31 de out de 2006

Razões prováveis de vitória e derrota
A interpretação formal que fazemos do país nem sempre vai ao encontro da realidade. O país muda e nem sempre somos capazes de atualizar a nossa percepção. Isso pode explicar, em parte, o sucesso eleitoral de Lula e o insucesso de Alckmin.

Não me refiro aos programas de cada partido. Tampouco me refiro aos estigmas que marcaram cada candidatura (popular ou elitista, privatista ou estatista etc). Refiro-me apenas à aderência da mensagem de cada candidato no ambiente social. E a hipótese é que Lula conseguiu construir uma mensagem otimista para um país modificado que ele percebeu e por isso venceu; e Geraldo Alckmin optou por uma mensagem sempre muito crítica e negativa imaginando estar falando para um Brasil que, na verdade, já não existia mais e por isso perdeu.

Há evidências de que os indicadores clássicos que usamos para falar do país não são suficientes. O PIB agrega riquezas individuais mas não é capaz de registrar outras dimensões da produção nacional. O IDH não é também sempre consistente para mensurar ganhos humanos e sociais. Há lugares em que esses índices, contraditoriamente, apontam resultados divergentes. O IPEA mostrou, em estudo recente, que se isolarmos as variáveis que falam da produção de riquezas entre os mais pobres o Brasil teve um aumento de PIB chinês, diferente do agregado nacional. Outras evidências mostram que, nesta eleição, o chamado efeito “pedra no lago” não funcionou. Ou seja, a decisão de voto não acompanhou, do centro para a periferia, a posição do ‘formador de opinião’. Sinal de que, por razões concretas, algum nível de resistência bloqueou e provavelmente inverteu o sentido dessa propagação. ‘Razões concretas’, no caso, significam mudanças reais de vida, ganhos reais capazes de interferir na formação autônoma de opinião. Houve uma mudança na vida da maioria da população que Lula viu e apostou nela e Alckmin relevou.

Alckmin apegou-se aos indicadores clássicos. Quis convencer a maioria da população de que o crescimento do Brasil foi pífio no Governo Lula. Usou estatísticas que provavelmente não faziam sentido na experiência de vida dessa população. Para uma doença que a maioria não enxergava, receitou um remédio que ninguém entendia (“choque de gestão”).

Há uma enorme diferença na capacidade de comunicação de cada candidato, mas esse não é o ponto aqui. Atendo-nos apenas às mensagens, o fato é que, na medida que não via repercussão nas pesquisas, Alckmin reforçou o tom crítico. Foi se tornando com isso cada vez menos capaz de agregar à sua mensagem uma retórica otimista e esperançosa com o futuro.

Sem competidor para falar para esse ‘novo Brasil’, Lula conseguiu o que parecia impossível: agregar um tom épico, uma dose de emoção a uma campanha que todos imaginavam que seria apenas dura e sangrenta nos tempos pós-mensalão e pós-dossiê. Superando escândalos, saindo da defesa própria de quem está na situação e é ‘o homem a ser vencido’, contrariando expectativas, Lula conseguiu embrulhar seu projeto num manto de otimismo e atacar. Na prática, assumiu o papel de oposição, colocando o adversário no desconfortável papel de situação. Inverteu o jogo. Com isso, lançou luzes sobre o seu governo, mobilizou a militância e... conquistou eleitores.

30 de out de 2006

Legitimidade e legitimidade...
Para superação de um ambiente político tão contaminado, era importante que o resultado das eleições fosse muito expressivo. E foi! Com a votação recorde de 58,3 milhões de votos (em 2002 foram 52,8 milhões), apesar da sucessão de obstáculos, Lula alcançou o mesmo patamar, percentualmente, da sua vitória contra Serra (Agora, 60,83%; antes, 61,27%). Mais do que ganhar, ganhar com legitimidade era o alvo. Vitória com absoluta legitimidade foi o resultado!

Para se chegar a isso, o 2° turno foi uma manobra estratégica do eleitorado. Graças a ele, Lula se viu poupado de uma vitória apertada em troca de uma votação consagradora. Viu Alckmin perder fôlego e subtrair 2,4 milhões de votos no que tinha obtido anteriormente. Viu o surgimento de um arranjo de governos estaduais muito favorável. Viu o discurso golpista de 3° turno desmoralizar-se. Viu reduzir enormemente sua diferença para o adversário nos 7 estados onde perdeu. Viu outros 3 estados e o distrito federal lhe devolverem a liderança perdida. Viu desaparecer uma geografia eleitoral que dividia o Brasil ao meio. Sobretudo, viu o surgimento de um espaço inesperado de repactuação social e política... Literalmente, o segundo turno salvou a pátria: atribuiu a necessária legitimidade ao resultado eleitoral, dissipando a neblina de confronto e desconfiança. Nem o mais esperto dos estrategistas políticos previu esse desfecho. Essa manobra Lula fica devendo, exclusivamente, à sabedoria do eleitorado!
Curiosidades: deu no g1.com.br...
NÚMEROS REVELAM CURIOSIDADES SOBRE A VOTAÇÃO
Em município maranhense, Lula teve mais de 97% dos votos válidos. Já Alckmin foi "rei" em Arroio do Padre (RS), onde alcançou 85,07%. Em 5 estados, o tucano não ganhou em nenhuma cidade. (André Luís Nery, do G1, em São Paulo)

