24 de fev de 2007

Céus de Brasília

Lula Marques, da Folha. Brasília 07/12/06

Os céus de Brasília são inesquecíveis... No mesmo dia, na mesma hora, não um, mas vários céus recobrem esse planalto. Hoje, enquanto dois terços de Brasília estava sob céu azul, com direito a trânsito de ultraleves e helicópteros, o sudoeste-oeste estava sob nuvens negras, alguns trechos em chuva. Para além, no horizonte, o sol encoberto localizava furos nas nuvens e soltava raios amarelados incompreensíveis. Ao cair da tarde, as mesmas nuvens negras, o mesmo sol encoberto, os mesmos fachos de luz, agora absolutamente vermelhos.

15 de fev de 2007

Tô fora...

O Carnaval não é mais o mesmo... Enquete no portal Terra, já com quase 190 mil votos, mostra que quase todo mundo está fugindo da farra: 66% dos internautas vão descansar; 18% vão trabalhar; apenas 16% vão cair na folia...

Água: morte anunciada

A agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação, a FAO, divulgou estudo mostrando que o consumo de água dobrou em relação ao crescimento populacional no século XX. A projeção é de que 2/3 da população enfrente um quadro de escassez, em 20 anos. Um bilhão de pessoas, hoje, já não tem acesso a água limpa suficiente. E 2,5 bilhões não tem saneamento básico adequado. A própria FAO reconhece que o problema da água não é de tecmologia, mas de decisão política: "A comunidade global tem conhecimentos para lidar com a escassez de água. O que é necessário é agir".

Cinema, aspirinas e urubus

Não foi à toa que o filme 'Cinema, aspirinas e urubus' foi tão premiado e tão bem recebido pela crítica. Eu fiquei muito impressionado. Não dá para acreditar que é um filme de um diretor estreante (Marcelo Gomes). A história é simples e tem um roteiro muito bem amarrado. Os diálogos são enxutos, precisos, reais e têm uma dose de humor. As interpretações são impecáveis. A fotografia é linda. O filme é de época (1942), mas não parece ser, tal a naturalidade e a falta de excessos. Todo mundo tem que assistir!

[Uma fala hilária do personagem Ranulpho: "Isso é sertão: miséria, coronel e piada de corno."]

Joões Hélios aos milhares...

Em seu blog, Ricardo Noblat divulga os seguintes números creditados a estudo da UNESCO:
550.000 brasileiros morreram nos últimos 24 anos, vítimas de armas de fogo. Desses, mais de 205.000 tinham entre 15 e 24 anos de idade. Ou seja, os jovens foram as vítimas preferenciais. Entre 1979 e 2003, foram 8.541 mortes de jovens por ano. Morreram, portanto, 23 jovens a cada dia

AeroSerra

O governador de São Paulo, José Serra, recomprou o avião HC vendido pelo ex-governador Geraldo Alckmin. Não me parece uma excentricidade o governo paulista, sendo São Paulo o que é, ter uma avião próprio. O mal estar fica por conta da suspeição que esse fato cria de que argumentos de campanha são sempre blefes. O então candidato Alckmin repetiu, na campanha presidencial que mal terminou, o mantra "Vou vender o AeroLula". Fez um barulho danado. Dava como exemplo e garantia o antecendente da venda do tal HC em sua administração no estado de SP (Se bem que soube-se, depois, que quem efetivamente vendeu não foi ele, mas o governador Lembo que o sucedeu... mas isso não vem ao caso). Vinculou essa posição a uma austeridade gerencial, parte do tal "choque de gestão" com que o PSDB quer ser conhecido, aqui e alhures. Puro marketing...

14 de fev de 2007

Deu no blog do Zé

PAC Social
"Muito boa a iniciativa do ministro Patrus Ananias, ex-prefeito de Belo Horizonte e um dos deputados federais mais votados do Brasil em 2002, de propor ao presidente Lula um "PAC Social", que atenda também os jovens até 18 anos, inclusive com programas de capacitação profissional, e amplie o caráter do Bolsa Família, além de criar um programa nacional de cadastro civil. Dar atenção especial à juventude é um dos nossos maiores desafios".

Novos bárbaros...


O problema não é a lei, mas a impunidade...

