dessas, vou tomar um banho de rio. Quer ir comigo? Ou então: - neto, essa casa tem barulho demais, manhã dessas vou buscar um pouco de silêncio na beira do rio. Ele falava muito baixinho, baixinho e devagar quase dormindo, com a boca murcha. Era quase para não se ouvir. Ou era para só eu ouvir. E eu ria muito. E ele que parecia sempre muito ausente parecia gostar de meu riso. Mas não demonstrava. Com a voz do meu avô picando na minha cabeça, eu segui pela cerca, cheguei na beira alta do rio e desci até a prainha. Dito e feito. Estavam lá os chinelos do meu avô na beirinha d’água, bem na beirinha. Eu peguei e tive convicção: o danado do meu avô foi caminhando! E pelo mesmo caminho meu: seus chinelos estavam tão sujos de poeira e de lama do atoleiro de vacas quanto os meus. Igualzinho. Levei os chinelos e mostrei meu pai. Os empregados da fazenda fizeram um mutirão rio abaixo e só encontraram a bengala do meu avô. Ele mesmo que era bom, nada! Nunca mais. Minha mãe chora muito quando vê a cadeira de rodas vazia com sua manta dobrada. Eu tento chorar mas não consigo. Me dá uma vontade de rir sem fim...

3 comentários:

Anônimo disse...

Gostei da 2ª parte tbm. Bom fim de semana

Paulo do Boi disse...

Ou!

Que ótimo...

Raquel disse...

Cumplicidade também é bom demaisdaconta. Compartilhar momentos plenos. É possível.