Tudo Igual - Em um país com 5.565 municípios, coube à pequena Glicério (na região noroeste de São Paulo) registrar um fato curioso no segundo turno da eleição presidencial: o petista Luiz Inácio Lula da Silva e o tucano Geraldo Alckmin terminaram exatamente iguais na apuração dos votos. Cada um dos dois presidenciáveis recebeu 1.383 votos.
Lula é rei - O pequeno município de Central do Maranhão (MA) registrou a maior diferença percentual de votos entre Lula e Geraldo Alckmin. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula alcançou 97,20% dos votos válidos no município maranhense, com 3.501 votos. Já o adversário do PSDB recebeu apenas 101, ou míseros 2,80%.
Amazonas é o 'Amalula' - Assim como no primeiro turno, o presidente Lula conseguiu seu melhor desempenho no estado do Amazonas, onde teve mais de 86% dos votos válidos. Depois, vieram o Maranhão (mais de 84% para o petista) e Ceará (mais de 82%).
Lula só perde no Sul - Das cinco regiões do país, Lula só não ganhou na Sul, onde ficou mais de 1 milhão de votos atrás do adversário, Geraldo Alckmin. O petista foi o mais votado no Nordeste, Norte, Sudeste e Centro-Oeste.
Aqui, só dá Alckmin - Foi na pequena cidade gaúcha de Arroio do Padre, que conta com apenas 2.111 eleitores, que Geraldo Alckmin conseguiu a maior vantagem sobre Lula. Ele teve 1.624 votos (85,07%) e Lula, 285 (14,93%).
Alckmin: derrota 100% - Em cinco estados, o candidato Geraldo Alckmin não conseguiu vencer a disputa em nenhuma cidade. Nos estados do Amazonas, Amapá, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, Lula foi o mais votado em todos os municípios.
Lula vira quatro vezes - No segundo turno, Lula venceu em 19 estados e no Distrito Federal, enquanto Alckmin ganhou em sete. Em relação ao primeiro turno, o petista conseguiu virada em três estados (Rondônia, Acre e Goiás) e no Distrito Federal. O tucano não virou em nenhum estado.
Hora da vitória - A confirmação da reeleição aconteceu às 19h12, hora de Brasília, quando tinham sido apurados 85,75% das seções. Nesse momento, Lula tinha uma vantagem de 17.626.901 votos sobre Alckmin. O petista liderava a apuração com 50.516.442 (contra 32.889.541 do tucano), e não podia mais ser alcançado.
PMDB domina governos - O maior vitorioso nas eleições estaduais foi o PMDB, que elegeu sete governadores (AM, ES, MS, PR, RJ, SC e TO). O PSDB venceu a disputa em seis estados e o PT, em cinco. O PSB elegeu três governadores e o PDT, dois. PPS, PP e PFL ganharam em um, enquanto um eleito, Blairo Maggi (MT), está sem partido.
Segundo turno - Dos dez estados com segundo turno, em três houve virada em relação ao primeiro. No Maranhão, Jackson Lago (PDT) derrotou Roseana Sarney (PFL); em Pernambucano, Eduardo Campos (PSB) superou Mendonça Filho (PFL); e no Pará, Ana Júlia (PT) venceu Almir Gabriel (PSDB).
Diferença mais apertada - No Paraná, o peemedebista Roberto Requião foi reeleito com apenas 10.479 votos de vantagem para Osmar Dias (PDT). O candidato do PMDB terminou a disputa com 2.668.611 votos (50,10%), contra 2.658.132 (49,90%) de Dias.
Maior vantagem no 2º turno - Primeiro a ter confirmada a vitória no segundo turno, o candidato do PMDB, Sérgio Cabral, foi eleito governador do Rio de Janeiro com 68% dos votos válidos (5.129.064). Sua adversária, Denise Frossard (PPS), teve 2.413.546 (32%).
Espelho do Brasil - O município de Aricanduva (MG)
apresentou a apuração mais próxima do resultado final da eleição presidencial. Na cidade mineira, Lula terminou com 60,82% dos votos, contra 39,18% de Alckmin. Na apuração nacional, o petista conseguiu 60,83% e o tucano, 39,17%.
Abstenções - A cidade paraense de Melgaço
teve o maior percentual de abstenções do segundo turno da eleição presidencial. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 56,55% dos eleitores do município não compareceram para votar no domingo.
Votos nulos - Já o maior percentual de votos nulos aconteceu em Buíque (PE), onde 16,12% dos eleitores anularam o voto. Na seqüência, aparecem São Benedito do Sul (PE), com 16%, e Cavalcante (GO), com 15,95%.
Votos brancos - O maior percentual de brancos foi registrado na cidade gaúcha de Vanini, com 4,17% de votos em branco. Depois, aparecem outros três municípios do Rio Grande do Sul: Santana da Boa Vista (4%), Ilópolis (3,86%) e David Canabarro (3,79%).

28 de out de 2006

Chega de eleição, mas...
Eu não queria postar mais nada sobre eleições, debates etc. Mas não consegui me segurar... Estou lendo um livro curioso de Dick Morris, que foi assessor de Bill Clinton, chamado "Jogos de Poder - ganhar ou perder: as estratégias dos grandes líderes da história". Morris define categorias de políticos e analisa casos bem e mal sucedidos de estratégias eleitorais dentro de cada uma das categorias. Um caso apresentado de insucesso é o de Al Gore, que "abandona suas convicções ambientalistas e... é derrotado". Um trecho, em especial, torna-se hilário pela similitude com nossa eleição. Tudo bem! Eu sei que nem Gore, nem os democratas guardam relação direta com tucanos, nem muito menos Bush e os republicanos têm semelhança com petistas, mas o trecho, cotejado com o nosso caso, substituindo Gore por Alckmin e Bush por Lula fica impagável:
"Ficou evidente para os eleitores que assistiam aos debates Bush-Gore que o candidato democrata simplesmente não sabia quem ele era. Não somente estava fugindo dos seus mais fundamentais princípios, mas dava a impressão de ser incapaz de encontrar sua própria persona.
No primeiro debate, Gore parecia o Mike Tyson da política - espumando, socando, até mesmo mordendo, na fúria de ver Bush entrar no seu terreno da previdência social, assistência à saúde e programa Medicare [vide Alckmin na Band].
Tendo se tornado mais moderado depois da reação popular negativa, ele voltou ao ringue com modos magnânimos, dando crédito ao seu rival e mencionando as divergências em tom amável [vide Alckmin no SBT]. No terceiro debate, Gore parecia tão confuso sobre sua própria identidade quanto os eleitores [de novo Alckmin, agora na Record e Globo]."
Detalhe: o livro de Dick Morris frequentou a mídia com fama de livro de cabeceira dos assessores de Alckmin com a intenção de desconstruir a candidatura Lula. Ou seja, se leram, não entenderam...