A morte do menino João Hélio pôs o assunto da segurança pública na ordem do dia. É muito bom que isso aconteça... Mas é lamentável que tenha sido necessário um episódio tão dramático para despertar as consciências dos agentes públicos que podem contribuir na solução desse problema gigantesco. É lamentável que o sacrifício cotidiano de milhares de jovens anônimos, pobres nas periferias das metrópoles, não sirva para nada, nem para despertar autoridades...

O Senado discute hoje seis emendas de redução da maioridade penal. Discute também a proibição de contingenciamento de recursos para segurança. A Câmara põe em pauta projetos sobre progressão de penas e prescrição de crimes... As cabeças mais esclarecidas, entretanto, sabem que esse não é o melhor momento para essas iniciativas. A emoção, a revolta não são boas conselheiras...

O problema é que desfeito esse clima, a chance de que tudo continue como antes no quartel de Abrantes é grande. Tem sido assim... E assim, a essência da questão não é tocada: a impunidade! Mudanças equilibradas na legislação são importantes, tanto quanto ineficazes se a lei não é cumprida. E não tem sido cumprida... Esse é o futuro provável: enquanto discutimos se os assassinos merecem ou não a ‘pena de morte’, eles são fortes candidatos a ganharem, não muito longe, a liberdade...

Acho que o país devia concentrar esforços e energias nesse ponto: a garantia da aplicação da lei. Se a lei atual for aplicada já será um bom começo... A morosidade da tramitação processual na justiça brasileira é inaceitável. O ministro Márcio Thomas Bastos focou esse aspecto, ontem, com muita propriedade. O mundo-cão, medieval em que consiste nosso sistema prisional precisa ser atacado. A incapacidade do Estado brasileiro de dar cumprimento ao Estatuto da Criança e do Adolescente, com ações sócio-educativas para menores infratores, precisa ser solucionada... Jovens como os que mataram João Hélio são, quase sempre, reincidentes. Se a lei tivesse sido aplicada, antes, teria evitado essa barbárie, agora.

13 de fev de 2007

Mais filmes

Da série 'férias é férias', mais alguns filmes: [1] 'Efeito borboleta' tem um roteiro e uma trama muito intrigantes. A dúvida entre se tratar de um caso de loucura ou de ficção, entre o que prevalece, é muito provocadora... [2] 'Click' é perda de tempo. [3] 'Tempo de espera' de Moufida Tlatli é curioso para quem se interessa em desvendar o mundo árabe. Em continuidade a 'O mistério de Kasbah' e a 'Sob o céu do Líbano' torna-se ainda mais interessante. No meio do filme, vem a sensação de que a lição já havia sido dada e que não havia mais nada de novo. E isso é verdade. Ainda assim a relação de autoridade em torno da mulher libaneza chama a atenção. [4] Já 'V de Vingança' é demais! É uma adaptação muito bacana da história em quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd publicada no início dos anos 80. Num tempo alternativo, num passado futurizado, numa Inglaterra totalitária, pós-nuclear, pós campos de concentração, monitorada a la George Orwell, surge um libertador, terrorista, anárquico, cênico, com a máscara de Guy Fawkes (um personagem real da história inglesa, da Conspiração da Pólvorta de 1605), ou melhor, com o ímpeto de Fawkes. O resto só vendo o filme...

11 de fev de 2007

Palavras inúteis sobre a morte do menino João Hélio Vieites

Uma barbaridade assustadora! Não há como adjetivar essa coisa. O país deparou-se, enojado, chocado, com essa história incompreensível. Mas que, paradoxalmente, vai se tornando comum. Dessa vez colheu a ingenuidade de um menino de seis anos, arrastado, preso ao cinto de segurança, por 7 quilômetros, por 4 bairros, em mais um caso de roubo de carro no Rio...

O único tributo possível ao menino João Hélio é que se faça justiça. Mas que justiça é esta?

Enquete na Internet está dando conta de que 66% dos internautas querem a ‘pena de morte’. Outros 30, a ‘prisão perpétua’. Apenas 4% contentam-se com a aplicação da lei atual... Com justa indignação, a ampla maioria quer a morte dos bárbaros. E os bárbaros a serem mortos não são velhos gangsters, experientes arquitetos de ciladas. Os bárbaros são jovens pobres recém chegados à maioridade, alguns nem isso. Se para esse crime o mais justo for matar, é bom que o país prepare a alma para uma matança interminável...

