29 de set de 2006

Amigo,
Escrevo-lhe porque gostaria de compartilhar a minha impressão sobre o momento que estamos vivendo, às vésperas de mais uma eleição presidencial. Devo dizer, antes mais nada, que percebo o ambiente político e faço minhas reflexões a partir de uma grande afinidade com o PT, de ter, na eleição passada, participado não apenas da campanha do presidente Lula, mas particularmente do deputado Patrus Ananias, e de estar, nos últimos 3 anos, em Brasília, no Governo Federal. Se nas eleições passadas, em um momento tão positivo, eu me manifestei frente a alguns amigos, acho que devo fazê-lo de novo, agora, em tempos um tanto contraditórios...

Não desejo fazer uma defesa insana do PT. Discordo inteiramente de toda a crise ética que ele ou alguns petistas, para surpresa de todos nós, provocaram e, pelo visto, continuam provocando. Não acho sensato esconder o sol com a peneira com a desculpa de que todos os partidos e todos os políticos são iguais. Não foi com essa convicção que tantos de nós se aproximaram do mundo da política ou que passaram a se interessar pelos assuntos da coletividade brasileira ou de nossa cidade. Mas, também, não acho sensato validar a voz corrente de que sobre as ruínas dos erros do PT, todas as críticas de oposição passam a ser automaticamente razoáveis e o atual ambiente passional e bélico é plenamente justificável. Não vou trocar a não-ética do PT pela nova-ética golpista de ACM ou de alguns tucanos paulistas.

Sob o tiroteio, meu único interesse tem sido o de recuperar uma certa racionalidade. Mesmo que ela não seja única e que posições divergentes possam coexistir, e possam ser, ambas, sensatas, esta racionalidade pressupõe pôr um limite nas disputas momentâneas para relembrar valores permanentes: projetos, crenças, convicções que fazem a Política, como se diz, com P maiúsculo. Senão, movidos apenas pela paixão, corremos o risco de jogar fora a criança com a água do banho...

Racionalmente, eu tenho razões partidárias para continuar a votar no PT. Acho que o partido tem mais condições do que outros para fazer uma autocrítica e reassumir a bandeira da ética com ações concretas. Primeiro, por ter uma militância ativa. Segundo, por ter uma base social histórica. Os outros partidos não têm nem uma coisa, nem outra. Quero acreditar que o fato de estar mais vulnerável à pressão da militância e dos movimentos sociais pode produzir uma tensão interna e bons resultados.

Mas para além de razões partidárias, por compromisso com a democracia e com uma sociedade mais justa, quero fazer uma defesa racional do PT. Sobre isso, penso que mesmo os não-petistas devem ponderar sobre três pontos importantes. O primeiro, de que um país com vida democrática tão jovem e imatura não pode comprometer a possibilidade de alternância no poder. E só há alternância se existem partidos com forças proporcionais capazes de estabelecer uma relação de disputa. Ainda que os partidos tenham se movimentado para o centro e aspectos ideológicos tenham perdido a vivacidade, não podemos nos render ao discurso moralista de que o PT é uma raça a se exterminar. Penso, ao contrário, que o PT é uma condição para a democracia brasileira...

O segundo, de que um país dividido entre pobres e ricos não é bom para ninguém. Uma coisa é priorizar os pobres e a redução da pobreza na ação de governo, outra insistir no argumento preconceituoso de que quem vota em Lula é cínico (porque desconsidera a ética), burro, manipulado (pelos programas sociais), nordestino (o Brasil “atrasado”) e miserável, o que cria uma divisão perversa entre nós brasileiros. A Carta Capital que está nas bancas mostra, com base em pesquisas, que nenhuma dessas teses se sustenta, apesar de tão propaladas nesses tempos. O que se vê, por exemplo, é que Lula tem uma votação relativa incomum no nordeste, mas, em números absolutos, seu maior eleitorado está no sudeste (o tal Brasil “moderno”).

E o terceiro, de que os resultados das políticas sociais do governo devem ser avaliados com serenidade pelo que representam para o Brasil e pela tendência que desenham para o futuro. Acho que o conjunto da obra do governo é muito bom, mas as políticas sociais, em especial, respondem ao que mais se esperava do PT. Pondo de lado o que o governo acha dele mesmo, estudos de pesquisadores independentes mostram efeitos decisivos dessas políticas para o país, desfazendo a crítica de assistencialistas e eleitoreiras. Marcelo Néri da FGV, por ex., divulgou esta semana que nos anos 2003/2005 o Brasil experimentou a maior redução da pobreza desde 1992, quando este indicador passou a ser calculado. Ricardo Paes de Barros, do Ipea, mostrou, com base na PNAD-2004, que o Brasil atingiu a menor desigualdade social desde 1976, quando ela passou a ser mensurada por 4 indicadores diferentes. Redução de pobreza e queda da desigualdade não são notícias que interessam só aos pobres, mas a todos. São condições não só de justiça social, mas de desenvolvimento econômico.

Para concluir, penso que, mais do que nunca, temos que afirmar a convicção da ética na política. Se os partidos tornaram-se todos tão criticáveis, temos que procurar neles os homens de bem, capazes de renová-los e renovar a nossa democracia e a nossa política. Como continuo acreditando no PT, compartilho com você os meus votos para deputados. Se você tiver interesse pode conhecer a trajetória de Carlão e André Quintão nos sites http://www.carlao1331.com.br/ e http://www.andrequintao13555.can.br/.