26 de out de 2006

Não ao golpismo...
O núcleo duro do anti-lulismo – Bornhausen, Jereissatti, ACM, Freire e Agripino à frente – tem insistido, desde o mensalão, na tese de impedimento do presidente. Mais do que interesse no claro e necessário esclarecimento dos fatos o que motiva esse grupo é o enfrentamento a qualquer preço, coisa que o cientista político Wanderlei Guilherme dos Santos identificou, desde a primeira hora, como “golpe branco”.

Na sexta, 22, um primoroso artigo no Estadão, assinado por Renato Lessa, retoma o tema com grande discernimento. Recuperando 1946 e as forças golpistas contra Getúlio, Juscelino e Jango, dá ao artigo o título de “A volta das vivandeiras de tribunais” (naquela época eram as vivandeiras dos quartéis e todos sabemos no que deu...). Vale a pena ler.

Hoje, dois artigos de colunistas independentes da Folha – mais que independentes, críticos duros do governo Lula – voltam ao tema com propriedade. Clóvis Rossi, sem perder de vista a necessidade de prosseguimento das investigações (o que se não acontecesse seria também uma forma de golpismo), conclui seu comentário dizendo:

“Mas o TSE não pode desconhecer um argumento, que não é juridicamente perfeito, mas é factualmente correto: a vitória de Lula não será devida ao caso dossiê. Portanto, impugnar a candidatura seria desconhecer a vontade do eleitorado, manifestada mesmo depois de dada toda a devida e necessária divulgação ao escândalo. Não é argumento juridicamente válido, porque as urnas só registram o voto, não o motivo dele. Mas é bom senso, sem ‘golpismo’ de um lado ou de outro”

Jânio de Freitas, na mesma edição da Folha, não é menos explícito. O artigo “O vício resiste” tem a seguinte chamada: “Nas circunstâncias atuais, a pretensão de impeachment de Lula disfarça mal a idéia de um golpe branco”.
De qualquer forma, a nossa sociedade parece ter aprendido com os golpes passados. Alguns fatos permitem essa conclusão: um deles, que o PT não teve a perda de votos que esse núcleo golpista apregoou. Na verdade, o feitiço parece ter se voltado contra o feiticeiro: a raça que está sendo exterminada não é a do PT ou a da esquerda, como o Bornhausen imaginou, mas a do seu próprio partido. O PFL teve a maior perda proporcional na bancada da Câmara (quase 20%), não governará nenhum estado, apenas o distrito federal, perdeu seu principal reduto, a Bahia de ACM, e só não terá perdas no Senado porque a longevidade dos mandatos assegura um ciclo de renovação mais longo.
Golpismo não! Nossa democracia ainda é muito jovem. Tem e terá um longo caminho pela frente. E será tanto melhor quanto mais aprender com seus acertos e seus erros!!!

25 de out de 2006

Lugares comuns
Na verdade, não sei nada do cinema argentino. Assisti e gostei muito de dois filmes de Juan José Campanella (“O mesmo amor, a mesma chuva”, de 1999 e “O filho da noiva”, de 2001, ambos com Ricardo Darín). Gostei mais ainda de "Valentin" (2004) de Alejandro Agresti. Assisti, agora, o filme do diretor argentino Adolfo Aristarain, de 2002, que é uma preciosidade: “Lugares Comuns”. Além de profundamente sensível – o que me parece ser uma marca comum a esses 4 filmes – tem um texto de uma densidade e beleza estarrecedoras. O filme deu a Mercedes Sampietro o prêmio de melhor atriz de Goya, Gramado e San Sebastian.

24 de out de 2006

Cortes de gastos públicos: eficiência e justiçaQuero voltar a esse tema, objeto do terceiro comentário abaixo. O debate eleitoral tem focado temas relevantes como esse, mas não aprofunda nenhum deles. O mais comum é se estabelecer uma certa dicotomia diferenciadora: um candidato numa posição, o outro no extremo oposto. Ao se falar em gastos públicos, por exemplo, os princípios da eficiência, da melhoria de qualidade, da melhoria de gestão são postos como atributos tucanos, portanto, impronunciáveis nas hostes petistas. Tudo bobagem!

Aceitar a tese da “melhoria da qualidade dos gastos” não pode ser proibido entre os petistas, nem entendido como uma capitulação a valores tucanos. Há formas e formas de fazê-lo. A perspectiva tucana tem sido a de sobrevalorizar a questão, a de pregar cortes de gastos como um bem em si como se, necessariamente, repercutisse em vantagens sociais. Os exemplos mineiro e paulista mostram os resultados midiáticos dessa ação - os “déficits zero” - mas, no entanto, não explicitam os preços pagos, sempre com eliminação de investimentos sociais, terceirizados para o governo federal. Posição estratégica no curto prazo, sim, mas insustentável no horizonte mais longo.

O governo Lula pode ter errado em não radicalizar essa agenda de qualificação e racionalização de gastos, em alguns momentos, ou de haver operado cortes excessivamente ortodoxos, em outros, mas acertou e acerta em cheio na orientação estratégica principal: a eficiência no corte de gastos públicos não pode ser uma desculpa para a ineficiência dos gastos sociais. A maior herança desse primeiro mandato será a comprovação de que os gastos sociais podem se consolidar, sem paradoxismo, como investimento econômico.

