29 de nov de 2006

Novembro insosso...
Novembro, que se iniciou sob o impacto dos resultados eleitorais e promessa de muitas novidades, termina sem maiores emoções... “Ao vencido, ódio ou compaixão...”: a oposição derrotada entrou em crise existencial - o PFL irritado, o PPS vetado, o PSDB reflexivo. Enquanto isso, “... ao vencedor, as batatas”: Lula consagrado tirou das urnas a missão de destravar a economia.

Destravar a economia: essa foi a idéia fixa do mês; não só na cabeça do Presidente, como também nas páginas dos jornais. Por ora, nada de muito novo... A não ser os novos nomes em circulação: de Gerdau a Falconi, passando pelo Luciano Coutinho, até o Mangabeira Unger, todos levantaram idéias polêmicas, mas de polêmicas efêmeras. (Aliás, diga-se, pelas fofocas jornalísticas, muito pelo contrário, idéias convergentes demais e “ousadas” de menos). E não faltaram artigos de economistas... Polêmicos ou não, convergentes ou não, ousados ou não, a impressão que deixaram, para o comum dos mortais, é que há muito diagnóstico sobre o passado e pouca proposta para o futuro. (De onde me vem a frase que dizem fazer referência ao estado-maior do exército francês que “entrava em cada nova guerra perfeitamente preparado para ganhar a guerra anterior”).

Ao vencedor, além das batatas, novos aliados. De fato, a vitória magnetiza! Pode vir desse processo de imantação talvez a única novidade: o governo de coalizão com o PMDB. Mas, nesse caso, cautela é pouco. Primeiro porque, entre nós, não há nenhuma tradição de coalizão, nem à moda parlamentarista, nem ao estilo "de la concertación” chilena. Saberemos superar a tradição fisiológica que temos de sobra? Depois porque, entre nós, ninguém desconhece o PMDB, ou mais literalmente, ninguém conhece o PMDB. Será capaz de marchar nacionalmente unido ou só consegue, quando consegue, alguma unidade regional? Veremos...

Junto com o PMDB, no mesmo propalado espírito de coalizão, vêm o PV sem Gabeira e o PDT sem Cristóvam. Se essa toada der certo (Deus permita!), que contribua para reforçar programática e pragmaticamente a trincheira ambiental, um; e educacional, o outro. Sobretudo aquela, tão criticada ao longo do mês como obstáculo (será?!) ao desenvolvimento...

Voltando à economia, a boa-nova do mês, não exatamente nova, é que o governo estaria disposto a um aumento do PPI - o Projeto Piloto de Investimentos - em R$ 6,5 bi, para logística de transporte e saneamento, pela redução do superávit primário de 4,25 para 3,75%, em 2007. Essa posição que já foi bravamente defendida nos primeiros anos do governo, contra Palocci, andava um tanto fora de circulação...

Ainda na economia, o mês termina com a menor taxa selic da história (pasmem!)..., ainda assim a maior do mundo: 13,25%, ou uma taxa de juro real de 8,7%. O mercado adjetivou, mais uma vez, a queda de 0,5% como conservadora, na medida que a inflação continua apontando para um número bem abaixo do centro da meta, alguma coisa na casa de 3,15%. Se bem que para bem abaixo da meta, mesmo, o que vem apontando é o crescimento do PIB do ano: a expectativa que já foi de 5, caiu pra 4, depois 3,5, esteve em 3,2, com fortes intrigas, agora, de que não chegará a 3% pelos evidências de um resultado ruim no terceiro trimestre...

Para um mês de tantas expectativas, nem especulações sobre ministros que caem, ministros que sobem proliferaram....
Prioridades do Judiciário
A crítica ao aumento salarial do judiciário, comentada abaixo, derivou hoje, nos jornais, para críticas aos "templos majestosos da Justiça". Especialistas dizem que outras deveriam ser as prioridades desse poder e não construção de sedes. O subtítulo bate no fígado: 'Construir prédio é ótima porta para corrupção'. O detalhe: enquanto o Judiciário, no Orçamento 2007, planeja gastar R$ 260 milhões em reformas e construções de tribunais, a verba prevista para modernização do sistema penitenciário está orçada em R$ 199 milhões.

