10 de fev de 2010

Perdidos no espaço... da gaveta - I

Quando vim para Brasília,
trouxe na mala alguns ternos de pouco uso e livros.
Nada mais.
Um mês depois, trouxe também a solidão.
Não uma solidão qualquer,
mas uma esquecida companheira de infância.
Passados mais de trinta anos,
vejo surpreso que permanece a mesma...
e me traz a lembrança de tristezas antigas que julgava inexistentes.
Agora, dorme comigo todas as noites.
Às vezes, na minha cama,
às vezes no sofá da sala, ao lado de uma taça de vinho...
Não levanta cedo e não me acompanha nas caminhadas.
Raramente vai comigo ao trabalho.
Acidentalmente, me aguarda no elevador, na hora do almoço.
Silenciosa, percorre comigo o longo corredor do Ministério até o refeitório.
De quando em vez, às sextas-feiras,
me surpreende na minha sala, em pé, imóvel, junto à janela,
com o olhar distante sobre a esplanada...
Ontem, ao chegar em casa, aninhei-me na cama assim como se tivesse uma forte febre.
Mansa, sentou-se ao meu lado.
Não disse uma palavra.
Não despregou os olhos de mim.
Beijou-me a testa com o hálito doce de minha mulher.
Abraçou-me com os braços apegados de meus filhos.
Consolou-me com a respiração quente do meu pai.
E me acarinhou com as mãos sedosas de minha mãe.

Brasília, outubro de 2004

2 comentários:

.... disse...

Nossa. Que lindo!

Blog do Flávio de Castro disse...

Olha! ...., você desenterrou esta?! Que bom que gostou.