Um artigo e um comentário publicados nesse final de semana ajudam a refletir esse assunto. O artigo está no caderno de fim de semana do Valor Econômico: “A ética da economia com menos desigualdade” e é assinado por Cyro Andrade. Discorre, a princípio, sobre a idéia de que as escolhas políticas, a forma de distribuir recursos refletem o posicionamento ético não apenas do governo, mas de toda a sociedade. Atribui a nossa desigualdade social à naturalidade com que a encaramos e à nossa incapacidade de vê-la como fruto de nossas escolhas históricas. Antes de seguir adiante, passa pelo que interessa aqui, ao citar o bengalês Amartya Sen, com a discussão sobre a funcionalidade econômica [a “economia positiva”, o mundo como ele é e funciona] e a ética econômica [a “economia normativa”, o mundo como deve ser]. Transcrevo um trecho: “(...) diz Sen, é preciso cultivar a convergência entre economia positiva e economia normativa, de modo que disso decorra, explica Gonçalves da Silva (em Ética e Economia – Impactos na Política, no Direito e nas Organizações), uma reavaliação do pressuposto de racionalidade em economia; uma conseqüente reavaliação sobre a relação ente auto-interesse, egoísmo e altruísmo; e, por fim, uma reconsideração de como os resultados derivados da teoria econômica positiva podem definir o cenário sobre o qual as proposições normativas e éticas podem ser feitas”. Sem distorcer o conteúdo do artigo que é muito mais amplo, o que me chama a atenção é uma das apreciações que ele permite de que nossas escolhas econômicas – aí nossa discussão sobre gastos públicos – devem se pautar não apenas pelo princípio da eficiência, mas em igual medida, pelo de justiça. Sentido ético este que não consta da cartilha liberal tucana...

O comentário está no blog do Luís Nassif (www.luisnassif.com.br) com o título “A volta do pêndulo”. Ele fala do movimento da opinião pública e do desenvolvimento brasileiro como pendular. Idas e vindas: marcha-se numa direção até ultrapassar o limite e volta-se na direção oposta. Ao falar do nosso liberalismo tropical (ou neo-liberalismo) afirma que “foi um período caracterizado por ampla complacência com os juros altos, e amplo rigor com qualquer forma de gasto social. A Previdência Social foi demonizada, assim como as vinculações orçamentárias, os gastos obrigatórios em educação e saúde". Adiante diz: "Há limite para tudo. Mídia e mercado consagraram alguns soldados para cumprir a missão de matar feridos em campo de batalha. São os que montam suas planilhas e acenam com o fim do mundo, se não cortarem os benefícios sociais (...)". Mais: "Esse jogo acabou. Hoje em dia, a equipe de cada presidenciável sabe que o déficit da Previdência se resolve com crescimento, que a redução de impostos só será possível com crescimento; e crescimento só se alcançará com juros reduzidos". Até concluir: "O país aprendeu a respeitar a responsabilidade fiscal. Agora, está reaprendendo os princípios de responsabilidade social".
Debate da Record
Pode ser que quem tenha assistido a esse debate e não viu os outros, consiga identificar elementos para opinar sobre quem ganhou, quem perdeu. Eu confesso que perdi a capacidade crítica... O posicionamento de cada um, as perguntas, as respostas, as citações, os exemplos, de um e de outro candidato, tudo se tornou absolutamente previsível! As primeiras repercussões usam as qualificações de enfadonho, de mesmice, de repetitivo.

Lula esteve mais tranqüilo e menos irônico. Alckmin voltou a subir o tom, mas não tanto quanto no 1º debate. Aliás, a única surpresa possível tem sido esta: em que tom o Alckmin virá? Já quanto ao seu figurino, nada de novo: mais uma vez, tirou a gravata amarela e copiou o tradicional modelo petista...

23 de out de 2006

Estamira ...

Muito impressionante o documentário “Estamira” de Marcos Prado (Brasil, 2006). Estamira é uma mulher com distúrbios mentais que vive no aterro sanitário de Jardim Gramacho, onde é depositado o lixo da cidade do Rio de Janeiro. O filme é o seu discurso: messiânico, apocalíptico, irado, herético, filosófico, poético, absolutamente inusitado... Estamira é imperdível!!!