28 de nov de 2006

De novo, números: a invasão chinesa na AL
Artigo de Rubens Barbosa (FIESP) n'O Globo, de hoje:
- O comércio Brasil-China em 2006 alcançou US$16 bi. Notícia boa: a relação é superavitária para o Brasil em US$1,38 bi;
- Notícia ruim: o superávit brasileiro está em queda. Em 2003, foi de US$2,3 bi;
- Notícia pior ainda: considerando apenas produtos manufaturados (de maior valor agregado), sem commodities, a balança comercial é deficitária em US$6 bi;
- Notícia mais grave: a China nos ultrapassou em volume de exportações para, justamente, a América Latina. A China forneceu US$7,8 bi, o Brasil 6,5 bi; Em 1995, a situação era absolutamente inversa: US$5,7 bi para nós contra apenas 1,4 bi deles...
Mais números: Previdência
Os jornais revelam que a estratégia do governo para a Previdência é recrudescer os esforços de gestão nos próximos anos. Basicamente em duas linhas: recadastramento e fiscalização. Leia-se: combate a fraudes do sistema para redução de déficit. Nesse caso não se fará, por ora, reforma previdenciária, priorizando as reformas políticas e tributárias.
No futuro, entretanto, reformas estruturais serão necessárias. O que significa uma repactuação social em função da delicadeza desse tema. Mais números (O Globo, 28/11/06 - artigo do Ali Kamel):
- Progredindo por faixa etária quando da aposentadoria, 14,4% dos aposentados passaram a receber benefícios com menos de 45 anos; 36,7% deixaram de trabalhar com menos de 50 anos (41,5% para os homens e 28,6% para mulheres); e mais da metade (54,8%) com menos de 55 anos (nesse caso, 63,2% entre homens e 41,5% entre mulheres);
- No setor público, a mesma coisa: 1/3 se aposenta com menos de 50 anos; mais da metada com menos de 55;
- A idade média de brasileiros no momento da aposentadoria é, hoje, de 57 anos para homens e 53 para mulheres;
- Para comparar, no mundo, respectivamente para homens e mulheres, as idades mínimas para aposentadoria são as seguintes: Alemanha, Holanda, Suécia, México e Peru, 65 / 65; Argentina, 65 / 60; Colômbia e Cuba, 60 / 55; Noruega, 67 / 67. No Reino Unido, a idade mínima é de 65 para homens e 60 para mulheres e o primeiro-ministro Tony Blair encaminhou ao Parlamento projeto propondo 65 anos para ambos os sexos a partir de 2020 e 68 até 2046;
- Embora tenha população com mais de 65 anos menor do que aqueles países o Brasil compromete maior percentual do PIB com aposentadorias;
- As aposentadorias públicas e do INSS consomem 56% dos gastos não-financeiros do governo;
- Para atender um milhão de funcionários públicos, o déficit é de R$32 bi, para 21,1 do setor privado, o déficit do INSS é de R$42 bi.
Números: salários do Judiciário e do Legislativo
Legislar em causa própria não é de todo ruim...

A Ministra Ellen Gracie do STF parece ter recuado, hoje, na sua proposta de jetons para aumento do próprio salário e de outros 14 membros do CNJ e de reajustes dos salários dos Ministros do Supremo, com os aumentos em cadeia que eles geram.

