20 de jun de 2009

Borges

Jamais consegui decidir entre eu e eu mesmo.
Entre o meu gesto mais espontâneo e um outro calculado.
Entre a minha custosa virtude e o exuberante defeito dos outros.
Entre ser um pouco comedido ou muito passional.
Entre bater, xingar e blasfemar.
Ou apenas calar.
A propósito, gosto do silêncio.
Mas gosto mais ainda da racionalidade de uma risada insana.
Da sensatez de uma explosão de ira...
Sinceramente, adorei a primeira exposição que fui de Sebastião Salgado.
Tanto quanto a odiei assim que virei as costas:
Não havia ninguém. Só cadáveres...
Desde então, não gosto mais de fotos cultas.
Como as de tuaregs, com todas as almas subtraídas.
Não gosto da eternização de nada.
Mas admiro a serenidade exatamente porque me parece eterna.
Tão eterna quanto a loucura...
Fico noites sem dormir, sem causa aparente.
Nestas horas, só ‘los justos’ de Borges me acalmam.
Aceito que “un hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.”
Concordo que “Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo”.
Mas, ao mesmo tempo, não gosto nada dessa história de salvar o mundo...
E, pra dizer a verdade, me sinto seduzido pela idéia da vadiagem.
E do descaso, e do desleixo e da revolta.
E da imperfeição...
E morro de vontade de ser, um dia, um desses cafajestes ‘bon vivant’.
Mas não nego que me abala a paz desse poema.
É que ela me acalma...
Ainda que, em troca, reserve na alma espaço para algum tormento.
Nessa hora, evoco Santo Agostinho.
Como ele, peço a Deus: “Dá-me a castidade, mas ainda não agora!”
Que me deixe disponível, por ora, ao pecado.
Embora não consiga decidir, por enquanto, o que fazer com ele.

Flávio - Bsb, 18/09/2005

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