4 de out de 2009

Melancolia

Eu passei a freqüentar mais BH em 1975. Em 77, mudei pra lá, depois entrei pra faculdade de arquitetura e segui em frente. Foram os últimos anos da ditadura. Pré-anistia. Anos estranhos. Eu lia o velho Jornal do Brasil por influência de pai. Lia a coluna do Castelo e os artigos de Tristão de Ataíde. Lia o jornal Movimento e o Pasquim. A ditadura ainda era pesada. Mas, naqueles dias, era mais fácil interpretar o mundo. Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Prestes, Dom Hélder, Dom Pelé, depois Lula e os sindicalistas, eram do nosso lado. Delfim Netto, do milagre econômico, todos os militares no poder, a turma da Arena, não. Não tinha coluna do meio. A coluna do meio tinha nome: dedo-duro, pelego, coisas do gênero. O que se tinha era o lado de lá e o lado de cá. O Brasil falava português, como hoje, e o resto da América Latina, espanhol, como hoje. Não havia Mercosul, mas havia mais identidade. Não se conversava com ninguém numa mesa de bar que não tivesse lido ‘As veias abertas da América Latina’, do uruguaio Eduardo Galeano, ou ‘Cem anos de solidão”, do colombiano Garcia Marquez, ou ‘Quarup’, do brasileiro Antônio Calado, ou algum poema do argentino Jorge Luís Borges. Muitos amigos pegaram o ‘trem da morte’ e foram a Machu Picchu, no Peru. Fazia parte. Eu não gostava muito, mas aceitava as poesias de Thiago de Melo. ‘Roda viva’ de Chico ainda repercutia. Eu participava de pastorais de esquerda que eram de esquerda e o CCC era de direita. Quando fui ver Mercedes Sosa no Palácio das Artes, o ambiente era esse. Talvez, hoje, por saber que ela está à beira da morte, tenha sido tomado por certo clima de melancolia. Me peguei assobiando ‘volver a los 17’ várias vezes nesta tarde. E me peguei recitando mentalmente longos trechos do chileno Pablo Neruda que adorava e vi que continuam guardados numa gaveta da memória. Coisa como ‘desde el fondo de ti, y arrodillado, un niño triste como yo, nos mira’ ou suas histórias sobre Temuco e a Araucania ou sobre o piano de sua infância. “Para escribir también me hicieron falta por el mundo las goteras. Las goteras son el piano de mi infancia. Mi padre siempre hablaba de comprar un piano que, además de permitir a mis tías tocar mi adorado vals "Sobre las Olas", pondría sobre nuestra familia ese título inexpresablemente distinguido que da la frase: "tienen piano". Mi padre, en los momentos que le dejaba libre su vida de movilidad perpetua, porque era conductor de trenes, llegaba hasta medir las puertas por donde iba a pasar aquel piano que nunca llegó. Pero el gran piano de las goteras duraba todo el invierno. A la primera lluvia se descubrían nuevas goteras de voz dulce que acompañaban a las viejas goteras. Mi madre repartía sus cacharros, lavatorios, jarros lecheros y otros artefactos. Cada uno daba un sonido distinto, a cada uno le llegaba del cielo tempestuoso un mensaje diferente y yo distinguía el sonido claro de un lavatorio de fierro enlozado del opaco y amargo de un balde abollado. Esa es casi toda la música, el piano de mi infancia, y sus notas, digamos, sus goteras, me han acompañado donde me ha tocado vivir, cayendo sobre mi corazón y sobre mi poesia”. Eu não tinha sequer 18 anos e, por certo, fui, naqueles dias, o melhor que poderia ser e que jamais, lamento, consegui ser adiante.

Como ia dizendo, naqueles dias, era mais fácil interpretar o mundo. Agora é dificílimo. Os partidos se multiplicaram, os velhos partidos se transmutaram. E os lados de cá e de lá se misturaram. O MDB da resistência tornou-se PMDB. E o PMDB tornou-se uma coligação com posições ideológicas de 'a' a 'z'. A Arena de anteontem, o limite da direita, tornou-se PFL ontem, e DEM hoje. Ou seja a turma da ditadura, que não gostava nada de democracia, agora atende pelo nome de Democratas. O Partido Comunista Brasileiro, o PC da clandestinidade, depois d'O PC é legal', o partidão, agora é PPS. E apareceu o dissidente PCdo B. E o Partido Socialista, o PSB. E o PT e o PSDB. E por aí vai. A maluquice é quando se faz a chamada e se observa quem do passado foi parar aonde no presente. Ou quando se observam os movimentos políticos atuais com olhos saudosistas. O que, nestes dias, a um ano das eleições, época de troca-troca de partido, chega a ficar bizarro. Não dá trabalho, por exemplo, achar um partidário do PPS com malas prontas para o DEM e vice-versa. Ou seja, da então esquerda clandestina diretamente para o partido da ditadura... Era impensável. Empresário da FIESP indo da Avenida Paulista, sem escala, para o socialismo também anda mole de se ver... Não era possível! Mundo complexo, muito complexo... Ou cômico.

2 comentários:

Quim Drummond disse...

Poxa Flávio, voce me os olhos lacrimejar. Primeiro nos presentear com o post da linda canção "Gracias a la vida". Minutos de lembranças nos movimentos por um Brasil justo e igualitário, liçoes inciadas por mestres como Pereló, Miguel e Pesquero no antigo seminário.O nosso principio doutrinário sempre foi o evangelho. "Teoria exótica"era a fala deles, justificativa para torturar e matar.Hoje o Brasil é outro com toda certeza e Lula me parece ser uma dessas pessoas Iluminadas que surgem com um propósito certo no mundo. Vamos em frente com nossas esperanças e as lembranças.

EDU ROCHA disse...

muito bom seu texto. parabéns!
Sou arquiteto, doutorando ufrgs, e venho trabalhando com as arquiteturas do abandono, e com a melancolia...
Leia Filosofia Cinza, da Marcia Tiburi!
Abraços,
Edu Rocha,
http://arquiteturasdoabandono.blogspot.com