Aos números (FOLHA, 27/11/06):
- Entre 1995 e 2005, os salários do Judiciário subiram quase 6 vezes mais do que a média do funcionalismo federal. No Legislativo, duas vezes mais. No MPF, cinco vezes;
Nesse período, o aumento de contratações no Executivo foi de 5,5%; no Judiciário, 28%; no Legislativo, 45% e no MPF, 59%. Ou seja, comparativamente ao Executivo, os outros poderes contatam mais e pagam mais;
- O Judiciário, o Legislativo e o MPF representam 8% do funcionalismo federal e consomem 21% dos salários federais;
- No Brasil, a média salarial dos ocupados é de cerca de R$1 mil. No Executivo é de R$4,4 mil para civis e R$2 mil para miliatares. No Legislativo, R$9,7 mil. No Judiciário, R$10,3 mil e no MPF, R$11,9 mil...

27 de nov de 2006

MUNIC 2005
A pesquisa da vez é a Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE que começou a ser divulgada na semana passada. E, naturalmente, já começa a dar manchetes nos jornais: "Municípios incham máquina" e "Orçamento participativo vira rotina nas cidades" apareceram no Estadão do dia 25/11.

Está lá: em seis anos, o aumento de funcionários foi de 38,8%. Apenas em 2005, os municípios expandiram seus quadros em 5,4% com 246 mil novos servidores. Os empregados municipais passaram a representar 5% da PEA. Nesse processo, houve aumento em 80% de contratados sem vínculo formal e queda de 35% daqueles com carteira assinada.

Ainda que tenha havido aumento de atribuições municipais, com necessária contratação na área da saúde e da segurança patrimonial, por hipótese, o aumento e a natureza dele não deixam de revelar a precariedade institucional dos governos municipais. É bom lembrar, por exemplo, que os contratos sem vínculos, ou seja, de consultores, temporários e prestadores de serviços terceirizados são categorizados orçamentariamente como custeio e não como despesas de pessoal, fugindo aos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal...

Surpreendentemente, o IBGE constatou que 72% (pasmem!) dos municípios aplicaram, em 2005, algum tipo de gestão orçamentária participativa. A razão disso, para analistas, está sendo atribuída ao Estatuto das Cidades...
Cresce número de negros nas universidades
A semana da Consciência Negra terminou com pelo menos uma notícia positiva: o IBGE, com base na mais recente PNAD, revelou que de 1995 a 2005 o percentual de negros e pardos no ensino superior pulou de 18 para 30%. Especialmente depois de 2001, esse processo de inclusão ganhou ritmo acelerado apontando para a perspectiva de que, em 2015, se alcance a eqüidade, ou seja, a participação desse grupo nas universidades será, então, compatível com a sua presença na população.

19 de nov de 2006

Mais sobre os negros
Elio Gaspari, em sua coluna neste domingo, citando o livro de Marcelo Paixão [UFRJ] que está nas livrarias (Manifesto Anti-Racista...) dá mais uma informação maldita sobre as nossas desigualdades raciais, complementando pesquisa do IBGE divulgada ontem. "Em 2001 [e não se tem porque duvidar que também nos anos seguintes...], quanto mais educado era o negro, maiores suas chances de ficar desempregado". E segue mostrando percentuais de desemprego crescentes para os negros, com o aumento de escolaridade, em cotejamento com os brancos...

18 de nov de 2006

Cotas: voltando à discussão...
Na postagem abaixo “Educação não garante emprego” comentamos estudo da UNB que revela que para o mesmo nível de escolaridade os pobres têm menos oportunidades de emprego do que os ricos. Pesquisa Mensal de Emprego (PME-IBGE) divulgada ontem põe mais lenha nessa fogueira, agora com enfoque racial: pela ótica da renda, para a mesma escolaridade, os negros ganham menos. Pior, a diferença de renda aumenta conforme os anos de estudo. Um negro sem instrução ou com um ano de estudo ganha cerca de 15% menos que um branco na mesma condição; outro negro com 11 anos de escola ganha metade de seu colega branco.