22 de out de 2006

Cortes de gastos públicos: tentando entender...
A agenda que mais interessa à sociedade brasileira é a do crescimento. A exigência de que seja um crescimento com inclusão social é a mais importante contribuição do atual governo. De toda forma, sem crescimento não há inclusão... E o nosso padrão de crescimento, há décadas abaixo de 3%, é insuficiente para o país. A fórmula para se chegar ao crescimento desejado parece razoavelmente lógica: os gastos públicos devem impulsionar o crescimento, não reprimí-lo. Menos 'gastos', mais 'investimentos'... A questão de fundo é que precisamos criar um ambiente competitivo para as empresas brasileiras. O 'x' do problema parece estar na redução do custo que as onera: juros mais baratos, menor carga tributária e melhor infra-estrutura, além de maior segurança juridico-institucional. E para reduzir juros sem comprometer o controle da inflação e reduzir a carga tributária e realizar investimentos sem comprometer o ajuste fiscal os holofotes apontam para a redução dos gastos públicos. Esse parece ser o ponto!
Mais do que um ponto, uma encruzilhada! Para entender melhor o assunto, vale conhecer alguns dados ilustrativos publicados na Folha de hoje, domingo 22/10, atribuídos, em sua maioria, ao especialista em contas públicas Raul Velloso: - "... 89% das despesa federais estão protegidas por leis e pela Constituição. Pior: são gastos que crescem rápido, diminuindo ano a ano o espaço para economizar"; - Desse valor "blindado", 75% diz respeito a pessoal ativo, previdência, inativos e pensionistas e benefícios assistenciais e subsidiados, 14% a saúde e transferências federativas; - "A margem para economizar qualquer valor representativo dentros dos 11% passíveis de corte é pequena"; - Nesses 11% inserem-se o custeio da máquina e os investimentos; - Em 20 anos, as despesas obrigatórias ("blindadas") duplicaram em termos percentuais: foram de 46 para os 89% atuais, enquanto as discricionárias (os atuais 11%) foram reduzidas, só nos investimentos, de 15,4% do total para 3,1% e de 38 para 8,3% nas despesas de manutenção.
Nos últimos anos, ainda segundo a Folha, "toda a elevação do gasto no governo federal foi financiada pelo aumento da carga tributária". FHC elevou essa carga de 25 para 35%. Como as despesas continuam crescendo, sobretudo as obrigatórias, e a carga tributária bateu no teto, a questão de corte de gastos correntes toma a dimensão crítica de hoje.
Alckmin fala em cortes estratosféricos apenas com o tal "desaparelhamento" do estado, a redução de ministérios, a eliminação de desperdícios e coisas similares. Ainda que isso tivesse a dimensão que ele acusa, equivale, nas palavras do jornalista Elio Gaspari, a "cortar os cabelos para quem precisa emagrecer". Lula 'dispensa' o corte de gastos confiando que o crescimento o tornará desnecessário. O raciocínio aí é o de cortes graduais: se as despesas, mesmo que cresçam, crescerem a taxas sempre menores do que a do PIB, os indicadores fiscais resultarão sempre mais favoráveis e adequados no longo prazo... Muita gente aponta, entretanto, riscos nessa tese: ela seria mais dependente da manutenção do bom cenário internacional e, sem cortes de gastos mais rápidos, da queda mais acelerada dos juros (o que, intrincadamente, pode exigir, por si só, certo volume de corte de gastos para evitar efeito inflacionário).
Depois de ler e reler, minha opinião caminha na seguinte direção: no curto prazo, não tem discussão, temos que apostar com mais firmeza na questão da "melhoria da qualidade dos gastos públicos" que ambos os lados da disputa presidencial, de um jeito ou outro, propõem. Isso é absolutamente discrionário e pode ser radicalizado! Pode e deve! Estamos falando aí em priorização e seletividade, tecnologia e gerencia, controle e eficiência de gastos. É uma agenda que, associada a implementação de uma "cultura" de redução rigorosa de gastos de custeio (ainda que gastos de valor pouco substantivo para o tamanho do problema, mas passíveis de serem previamente planejados), já podia estar mais avançada... Já os cortes estruturais creio que, inevitavelmente, só poderão ser desenhados como tendências de longo prazo. Mas nada impede que tenham, desde já, metas claramente estabelecidas e pressupostos bastante bem identificados. Grande parte desses cortes depende de reformas estruturais, ou seja, depende de acordo político o que não tem sido uma virtude do atual ambiente político. Acordo para conclusão da reforma tributária, para a previdenciária e para a reforma trabalhista, por exemplo. E, por que não dizer, acordo para revisão dos valores "blindados", avaliando-se sua atualidade ou seu anacronismo.
O fim da política
1. Tereza Cruvinel, hoje, domingo 22/10: "... Levantamento realizado pelo deputado Alexandre Cardoso, líder do PSB, conclui que apenas 38% dos deputados foram eleitos pelo voto partidário ou de opinião; 62% são clientelistas e personalistas. Donos de seus próprios mandatos, dificultarão a construção de uma aliança institucional e partidária, forçando a abertura do velho balcão de negociações com o Executivo". Comentário: hoje, apenas uma estatística. Daqui a um ano nos surpreendemos com o efeito que isso gera e ficamos indignados...
2. Folha, hoje, domingo 22/10: "Um terço da nova Câmara é de milionários. Levantamento da Folha mostra que 165 dos deputados eleitos neste mês declararam patrimônio superior a R$1 milhão. Cientista político diz que número de ricos pode ser maior porque nem todos listam bens patrimoniais de forma completa". Comentário: Nada contra milionários. É natural e importante que estejam presentes no parlamento. Mas nesse percentual estão sobre-representados. Apesar das novas regras, o poder econômico continua prevalecendo nas eleições...

20 de out de 2006

Sem projeto...
Alckmin assumiu, ontem, ter errado ao embarcar no debate da privatização. As pesquisas mostram que, de fato, ele errou aí. Mas isso me parece apenas a ponta do iceberg. O erro, na verdade, é muito maior: ele errou e erra na defesa frágil que tem feito do projeto tucano que representa.
Lula diz, com razão, que o que está na disputa são dois projetos diferentes. Alckmin confirma quando diz que ele e o adversário não são iguais. Lula defende o seu projeto defendendo o seu governo. Os números conspiram a seu favor. Pela ordem natural das coisas, os números de Alckmin serão sempre descartáveis perto dos números gigantescos do adversário. Alckmin insiste numa seara que não é a sua. Mais do que a defesa de seu governo em São Paulo, o seu eixo deveria ser a defesa do seu projeto, em sentido amplo, que contém um modelo fundamentado, que afirma uma visão de estado, que explicita uma concepção de desenvolvimento etc. Gostemos ou não. Confrontemos com ele ou não.
Ao render-se às orientações de marketing, ao invés de apoiar-se nesse projeto, ele parece envergonhar-se dele; para esconder FHC, põe de lado teses importantes, como a visão, por exemplo, sobre privatização. Se a defendesse com grandeza, poderia perder a eleição, mas não perderia o discurso. Ao escamoteá-la, não acumula nada ao próprio projeto e, pelo visto, perde até amigos como Mendonça de Barros que, ontem, irritou-se com a "falta de coragem" do candidato...
Um pelo outro ...
Filme francês por filme francês, assista Caché com Juliette Binoche e Daniel Auteuil (Caché - FRA, 2005). Tempos modernos: o terror à porta, a fatura das mágoas nascidas do colonialismo francês na Argélia entregue debaixo da sua porta...
PS. Aviso aos arquitetos: reparem na casa do casal.
Não perca tempo
Não assista "O tempo que resta" (Le temps qui reste - FRA, 2005) do diretor François Ozon. A única coisa boa é o comentário na mídia, a leitura de que seria parte de uma trilogia sobre a morte. Nada mais...

