9 de mai de 2007

Direita e esquerda segundo Touraine e Mendes

Recomendo a leitura da coluna do Merval, n’O Globo de hoje. Merval fez a cobertura das eleições francesas e fala, agora, do processo pós-eleitoral, especialmente do “pacto presidencial” proposto por Sarkozy e do “alargamento” de sua base que isto provoca, sobretudo, sobre os centrista de Bayrou...

Mas o mais interessante está na discussão que ele retrata sobre esquerda e direita, trazendo para a cena o sociólogo Alain Touraine e o professor Cândido Mendes. Merval reconhece que “a clivagem entre direita e esquerda, que havia perdido sua importância no primeiro turno, quando muitos da esquerda votaram em Bayrou, voltou a aparecer com força no segundo turno, como não poderia deixar de ser, pela polarização do debate”. E que esta clivagem esteve presente em pontos de conflito da campanha como, por exemplo, no apoio à democracia direta da esquerda versus o apoio à democracia representativa da direita. Touraine e Mendes entram no artigo polemizando sobre a validade ou não e sobre o sentido dessa categorização:

A Diferença entre direita e esquerda “na essência histórica da democracia representativa” era a correspondência entre a divisão de classes e a divisão política, “a direita representando os conservadores e a esquerda, o mundo do trabalho”. Não é mais assim... AT

“A democracia representativa desapareceu porque, de uma parte, os grupos sociais mais representativos, os que reúnem as classes sociais, se fragmentaram, não se sabe mais o que representa o quê”. AT

“A oposição no nível político se esvaziou; a oposição do tipo sindical se esvaziou, e hoje o que há é o sistema hegemônico mundial”. AT

Sobre a ‘hiperfragilidade’ dos governos Merkel, na Alemanha, e Prodi, na Itália, e a ‘ampliação excessiva do espectro político nas negociações em busca de um consenso impossível’, pergunta-se: “onde parará essa transação, uma vez perdida a referência das polaridades? Onde terminarão as concessões?” CM

Dentro da ‘confusão instalada’, destacando os movimentos de base da democracia “que quase todos os dias colocam em discussão as dimensões culturais, de personalidade, do corpo, da natureza”, ‘passamos de uma sociedade de partidos para uma sociedade civil'. AT

“Há um deslocamento do nível de polarização, mas há uma polarização muito forte entre a hegemonia global e o indivíduo, o sujeito, o local. Não há uma diminuição da polarização, mas uma troca de nível da vida pública”. AT

8 de mai de 2007

Direita e esquerda

As eleições francesas, independente de seus resultados, trouxeram novidades que merecem reflexão. Uma delas, é que elas parecem ter feito emergir novamente a diferenciação entre esquerda e direita, tão tênue mundo afora. Sarkozy é direita porque defendeu teses da direita. Royal é esquerda porque defendeu teses da esquerda. Nada de preconceitos no uso desses atributos, como aqui, mas pura definição ideológica. Os franceses, que compareceram maciçamente às urnas, mesmo os que desprezam essas colorações, sabiam muito bem que tinham duas posições nada parecidas à escolha. Ainda que na economia essa demarcação tenha mostrado seus limites, com o menor liberalismo de Sarkozy, isso não foi suficiente para mimetizar as posições. Aliás, esse movimento de ‘modernização’ da direita parece ser tendência no velho mundo, renovando também o discurso econômico de Cameron no Reino Unido, fortalecido pelas perdas trabalhistas. E mesmo para adiante do velho mundo, para além mar, esse movimento de pretensa ‘modernização’ parece comover até os Democratas, ex-pefelistas, brasileiros. A despeito dessa tal modernidade, entretanto, no campo dos costumes, aqui e lá, não há aproximação alguma. Aí a direita é sempre profundamente conservadora, de Sarkozy a Le Pen, de Maia a Bornhausen...

6 de mai de 2007

Perdi todas

Domingo infeliz. Perdi todas as apostas.
Perdi com Ségolène Royal na França.
Com o Cruzeiro em Minas.
Com o Bota no Rio.
Com o azulão em São Paulo.
Literalmente: um domingo dos piores!