A pesquisa diz mais: a taxa de desemprego entre os negros é maior que entre os brancos; embora sejam minoria, representam metade dos desempregados; só são maioria na construção civil e nos trabalhos domésticos; segundo a renda, as mulheres negras são obrigadas a respeitar a seguinte ordem: primeiro, ganham mais os homens brancos, depois as mulheres brancas, depois os homens negros, só então elas...

Essas revelações abalam fortemente a crença de alguns de que nossas diferenças sociais resultam apenas de diferenças de acesso. E, portanto, se igualarmos o acesso à educação, por exemplo, caminharemos para a equidade. Mentira! Os “currículos sociais” e os “currículos raciais” foram esquecidos nessa conta. Tudo reforça a tese de que não chegaremos lá se não consorciarmos educação com políticas de reconhecimento de direitos: políticas de proteção social e políticas afirmativas para mulheres, negros e minorias. A discussão sobre cotas precisa permanecer na pauta!

16 de nov de 2006

The Corporation
Impressionante! Documentário muitíssimo crítico de Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan sobre o mundo definido pelas grandes corporações [Canadá, 2004] com entrevistas com Noam Chomsky, Naomi Klein, Vandana Shiva, Michael Moore, Milton Friedman e outros. Questiona o status legal dessas corporações como “pessoa” imortal e sem consciência moral (amoral). “Sem alma a salvar ou corpo a ser preso”. Acima do bem público, dos governos e dos países. Sem dever de lealdade. E fora dos sistemas de controle político e social. Fala de sua capacidade, sem paralelo, de doutrinamento e de construção de estilos de vida, mais do que de vendas de produtos. De determinar a vida dos povos sem ter mandato para isso. De sua capacidade de transformar o cumprimento da lei em decisão meramente comercial (custo x benefício). Compara as corporações a formas tirânicas como o nazismo e o bolchevismo. Questiona o seu direito a patenteamento sobre formas de vida. Critica a sua estratégia de criação de mercados flexíveis e trabalhadores inseguros. Denuncia suas externalidades: a exploração de mão-de-obra em países pobres, o trabalho infantil e escravo, a poluição química e ambiental, o comprometimento do habitat. A geração de riquezas ao custo de destruição. Extraordinário!

Para quem gosta de documentários, outra dica: SOB A NÉVOA DA GUERRA do diretor Errol Morris. The Fog of War: eleven lessons from the life of Robert S. McNamara – EUA, 2003. Também muito bom!

14 de nov de 2006

E o dólar?
As críticas mais fortes que tenho ouvido contra o governo vem de amigos ligados ao setor agropecuário e tem um endereço certo: o dólar e a excessiva valorização do real. O GLOBO, desta terça, traz artigo sobre o assunto, da Míriam Leitão (Panorama Econômico), no mínimo, esclarecedor. Em linhas gerais, ela mostra que todas as medidas preconizadas por especialistas já foram adotadas pelo governo, sem resultados. E deixa a entender que esses resultados, para sofrimento dos exportadores, só virão no longo prazo com medidas de aumento de competitividade das empresas brasileiras (leia-se reformas tributárias, trabalhistas...) e maior abertura econômica.

A jornalista mostra, uma a uma, as medidas sugeridas que, uma vez aplicadas, ainda assim, não mudaram em nada o cenário. As indicações de intervenção do BC para retirada de dólar excedente do mercado, a redução da dívida externa e o acúmulo de reservas não foram nada eficazes. No governo Lula a dívida externa pública líquida foi reduzida para US$74 bi, enquanto as reservas chegaram a US$80 bi. Nada! Os juros, apesar de altos, cairam 6 pontos. Nada! A indicação de mudança legal para permissão a empresas de manutenção de dólares no exterior foi efetivada e... nada!