19 de out de 2006

E agora Geraldo?
1. O histórico: a não-vitória de Lula no 1º turno, ou seja, a necessidade de um 2º turno, foi, em si, uma vitória de Alckmin. 0 a 1. Na primeira semana, Lula avança nos acordos estaduais e empata. 1 a 1. No debate da Band, Alckmin avança o time todo. Ou faz gol ou faz gol. As pesquisas, 3 dias depois, apontam: não fez! Lula 2 a 1. Na segunda semana, na guerra de estigmatização, Lula põe Alckmin na defensiva. Inacreditável: como desafiante, ao invés de pautar é pautado. Passa a semana dizendo que o corte de gastos não vai prejudicar o Bolsa Família e que não é privatista. Perde o eixo: 3 a 1.
2. Estratégia para o debate do SBT: tentei pensar uma saída para Alckmin. Não consegui... Insistir no ataque? Suicídio! Recuar? Suicídio! Não vislumbrei uma estratégia e, pelo visto, nem ele... Perdendo por 22 pontos (Vox Populi, hoje: 61 a 39% de votos válidos), Alckmin resolve jogar pelo empate??? É tarde!!!
3. Resultado do debate do SBT: comparado ao anterior, esse foi até um jogo elegante. Lula mais à vontade. Alckmin de volta ao seu estilo mais sereno. Um ou outro ataque. Pouca agressividade. Muito toque de bola no meio campo. Alckmin não erra aqui, mas paga o preço da estratégia errada no debate anterior. Lá, tinha que avançar para ameaçar: avançou demais e não deixou uma linha de recuo. Quando descobre que pôs o campeonato a perder, vê que não tem mais bala. Perde a iniciativa. Para não tomar mais gol, tenta rearmar a defesa. Recua. Parece jogar pelo empate... Muito tarde!
4. Resumo: Alckmin não faz a menor idéia do que fazer para ir além do meio campo. Enquanto o juiz não apita, reza por mais um erro do adversário, que é mestre em fazer gol contra. Ele próprio já não tem mais fôlego. Quem não faz, leva!!!

18 de out de 2006

Votos migrantes...
Tem sido impressionante, nessa eleição, o volume de votos dispostos a uma repentina migração. Muitos deles sequer puderam ser captados pelas pesquisas eleitorais, como, no 1º turno, os que deram a vitória ao Jacques Wagner na Bahia, os que inverteram as posições no Rio Grande do Sul e, sobretudo, os que movimentaram-se na direção do Geraldo Alckmin. Agora, no 2º turno, os que apontam para a vitória do PT no Pará, os que apontam para a virada em Pernambuco e por aí vai...
Imigração e emigração: no caso da eleição presidencial, os votos válidos que chegaram a dar 60 a 40 a favor de Lula contra a soma dos demais adversários, em meados de setembro; que foram contados, na urna, em 1º de outubro, com uma diferença reduzida a 7 pontos entre os dois principais concorrentes; acabam de voltar à diferença anterior de 20 pontos (Datafolha, hoje, Lula 60 - Alckmin 40%)! De uma semana pra outra, indo e vindo, são 13 milhões de votos migrantes... É muita coisa!

17 de out de 2006

'Vereadores' estaduais e federais
O deputado Paulo Delgado, não-reeleito, em entrevista logo após o resultado eleitoral, chamou de 'vereadores' federais a nova safra de deputados eleitos, a maior parte vinculada a interesses paroquiais. Curioso, trabalhei sobre os números divulgados pelo TRE-MG e pelo TSE, tomando como referência os deputados estaduais e federais eleitos pelo PT e os quatro primeiros suplentes. Algumas conclusões:
1. Entre 9 eleitos e 4 suplentes, no pleito estadual, apenas 1 conseguiu êxito com uma votação mais distribuída, não concentrada em apenas uma ou duas das 12 meso-regiões do estado de Minas Gerais;
2. Para 2 eleitos, os votos de seus municípios-base foram suficientes para alcançarem sucesso; para outros 2, os votos de suas respectivas regiões bastaram; para mais 2, os votos das próprias regiões representaram 80% de suas votações;
3. Dentre os 13, 9 tiveram votação relevante apenas na região de origem e votação inexpressiva em todas as demais;
4. No pleito federal, a situação se repetiu: apenas 2 obtiveram sucesso sem apresentarem uma focalização territorial;
5. Dos 13, os outros 11, com maior ou menor intensidade, apresentaram um comportamento claramente 'distrital';
6. A DISTRITALIZAÇÃO, entendida como tendência à apresentação de desempenho fortemente concentrado em uma região, parece ter, efetivamente, marcado as eleições de 1º de outubro;
7. Neste cenário, não será surpresa se os deputados estaduais e federais eleitos se comportarem como 'vereadores' estaduais e federais, como preconizou o deputado Paulo Delgado: muito mais preocupados com interesses locais (com captação de recursos e intermediação de negócios) do que com interesses ideológicos mais amplos (políticas de desenvolvimento estadual ou nacional, políticas públicas de inclusão social etc).
8. Deus queira, que, acima desses interesses locais ou nacionais, pelo menos, não ponham os interesses pessoais!!!
Votos do Cristovam...
Segundo pesquisa Datafolha, realizada no último dia 10, o presidente Lula (PT), candidato à reeleição, tem a preferência dos eleitores que votaram no pedetista Cristovam Buarque no primeiro turno das eleições presidenciais. De acordo com o levantamento, 48% dos eleitores do PDT se dizem dispostos a votar em Lula no segundo turno, enquanto 34% preferem Geraldo Alckmin (PSDB).
Salto alto...
As pesquisas do 2º turno indicam que Lula ganhou votos no sul, na faixa de maior renda e votos de HH. Em tese, votos do quintal alckmista. Para explicar, proliferam especulações. Uma: de fato, o eleitor quis dar um puxão de orelha no Lula, obrigando-o a ir ao segundo turno; Outra: houve um empuxo Alckmin, na última hora do 1º turno, movido pelo ambiente emocional criado pelas fotos do dossiê e esses votos estão se reacomodando, agora, na medida que as denúncias perdem gás; Outra mais: no debate, o Alckmin calçou o salto alto que acusou Lula de usar no 1º turno...

