27 de out de 2009

Vai de zelo

Há alguns anos, Caio Pacheco, esse amigo extraordinário, me pediu um artigo sobre planejamento urbano para o jornal Atual que foi lançado, mas, infelizmente, não prosperou. Eu não queria falar tecnicamente sobre o assunto, porque tinha certeza que produziria um texto chato. Foi quanto me ocorreu escrever um diálogo imaginário com o passado, usando para isso o meu avô Jaime Branco. Como sou bom em perder sono, acabei achando, nesta madrugada chuvosa, a versão original desse texto nos meus baús do sótão. Republico. Espero que gostem...

Estou me lembrando aqui do unforgettable encontro que a tecnologia digital agendou entre Nat King e Natalie Cole. Fico imaginando, em meio a essas virtualidades, se nossa geração pudesse encontrar-se com a geração passada, de quando Sete Lagoas era ainda um cisco de lugar. Um só instante, uma só pessoa que fosse. Digamos que fosse Jaime Branco, meu avô, que retornasse para esse devaneio. Eu o procuraria, ao cair da tarde, no fundo da fábrica de farinha, solitário, em frente à banca da oficina afiando as navalhas da canjiqueira. E aproveitaria seu longo silêncio para pôr em dia as novidades. Eu diria de quantos somos hoje, de até aonde a cidade chegou... e imagino sua cara de surpresa, suas frases incompletas “mas ali é a fazenda de fulano...”, talvez eu falasse das dificuldades com a água e ouviria um “isso não existe...” e se eu descrevesse o crescimento da região norte, talvez ele comentasse “tão adiante, queria conhecer as avenidas...” Que avenidas, vô?! (E o som febril do esmeril faria um providencial intervalo).

“Isso não foi pensado?!”, reabria ele a prosa. Não, não foi. Ou em parte foi. Ou foi mas não foi feito. Mas onde eram os trilhos, foi... E daí talvez tangenciássemos para uma conversa sobre o planejamento da cidade. Já não vejo então surpresa nos seus olhos. Talvez sequer tirasse a atenção das navalhas. Ainda que eu usasse todos os adjetivos: estratégico, compreensivo, holístico, racionalista, científico ou mais, participativo, popular... Ainda que eu expusesse com réplicas e tréplicas. E falasse de recursos, de orçamento. De metodologias e processos... (Silêncio! Em resposta, apenas o som ardido do esmeril).

“Cidade é igual gente” quebraria ele o silêncio. “Você acha que planeja o futuro. Pretensão! Você apenas faz sua parte no seu tempo. Educa. De resto, ...” Eu cortaria para argumentar que se faz hoje com vistas no amanhã. Que temos que ser um pouco futuristas. (Só silêncio!). “Não há vidência. Bobagem! Você sabe se o menino tá no caminho, desde sempre. Se desanda no adulto, você lembra da infância. Tava lá o jeito, você não quis ver....” Acho que mais uma vez reagiria dizendo que isso é acreditar no imponderável, que temos que monitorar o processo, que... (e o som irritante do esmeril).

“Ninguém monitora a vida. A cidade não é um, mas muitos processos. Você não controla, apenas sugere... Planejar é propor uma solução para um problema. Coisa real. Não tem nada de futurismo. Quem acha que vê o futuro, apenas se dá conta do presente. A gente nasce antigo, ultrapassado, e custa atualizar no tempo, ficar contemporâneo”. Eu esboçaria uma reação. (E o diabo do som do esmeril agora não vem).

“Não veja a cidade como um problema, mas uma solução. Se tem um problema, ele próprio traz o remédio. Nada vem de fora. Planeje e peleje! Repare! A melhor solução é a mais natural. A que parece óbvia! Não é caso de adivinhar. É de apurar a sensibilidade para enxergar.”

Vejo agora sua imagem sumindo como sua geração, ele levantaria a última navalha contra a luz inexistente da quase noite. Sem enxergar, conferiria com o polegar o fio da lâmina e desligaria o esmeril. Uma figuração. Em meio ao absurdo silêncio, a última palavra, dando razão ao meu amigo Brenão, filho de D.Tereza: “Vai de zelo!”.

7 comentários:

Anônimo disse...

Que texto... emocionante...

Vc precisa fazer mais disto.

Vivenciei a cena, como um espectro na luz... pareceu-me um eco do passado.

Valeu, Flávio.

Cordialmente,

Amaro

Anônimo disse...

O belo texto justifica porque o artigo de Flávio de Castro era importante para o jornal "Atual", uma ideia que, infelizmente, não foi adiante. Será que foi falta de planejamento? Mas o artigo ilustra a realidade da cidade, empresta luz mesmo a quem não enxerga e nos remete a um saudosismo impossível de não ser sentido.
Brilhante, Flávio. Pude ver "seu" Jaime, seus olhos, ouvir sua voz, perceber sua entonação. Ver vocês dois dialogando foi como parar o tempo e pairar sobre a cidade.
Que bom!
Caio Pacheco

Anônimo disse...

Espectro de luz. . .
Fluídica . . .
Transcendente . . .
Velha e Atual . . .
Contemporânea e Antiga . . .
Urbi et Orbi.

Escrever é cortar palavras, já dizia Manuel Bandeira. Escrever de maneira concisa e precisa. Não perder o valor da mensagem.

Este é seu texto, estas são suas palavras. Estas são as matrizes interpretativas com as quais somos brindados por você Flávio.

Estupendo!

ENIO,

Pablo disse...

Pablo Alessandro Pacheco nasceu sobrinho de Caio Alessandro Pacheco. Então, sinto-me intimado a comentar este post.

Mais do que intimado, posso afirmar que sinto-me feliz de, a tempo, conhecer o Flávio escritor.

Como essa vida adora brincadeiras, justamente no momento em que o Flávio político chegou a Sete Lagoas, o Pablo jornalista procurou outros ares profissionais - primeiro, em BH; depois (e, apenas acho, definitivamente), em Uberlândia.

Com a necessidade de me achar no jornalismo, resta-me torcer por Sete Lagoas, daqui do Triângulo. E aparecer na terra natal para a prosa no Aconchego (olha o merchã!).

Abraço e parabéns pelo texto, Flávio.

Anônimo disse...

A palavra une. Eis que o brilhante texto de Flávio, este grande amigo, reúne dois grandes nomes: o sociólogo e amigo Ênio Eduardo e o jornalista e sobrinho Pablo Alessandro Pacheco.
Além de brindar a vida, seu texto, Flávio, nos permite ter reencontros com aqueles que realmente gostamos.
Escreva sempre!

Caio Pacheco

Pablo disse...

Não vale fazer merchã da família, tio!...rs

Anônimo disse...

Infelizmente não pude conhecer o Sr. Jaime Branco, já ouvi falar...mas graças a Deus tive oportunidade de conhecer seu neto Flavio de Castro! Parabéns pelo texto, belissimo...