5 de mai de 2007

Combate ao aquecimento: barato e viável

Essa é a conclusão do 3° relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas que os jornais estamparam hoje. A ONU diz que o aquecimento pode ser controlado a um custo "insignificante". Que para limitar o aumento da temperatura média em 2° será preciso gastar entre 0,2 e 3% do PIB global em 2030. Esses recursos permitiriam uma redução de até 85%, em 2050, do volume de emissões de gases em 2000. Ao contrário, afirma que não fazer nada custará caro: o não combate ao aquecimento poderá gerar prejuízos de até 20% do PIB mundial. Além de investimentos em tecnologia, o relatório menciona um ponto crítico: a necessidade de mudança do padrão de consumo individual. Ou seja, os governos precisam tornar possível essa mudança individual. A propósito, o diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto do Meio Ambiente e Desenvolvimento do Reino Unido, Saleem Huq, frisou: "- Podemos reduzir as concentrações de gases? Claro que sim. Mas há dois aspectos que precisam ser alcançados: o tecnológico e o político. Esse último é o mais difícil". A política que deveria ser a arte de solucionar é sempre, em todo lugar, a arte de dificultar...

Pimentas

Roberta Caldo - Mercado Khan el Khalili, Cairo

Deus!...

Está no Estado de Minas de hoje. Duas siamesinhas de 1 ano e 9 meses, Vitória e Mariana, recuperam-se bem da cirurgia de separação a que foram submetidas na Santa Casa, há uma semana. Já respiram sem aparelhos e experimentam as primeiras sensações da vida nova. Mas o curioso é que elas não estão alegres... "as duas se olham o tempo todo, como se sentissem saudade uma da outra e tivessem perdido uma parte de si mesmas".

"De acordo com a coordenadora de enfermagem do CTI Pediátrico, Raquel Helena da Silva, as meninas foram preparadas psicologicamente para a cirurgia, mas até o momento elas demonstram tristeza, por causa da separação. 'A psicóloga do CTI mostrava uma boneca azul e outra vermelha que estavam juntas e depois explicava que elas iam se separar. Mostrava que cada boneca ocuparia um berço. Não sei até que ponto elas entenderam, o fato é que depois da cirurgia as duas ainda não deram uma palavra, nem chupar o dedinho, que era o costume, elas quiseram', conta Raquel".

3 de mai de 2007

Tá no blog do Zé Dirceu...

Já postei aqui, algumas vezes, comentários sobre os problemas sócio-ambientais relacionados à lavoura da cana, nesse momento em que só se fala em etanol. O Zé Dirceu, em seu blog, hoje, postou um comentário muito interessante, que vale a pena ser lido. Vai aí...

Com a “febre" do etanol e do biodiesel, a imprensa passou a pautar o noticiário sobre as péssimas condições de trabalho e de vida de nossos trabalhadores rurais cortadores de cana, os novos escravos do século XXI. Já falei aqui como essa mesma mídia tratava o PT quase como criminoso pelo apoio que dava as lutas e rebeliões dos cortadores de cana na década de 80. Agora, antes tarde do que nunca, assumiu a bandeira de melhores condições de vida para os antes chamados bóias-frias, por razões que só a própria razão conhece.

Tenho opinião formada que devemos é eliminar essa forma de trabalho. Já cortei muita cana em Cuba e sei muito bem o que é. Temos que caminhar para a mecanização do corte, que acaba também com a queima da cana. É uma visão errada a que procura manter os cortadores alegando que ficarão desempregados com a mecanização.

Primeiro ela veio para ficar. No Estado de São Paulo, 45% da cana já é cortada por máquinas. E nas regiões Centro-Oeste e Sul, 36%.

Segundo, o que o Estado, governos federal, estadual e municipal, tem que fazer, e os empresários e trabalhadores, por seus sindicatos, é dar ao trabalhador formação profissional para os novos tempos.

Temos que criar mais empregos em todo pais - 2 milhões por ano pelo menos. Em geral, a agro indústria e o crescimento dos serviços absorverão esses trabalhadores, que precisam, repito, estar em capacitados para tanto.

Enquanto não vem a mecanização e a profissionalização, proponho que as centrais sindicais assumam a luta pelas 6 horas de trabalho, alimentação quente e farta, piso salarial e segurança no trabalho. Vamos defender nosso trabalhador e não apenas ficar lamentando sua situação.