15 de out de 2006

Segundo turno…
Para aqueles que apostaram no segundo turno como oportunidade de debate mais substantivo de idéias, a primeira metade da campanha pôs água na fervura… Confronto de propostas, só lateralmente. No centro do palco, uma guerra de estigmatização. Ataques e contra-ataques.

As composições, os arranjos estaduais de apoio aos dois candidatos ocuparam a primeira semana. Lula movimentou-se melhor nesse campo. Alckmin preferiu a polêmica do apoio do casal Garotinho.

A largada oficial foi o debate na Band. A maior surpresa foi o tom que o Alckmin, como desafiante, escolheu. Para quem, ao longo de todo o primeiro turno, resistiu às pressões do PFL para uma campanha mais dura, Alckmin surpreendeu, de fato, ao elevar o tom ao limite. Tática suicida: se der certo, muito bem. Senão, como recuar? Alckmin parece ter abandonado um roteiro estratégico pelo vale-tudo, confiante nas fotos do dinheiro do dossiê...

A cobertura dos jornais recuou em apontar um vencedor. O debate que começou prometendo um massacre tucano acabou empatado na opinião da maioria. Uns e outros apontaram uma tendência pró-Alckmin. Sem nocaute, com ataques dos dois lados, alguns ainda se deram ao trabalho de contar os pontos. Mas nessa contagem de pontos pouco interessaram as opiniões individuais, que não faltaram. A expectativa, na verdade, ficou para o resultado pesquisas…

As 3 pesquisas que encerram a primeira quinzena abateu a euforia tucana. A estratégia falhou: Alckmin caiu, Lula subiu. Datafolha: 56 a 44; Vox Populi: 55 a 45; Ibope: 57 a 43%. Sobre o debate, especialmente, os 39% que o assistiram, de classe de renda mais alta, acharam que Alckmin foi melhor, mas, curiosamente... deixaram de votar nele. Nessa classe a sua perda de votos foi maior.

Há valores imponderáveis nesta avaliação. O julgamento dos eleitores parece se dar não pelas falas previsíveis, mas pelo subtexto, pelo que eles enxergam nas entrelinhas... Alckmin deverá insistir na estratégia que escolheu. Não tem muitas alternativas. Irá ao limite com as denúncias de dossiê, com as fotos do dinheiro. O tiro pode sair pela culatra...

9 de out de 2006

É verdade que Sete Lagoas dispersa votos?
O resultado eleitoral e a não eleição de nenhum dos nove candidatos locais a deputado estadual reacendeu a discussão sobre o 'voto produtivo', sobre a não dispersão de votos com candidatos de fora...
Fiz, então, a seguinte indagação: Sete Lagoas tem um comportamento padrão ou é, de fato, uma exceção? Fui aos números: para responder fiz um cotejamento com as outras 26 cidades mineiras com mais de 100 mil habitantes e cheguei às seguintes conclusões:
1. Há relativa proporcionalidade entre tamanho de população e número de candidatos votados. Não uma regra, mas uma tendência: cidades maiores tendem a dispersar mais seus votos em mais candidatos;
2. As cidades da região metropolitana, incluindo aí BH, Betim, Contagem, Riberão das Neves e Santa Luzia são as campeãs, com um número entre 670 e 850 candidatos votados. Compreensível... Juiz de Fora e Uberlândia, que têm cada uma o triplo da nossa população, vêm em seguida com números também acima de 600 candidatos votados. Também razoável...
3. Confirmando a suspeita, suprimindo essas 7 cidades, Sete Lagoas é a primeira no ranking com seus 572 candidatos votados. E o tamanho de sua população não é uma boa desculpa: ela deixa prá trás cidades de mesmo porte como Divinópolis - que deu votos a 546 candidatos - ou maiores como Uberaba (501), Montes Claros (498), Valadares (483) e Ipatinga (473);
4. A pergunta que resta: Sete Lagoas não tem liderança porque dispersa seus votos ou dispersa seus votos porque não tem uma liderança que agrega?

6 de out de 2006

Mais do mesmo, em Sete Lagoas...
Sobre Deputado Federal:
1. O deputado Márcio Reinaldo, mais uma vez, imperou entre os eleitores setelagoanos. Ninguém chegou perto dos seus 40.946 votos. O segundo colocado mal chegou a 10% dos seus votos...
2. Apesar da performance impressionante, o deputado vem perdendo terreno na cidade. Como o eleitorado cresce ano a ano, a relação dos votos nominais dados ao candidato frente ao total de votos válidos tem sido decrescente. Em 1998, ele recebeu 50% dos votos válidos; em 2002, caiu para 47%; agora, 42%. Sinal de fadiga de material...
3. Em votos nominais, o deputado teve este ano menos votos do que em 1998, quando recebeu 41.368 votos... No período, o eleitorado cresceu 25%.