Os comentários de alguns entendidos no assunto vão de encontro ao que pensa o senso comum. Luiz Schymura [IBRE] contraria a idéia de que o dólar baixo é resultado de muito dinheiro especulativo. Diz que "a queda de juros derrubaria o câmbio se o país tivesse muito capital especulativo. Mas o fluxo é pequeno". Na mesma direção, opondo-se à máxima de que o dólar alto deriva dos juros altos, afirma Nathan Blanche [Tendências]: "a abundante oferta de dólares no mercado é basicamente função do comércio exterior. Ou seja, se os juros continuam a cair, isso não vai afetar a taxa cambial." Para completar, uma fala do Gustavo Loyola [ex-BC]: "A queda do juros derruba também o risco-país o que mantém a atratividade do mercado brasileiro" [ié, mais dólares no mercado...].

12 de nov de 2006

A classe média tem razão de chiar...
Outra matéria no Estadão deste domingo tem título pesado: "Classe média vive crise de renda, de emprego e de perspectivas". Os dados de pesquisa da UNICAMP confirmam: enquanto a classe pobre teve aumento de renda de 7,9% ao ano entre 2001 e 2005, a classe média teve perda de 0,5%. Enquanto quem ganha entre 1 e 2 salários viu aumentar os postos de trabalho com carteira assinada em 86,1%, entre 2002 e 2004, a classe média viu recuar em 10,6%.

Para piorar, vê-se obrigada a gastar 42,6% de sua renda com tributos e 31% com despesas típicas do Estado, como saúde, educação, previdência e segurança. "Em outras palavras, a classe média é cada vez mais taxada, mas recebe cada vez menos serviços de volta do Estado".

Não discuto a prioridade do governo com os pobres e com a redução da desigualdade. Mas a classe média merece um refresco!!! Mesmo porque, voltando à matéria, "(...) a classe média não foi indispensável para ganhar a eleição, mas pode ser indispensável para governar".
Diferenças regionais continuam
Matéria publicada no Estadão de hoje, com esse título, dá lugar a uma leitura difícil. Por um lado, abre uma discussão absolutamente importante sobre a redução da velocidade da queda de disparidades regionais no Brasil. De 1970 a 1986, essa desigualdade diminuiu, em média, 2,9% ao ano. De lá prá cá, 1%. Ruim! Um habitante do DF tem renda 690% maior do que a de quem mora no Piauí. Outro de SP, 500% maior do que a de um cidadão maranhense. Por outro lado, o lado perverso, é o interesse de matérias como esta de exarcebar um regionalismo extemporâneo: querer apontar São Paulo como culpado de todos os pecados nacionais. Isso não é nada bom... Na economia, na política essa tese vai ganhando força...
Educação não garante emprego
Mais um título de matéria publicada n'O GLOBO deste domingo. Esse merece uma profunda reflexão... Ninguém duvida que educação aumenta empregabilidade. Ninguém duvida, sobretudo, que educação é a política social mais transformadora para o cidadão e para o país. Mas os dados são duros e reforçam uma tese importante: o crescimento econômico, as políticas emancipatórias são apropriadas de forma desigual pela população. Os 'mais desiguais' tem menos atributos para disputarem oportunidades. Ou seja, temos que conciliar políticas de crescimento, políticas de capacitação com políticas de redução de desigualdade. O nosso padrão de desigualdade estraga tudo!

Os resultados da pesquisa do economista Carlos Alberto Ramos (UNB) revelam que, para o mesmo grau de instrução, a taxa de desocupação da elite brasileira (10% mais ricos) é 17 vezes menor do que a dos pobres (10% mais pobres). 2,64 contra 46,55%. Mais: ao sair do ensino médio, o desemprego entre os jovens pobres é 4 vezes maior que entre os jovens ricos.

Os especialistas dizem que a razão disso é a diferença de 'currículo social': a qualidade da escola de uns e outros, o ambiente familiar, o bairro onde moram e a renda dos amigos. Esses são os quesitos que as empresas consideram na seleção para contratação. Sinceramente: dá vontade de chorar... Isso é puro preconceito!!!