O Brasil anda produzindo jovens aos montes. E a maioria deles pobres. E embora pobre não tenha nada a ver com bandido, o país conspira para que tenha: uma multidão de jovens nasce nas periferias pobres das grandes cidades, em famílias desagregadas, convive, desde a infância, com tiroteios, drogas e armas, idolatra a bandidagem na falta de outras referências, não tem oportunidade para construção de valores éticos, nem acesso a formação profissional, nem acesso a trabalho. Nós todos sabemos disso: a demografia conspirou para criar uma multidão de jovens sem nenhuma oportunidade. Muitos desses jovens acabam fazendo besteira, tornam-se bárbaros e, antes dos 18, vão receber como prêmio a pena de morte... Ou seja, o país leva uma legião de jovens a se tornarem bárbaros, e porque são bárbaros quer levá-los à morte...

É inútil dizer isso... Incomodamente, a compreensão social do problema torna intangível a noção de justiça... E João Hélio merece justiça! Apurar com transparência e punir os responsáveis com as penas atuais já será um bom começo. Enfrentar o problema da segurança pública nas grandes cidades com mais competência é o passo seguinte... Enfrentar o problema social, reparando uma injustiça histórica com a juventude, será a única justiça definitiva... A simplificação do que seja fazer justiça - chegando quase à 'justiça com as próprias mãos' - pode ser o caminho para aplacar a revolta nacional. O preço é que esse caminho poderá nos transformar a todos em bárbaros...

8 de fev de 2007

Atacado

[1] Vai longe a repercussão na imprensa da já estigmatizada ‘volta das disputas de tendências’ do PT. Coloca-se de um lado o PT de José Dirceu e, de outro, o do ministro Tarso Genro. Nem uma coisa é exatamente isso, nem a outra é a pura verdade. Há sim, isso é verdade, visões políticas e práticas em disputa. E visões e práticas em disputa e debate acirrado deveriam marcar não apenas o PT, mas todos os partidos. O PT, com todos os erros - que precisam ser espiados, que precisam ser claramente discutidos - é o único partido que tem processos democráticos de eleição interna. Para o próximo Congresso espera-se uma ‘bela de uma briga’ e ‘muitas teses’. Que venham belas brigas e muitas teses. É disso que o PT está precisando... Muito melhor do que o PFL que acredita que para avançar basta mudar de nome: não mais PFL, agora PD – Partido Democrático. E melhor também que o PSDB que acredita que democracia resolve-se com uma pesquisa de opinião e com acordo de dois ou três grã-tucanos...

[2] A propósito da mudança de nome do PFL, vale a leitura dos comentários postados pelo Josias de Souza em seu blog:
“Como interpretar a novidade? Ora, não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Na certidão de nascimento, o novíssimo PD continua sendo a velhíssima legenda de sempre. Uma filha do poder ditatorial da Arena com o oportunismo eleitoral da dissidência do PDS”.
(...)
“De novo: não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Como dizia Nelson Rodrigues, “o jovem ou é um Rimbaud ou um débil mental.” Tem “todos os defeitos dos mais velhos e mais um: a imaturidade.” O melhor conselho que Rodrigues oferecia aos jovens era de uma simplicidade desconcertantes: “Envelheçam.”

[3] O The Economist pegou pesado com o Congresso Nacional. O título diz tudo: “Parlamento ou chiqueiro?”

[4] O Vagabundo do Kassab: Kaiser Paiva Celestino da Silva, tirado de um posto de saúde paulistano aos gritos de “vagabundo” pelo prefeito em pessoa, trabalha desde os 10 anos e votou [oh, arrependimento!...] em José Serra-Gilberto Kassab.

[5] O melhor colégio público do país em 2006 foi o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (Coluni) com média de 70,84 pontos. Superou a melhor escola particular de Minas, o Colégio Bernoulli, que teve média de 70,47. No Enem 2005, o Coluni ficou em terceiro lugar na média das escolas públicas, com 77,71 pontos.