5 de out de 2006

Mais comentários sobre as eleições em Sete Lagoas...
Sobre Deputados Estaduais:
1. Os 101 mil votos válidos poderiam eleger de 2 a 3 deputados dependendo da legenda, entretanto nenhum candidato local se elegeu;
2. A tese do voto "produtivo" (voto em candidato local) não prosperou. 572 candidatos receberam votos dos eleitores setelagoanos;
3. Dos 572, a grande maioria (526) recebeu menos de 100 votos (Desses, mais de 100 só 1 voto...). Irrelevante! Apenas 36 entre 100 e 1000. Somente 10 candidatos tiveram votação expressiva acima de 1.000 votos;
4. A votação em partidos ou coligações não obedeceu a uma lógica ideológica, mas vinculou-se à existência de 'puxadores' de voto local. O PDT foi o mais votado (27.002 votos), 92% dessa votação dada ao Dr.Ronaldo João; A coligação do PSDB veio em seguida com 24.297 votos, metade deles dirigidos ao Dr.João Batista; O PMN, o terceiro, com 16.525 votos, quase todos do Duílio e o PT e coligados com 10.531 votos, 40% deles do Claudinei.
5. Se acreditássemos que voto na legenda é um voto "programático" e concentrássemos todos os votos daquela legenda na votação do candidato local, ainda assim nenhum deles seria eleito;
6. O deputado eleito que teve mais votos em Sete Lagoas foi o Jairo Lessa com 2.310 votos. No ranking local ele ficou em 8º lugar, atrás de 7 candidatos locais não eleitos.
Comentários sobre as eleições em Sete Lagoas...
1. 119.726 eleitores dos 138.200 compareceram à urnas. Abstenção de 13,37%;
2. Para presidente: Lula 50,49%; Alckmin 38,07%; HH 7,45%, Buarque 3,70%, outros 0,30%; brancos e nulos10,44%;
3. Para governador: Aécio 78,87%; Nilmário 19,88%; outros 1,25%; brancos e nulos 14,49%;
Comentários sobre as eleições
1. Contrariando expectativas, a contagem final do TSE indicou o PT como o partido que atingiu a maior votação para deputado federal: 13.989.859 votos. Em seguida, PMDB, PSDB e PFL, nesta ordem;
2. Apesar de campeão de votos, o PT ficou com a segunda maior bancada (83 deputados). O maior número de deputados ficou com o PMDB (89). PSDB e PFL empataram (65 cada);
3. Deputados considerados excelentes na atual legislatura, do grupo dos mais influentes e mais preparados, foram barrados no voto: Delfim Neto - PMDB/SP, Biscaia - PT/RJ, Sigmaringa Seixas - PT/DF, Sérgio Miranda - PDT/MG, Greenhalgh - PT/SP e Paulo Delgado - PT/MG;
4. Em contraposição, entre os mais votados: Paulo Maluf, Clodovil e Russomano, todos de SP;
5. O "filhotismo" funcionou. Ou seja, o DNA foi decisivo: o deputado mais votado da Bahia foi o ACM Neto; o terceiro mais votado do Rio foi o Rodrigo MAIA; de Minas, o campeão foi Rodrigo de CASTRO, o 9º foi o Leonardo QUINTÃO, o 12º o Paulo ABI-ACKEL; no Rio Grande, a 4a. posição ficou Luciana GENRO; no DF, assinar RORIZ dispensa as urnas etc. Na Assembléia do Rio, 25% dos eleitos são de famílias de políticos;
6. O filhotismo só não funcionou para Roberto Jefferson: a filha e o genro ficaram de fora;
7. Briga de mensalinho também não deu resultado: nem Severino, nem o dono do restaurante entraram...
8. Congresso, o retorno: estão de volta Collor, Ibsen Pinheiro e Alceni Guerra...
9. Só sete partidos venceram a cláusula de barreira: PT, PMDB, PSDB, PFL, PP, PDT e PSB;
10. Para todos que torceram por uma renovação recorde na Câmara, depois de tantos escândalos e descrédito, uma ducha de água fria: foi a menor renovação em 12 anos: 46%! Em 94, 98 e 2002, os índices foram, respectivamente, de 58, 50.7 e 49.9%;
11. Juntando esses ingredientes, concluir o quê ???
Democracia é maior que qualquer um de nós
(artigo publicado na Folha de S.Paulo em 01/10/06)
RENATO JANINE RIBEIRO



Eleição não é luta do bem com o mal. É comparação. Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$ 4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público. Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social. Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio. Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes. É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta. Discordo disso. Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social. No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores. O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada. Agora vamos à questão ética. No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula. Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital. Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos. Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse. Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos. Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades. Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos. Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.


RENATO JANINE RIBEIRO é professor de ética e filosofia política na USP, é diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (Companhia das Letras)

3 de out de 2006

Manderlay
Eu perdi a exibição nos cinemas. Encontrei, agora, em vídeo. Impressionante! O diretor Lars von Trier mantém o nível nessa sequência de Dogville. Se naquele a questão estava nas relações interpessoais e sociais, falava de solidariedade, dependência, dominação; em Manderlay, mais do que no racismo, a questão central está na noção de liberdade. Em ambos, a mesma linguagem, os cenários surpreendentes, a densidade dos textos e a forte simbologia. Inteiramente metafóricos... Nessa sequência, Nicole Kidman foi substituída por Bryce Dallas Howard. Em segundo plano, em um e outro, Lauren Bacall e Chloë Sevigny. Imperdível!!!