Será que não há um olhar mais ético? Não é de se admitir que um jovem pobre que conseguiu a mesma escolaridade de um jovem rico pode ser um profissional muito melhor? Afinal de contas ele teve que vencer uma corrida de obstáculos para chegar lá... o outro não! Que mundo!!!
Bolsa Família causa migração de retorno
Esse é o título de matéria de O Globo deste domingo. Estudo do demógrado José Marcos Pinto da Cunha (NEPO/UNICAMP), utilizando a PNAD 2004 e o Censo 2000, conclui que nordestinos que migraram nos anos 70 e 80 para a capital paulista estão retornando às cidades de origem. Pela primeira vez se identifica que mais nordestinos sairam do que entraram em São Paulo. O fenômeno é atribuído ao desestímulo decorrente da 'deteriorização' do mercado de trabalho paulistano, numa ponta; e o estímulo provocado pelos programas sociais do Governo Federal, em particular o Bolsa Família e a aposentadoria rural, que permitem melhores condições de sobrevivência para esses migrantes nas cidades onde nasceram, na outra ponta.

11 de nov de 2006

A FEMM e o futuro de Sete Lagoas
Artigo publicado no Jornal Sete Dias, edição de 03/11/06

Potencializar o nosso desenvolvimento pressupõe identificar os atores sociais com capacidade transformadora. No passado, esses atores eram individualizados e a compreensão do processo linear. A metáfora era com ferrovias: “a cidade no trilho”, “o setor tal como locomotiva do progresso” etc. Hoje, numa sociedade mais complexa, os atores são múltiplos e o processo tridimensional. Prevalece a noção de rede. E ao observar nossa rede social, estou cada dia mais convencido que a Fundação Educacional Monsenhor Messias vem se impondo como um dos seus nós mais articulados e vitalizados.

A FEMM comemora os seus 40 anos no momento em que é credenciada como Centro Universitário. Isto não é pouco! Acompanhei esse processo em Brasília e posso testemunhar que ela alcança esse mérito sem dever nada a ninguém, senão aos próprios esforços. Esse credenciamento coroa uma escolha correta no passado. Quando viveu um de seus momentos mais dramáticos, com a baixa classificação da Faculdade de Direito, ao invés de ‘carteiradas’ e lobbies, preferiu encarar um exigente processo de profissionalização. E venceu!

Além do nível de institucionalidade e profissionalismo, a FEMM e o UNIFEMM, vêm assumindo características muito peculiares. Uma delas a grande ancoragem regional. É impressionante sua penetração em todas as cidades da região e a importância que têm na formação de capital humano para todas elas. Digo isso como aluno que sou e pelos colegas que tive. Somam-se a isso, a sua dimensão histórica, resultado da participação das melhores cabeças de nossa vida social na sua construção; e a sua dimensão comunitária, presente desde suas origens, dedicada ao favorecimento de jovens carentes. Um ou outro desses atributos várias entidades podem ter, todos eles, muito poucas ou nenhuma. Por isso mesmo, diversas faculdades podem acorrer a Sete Lagoas e constituírem-se em centros de produção de conhecimento, porém centros de conhecimento com capacidade de transformação regional só a FEMM e o UNIFEMM.

Ao se capitalizar, a Fundação amplia desafios e ganha responsabilidades. Sua direção sabe disso. Sabe que o futuro da FEMM está condicionado exatamente ao aprofundamento dessa vinculação com o desenvolvimento local e regional que a particulariza. As escolhas da FEMM passam a dizer respeito não apenas ao seu próprio destino, mas ao destino de Sete Lagoas. Os cursos que abrir alterarão não apenas seu próprio perfil, mas definirão novos nichos de serviços e negócios para a cidade. Nessa perspectiva, espero que a FEMM contribua fortemente, por exemplo, para a modernização de nossas administrações municipais, há anos entregues a um tradicionalismo anacrônico e estéril. E mais, que se aproxime de outras entidades e da iniciativa privada, particularmente dos jovens empresários da região, para contribuir na alavancagem do nosso crescimento e na criação de oportunidades para nossa juventude.