1 de mai de 2007

1º de maio

Feriadão. Dia do Trabalho. Com assento no governo, as duas principais centrais sindicais não tem como usar palavras de ordem à moda antiga. A Força vai de meio ambiente; a CUT de inclusão social. Emoções fortes só a la Bolívia. Hoje é dia do companheiro Juan Evo Morales Aima aprontar uma das suas...

Há 13 anos...

... morria Ayrton Senna. No dia 1º de maio de 1994, Senna morreu tragicamente durante o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália, após bater sua Williams na curva do Tamburello...

Há 30 anos...

... surgiam as mães da Praça de Maio. No dia 30 de abril de 1977, 14 mães desafiaram a ditadura argentina, reunindo-se na Praça de Maio, em frente a Casa Rosada, para exigir informações sobre seus filhos sequestrados. 18 mil pessoas desapareceram durante a ditadura militar que governou a Argentina de 1976 a 1983...

A polêmica ambiental

O assunto voltou com a força toda. Depois do embate do final do ano, que se encerrou com relativa vitória da ministra Marina, inclusive naquilo que o PAC trouxe sobre matéria ambiental, a contenda desenvolvimento versus licenças ambientais está de volta aos jornais. A manchete é que o IBAMA está inviabilizando obras importantes para o país em razão de um comportamento 'onguista' associado ao uso de estratégias pouco convencionais de criação de impedimentos judiciais em lacunas da lei. Alguns comentários:

1. Há 30, 40 anos quem percebeu a relevância da questão ambiental não foram as cabeças iluminadas do tal setor produtivo, tampouco os arautos da nova matriz energética. Foram exatamente os ambientalistas, hoje reunidos em ONG's, agora tão criticados;
2. Em tempos de aquecimento global, fora os discursos de produção limpa, revisão de padrão de consumo, tecnologias poupadoras de recursos etc e tal, na prática, o Brasil segue como um dos 5 maiores emissores de gás carbônico, a nossa redentora cultura da cana para produção de etanol segue sem regulação sócio-ambiental, as máfias ambientais como a do carvão seguem a vida... Ou seja, nada, concretamente, diz que os ambientalistas e suas armas pouco ortodoxas já não são mais necessárias;
3. Digo isso para concluir que embora seja óbvio e exigível que os procedimentos de licenciamento ambiental devam guardar absoluto profissionalismo, racionalidade e segurança jurídica, nada me diz que o tensionamento dos setores ambientais, dentro e fora do governo, deva ser arrefecido frente às exigências do 'progresso'. Sustentabilidade, por ora, não existe...
4. Quando me refiro a 'profissionalismo, racionalidade e segurança jurídica' estou pensando que devam ser feitas escolhas, as mais adequadas. Que não existe impacto ambiental zero. Que o enfrentamento do tipo 'nada-pode' pode levar, contraditoriamente, a escolhas ambientalmente piores. Mas vejo os mesmos termos serem utilizados, por exemplo, para expressar 'simplificação de procedimentos' em favor de interesses não propriamente públicos;
4. Há um enorme preconceito em tudo isso. É fácil associar ambientalismo com amadorismo. Mas me responda quem puder: os setores de planejamento do governo - não deste governo apenas, mas também - são menos amadores? O que imperra mais o processo: a falta de licenças ou a falta de projetos?
5. A propósito, matéria no Correio do dia 29/04 traz o seguinte título: "Vários responsáveis - Atraso no licenciamento ambiental para projetos de infra-estrutura não é culpa somente do Ibama. De 10 projetos pesquisados pelo Correios, apenas um - o das hidrelétricas do Rio Madeira - está parado no órgão". A reportagem lista as obras da usina Belo Monte no Rio Xingu, da ferrovia Transnordestina, da duplicação da BR-101 no Nordeste, da integração da bacia do Rio São Francisco, de Angra 3, das perimetrais do porto de Santos, da BR-163 - Cuiabá/ Santarém, do gasoduto Urucu-Porto Velho e da Br-230 - Transamazônica como obras 'liberadas, mas paralisadas';
6. Quem pode me garantir que o não licenciamento, até o momento, das usinas do Madeira decorrem de inoperância do Ibama e não de má instrução de projeto? Há muita fumaça aí...