[6] A crise Argentina parece que, de fato, pôs os portenhos para pensar. A série de filmes posteriores é da melhor qualidade. Filmes marcados por relatos pessoais, familiares, intimistas da experiência com a crise nacional. Marcados, sobretudo, por extrema sensibilidade e emotividade. Filmes como ‘Lugares comuns’, ‘O filho da noiva’, ‘Família rodante”, todos muito bons, especialmente o primeiro. Hoje assisti “Conversando com mamãe’ com China Zorrilla (de ‘Elsa e Fred’) e Eduardo Blanco (de ‘O filho da noiva”). Embora tenha o mesmo tom, a mesma ternura, meu sentimento é que o diretor Santiago Oves errou um pouco a mão: o excesso de recuperação de imagens passadas colocou muito açúcar em um tema já muito doce. Mas ainda assim vale a pena ver... Férias é férias: hoje, vi também ‘Sob o céu do Líbano’. Deste, esperava muito mais. O ambiente de fronteira Israel-Líbano permitia um filme de muita densidade, ainda que conduzido por uma história de amor. O resultado é muito irreal... Para fechar: podem me criticar, podem dizer que é saudade da infância, mas a série ‘Piratas do Caribe’ de Gore Verbinski, com Johnny Depp, Orlando Bloom e Keira Knightley é um boa sessão da tarde...

6 de fev de 2007

Varejo

[1] O novo Congresso tomou posse dia 1° e 20 parlamentares já mudaram de partido; O mais curioso: todos são favoráveis à fidelidade partidária...

[2] Acabou-se a fase Chávez do governador Aécio. Com autorização legislativa, ele promoveu uma reforma administrativa do executivo mineiro através de 60 leis delegadas. Como são as coisas: lá é autoritarismo, aqui é choque de gestão...

[3] O ministro do STF e presidente do TSE Marco Aurélio de Mello propôs trocar seu salário de R$24,5 mil com o dos deputados (de R$12,8 mil mais verbas que chegaria a R$100,0 mil). Gerou mais um disse-que-disse... O bafafá anterior havia sido o patético aumento de 91% que os deputados quiseram se auto-conceder. Se juntarmos aí os salários do poder executivo, o assunto fica mais explosivo: o do presidente da República (que deveria ser o maior...) é de R$8,8 e o dos ministros de Estado R$8,3... Uma confusão inconstitucional. A falta de isonomia entre esses valores nos três poderes vai continuar gerando crise. Pelo menos, até que nossos ilustres representantes, em respeito aos bem diferentes salários dos brasileiros, troquem bravatas, gracejos e oportunismos por um mínimo de lucidez e responsabilidade.

[4] Dia 05/02: bolsa em alta, dólar em queda e o risco-país atingindo sua marca histórica mínima de 180 pontos.

[5] Dois filmes argentinos que me foram indicados, de fato, valem a pena. E muito! ‘Nove Rainhas’ (Nueve reinas – ARG, 2000) de Fabián Bielinsky (que só consegui versão em VHS) e ‘Familia Rodante’ (ARG, 2004) de Pablo Trapero. Outros dois argentinos, em co-produção espanhola, são também recomendados: ‘Elsa e Fred’ (2005) – que muitos assistiram recentemente nos cinemas – de Marcos Carnevale (um pouco piegas, talvez...) e, especialmente, ‘O Mistério de Kasbah’ (Kasbah, 2006) de Mariano Barroso.

2 de fev de 2007

Apocalipse

Qual a novidade do relatório divulgado ontem pela ONU, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC? Quem já não conhecia as projeções de aumento de temperatura e de elevação do nível do mar que ele traz? Quem ainda tinha dúvidas de que as alterações climáticas que estamos vivendo “muito provavelmente” são causadas pela ação humana? Por que a imprensa o qualificou como contundente, importante, constrangedor? Contundente, importante e constrangedor como a clássica revelação de que “o rei está nu” para referir-se a um rei sabidamente nu à vista de todo mundo? Objetivamente: o relatório será capaz de influenciar a posição dos Estados Unidos e da Austrália que se negaram a ratificar o Tratado de Kioto? Será capaz de influenciar a posição dos países emergentes sobre o assunto? Será capaz de levar a estupidez americana a seguir o exemplo francês (que se compromete a ser um exemplo na redução desses gases estufa) ou europeu (que se compromete a reduzir em 20% as emissões até 2020)?