9 de nov de 2006

A lógica do pecado
A condenação, a expiação, a capitulação e o esquecimento...

Sou petista e tenho bons amigos não-petistas. Nos últimos dois anos, com os ditos 'escândalos', a maioria deles migrou da posição de não-petistas para a de anti-petistas. Com muito poucos, a conversa política conservou alguma racionalidade. Com a maioria, essa conversa passou a não ter racionalidade alguma...

Mais do que fatos, valem versões. Algumas versões vendidas pela oposição e compradas pela mídia tornaram-se verdades: estávamos diante do “maior escândalo da história”, e do “governo mais corrupto da história”. Não que eu quisesse tampar o sol com a peneira. Queria, apenas, contextualizar os fatos para chegar a um mínimo lógico. Mas contra versões não há argumentos... nem lógica. Por exemplo: ‘maior’ e ‘mais’ com relação a quê? Qual o parâmetro comparativo? Ninguém tinha dados objetivos. O clima de prévia condenação dizia que eu estava errado por querer justificar o injustificável...

Minha opinião era baseada em algumas evidências: primeira, todo governo é eleito com maioria de votos e com minoria parlamentar. Ou seja, tem problemas! Segunda, está obrigado a construir governabilidade. Sabe Deus como! Terceira, não é a primeira vez que se fala em algum esquema de apoio financeiro (compra de votos para reeleição de FHC, pagamento de dívidas de campanha, caixa-2 etc): o preço da tal governabilidade! Quarta, o PT não errou por ter aceitado uma regra clássica e inevitável, mas, sobretudo, por não tê-la mudado quando era possível, se é que era possível... Quinta, conceitos de ‘maior’, ‘mais’, ‘mensalão’ eram da categoria das versões, não dos fatos. Cansei de insistir nessa opinião, em vão... Tempo de pura expiação!

Por falar no tempo, ele às vezes ajuda a explicar. E ele já vem oferecendo alguns dados curiosos... Um: apesar das restrições legais, esta eleição presidencial custou mais do que o dobro da anterior atualizada. Na interpretação do presidente do TSE inibiu-se o caixa-2 e um maior volume dos recursos foi contabilizado. O PSDB foi o partido que mais arrecadou. O PT foi o quarto... Oops: não era só o PT que usava ‘recursos não contabilizados’? Outro: da direita à esquerda, todas as campanhas eleitorais entoaram o mantra da necessidade da ‘reforma política’ como forma de se evitar novos escândalos. Ora, se todos entendem que há necessidade de uma reforma política deduz-se que todos entendem que o problema é sistêmico. Oops: o ‘problema’ não era uma exclusividade petista e de uma ‘quadrilha’ ligada ao partido? Antes, interessava a estigmatização. Agora, os fatos parecem levar à capitulação.

Para encerrar, duas notícias da semana: “Apesar das promessas de campanha, grandes legendas fazem corpo mole e não devem aprovar relatório [da reforma política]” – O Globo, 05/11/06. “Fazer ou Desistir – a reforma política chegou àquele ponto em que deve ser feita ou então arquivada para não servir mais de panacéia (...)” – Tereza Cruvinel, O Globo, 07/11/06. Ou seja: a reforma pode não vir??? Cada dia mais acredito que, desta vez, diante dos escândalos, quem foi manipulado não foram os pobres, mas os formadores de opinião, ou seja, a classe média. Não quis apurar os fatos, assumiu uma incompreensível ingenuidade e deixou-se levar pela versão extraída do acirramento político. Passada a disputa, o mais corrupto, o maior escândalo e a reforma política parecem, aos poucos, perderem a importância... Vem, agora, o esquecimento?

Minha posição: independente da versão, os fatos foram muito graves e destruidores. O mundo político, petista, não-petista e anti-petista, deve ao país uma solução ética para o futuro. Reforma política sim!