21 de dez de 2006

Pobres jovens
A questão da juventude vai ganhando tal dramaticidade que ou os governos, nos três níveis, arregaçam as mangas ou estaremos perdidos...

Historicamente, faltam políticas públicas para essa faixa etária. Há uma convergência de esforços voltados para a criança, para os portadores de deficiência e para os idosos, por exemplo. Mas não há oferta de serviços e benefícios suficientes para a juventude. O governo Lula pautou esse assunto com o pró-Jovem, mas os resultados são ainda incipientes...

Fora da escola, sem oportunidade de capacitação, fora do mercado de trabalho, desagregada do meio familiar, seduzida pelo tráfico de drogas e pelas próprias drogas, sobrecarregada por uma dramática precocidade de gravidez, matando e morrendo, a juventude brasileira, especialmente a juventude pobre, não vê horizontes pela frente...

Números arrasadores: 5,1 milhões de jovens de 10 a 24 anos desempregados; desocupação na faixa de 10 a 17 ampliada de 11,5 para 21,5% de 1995 a 2005 e de 10,7 para 18% na faixa de 18 a 24; rendimento médio 12,7% menor com relação a 1995, apesar do aumento de 4,6% em 2005 (IBGE - Síntese de Indicadores Sociais, 20/12/06).
O imprevisível mundo da política
Nem o mais afinado comentarista político, nem o mais atento observador; nem o mais ardente petista, nem o mais fiel dos tucanos, ninguém - ninguém mesmo! - foi capaz de prever, há um ano, o ambiente político desse final de 2006.

O Presidente Lula, em dezembro de 2005, tinha sua reeleição comprometida. Em outubro de 2006, arrematou indiscutíveis 60% dos votos das urnas. Lá trás, amargava índices perigosos de impopularidade. Agora, comemora índices de aprovação pessoal e de seu governo recordes na história. Quem confiava nisso?...

O Congresso, no ano passado, sob os holofotes das múltiplas CPI's, apostava na recuperação de sua credibilidade perdida. Agora, com raras exceções, vê as musas e heróis daqueles dias fora de cena, contabiliza uma das menores renovações dos últimos tempos, esconde das manchetes os resultados pífios das CPI's e, por absoluta falta de sensibilidade, se mete numa enrascada absurda, obrigado a ver, nas primeiras páginas dos jornais, a justificada revolta popular com o aumento de salários auto-concedido. Quem previu final tão melancólico para essa legislatura?...

O Judiciário, que permitiu para si próprio salários incomuns e pleiteia novos aumentos, com questionável autoridade, acaba de negar o mesmo aumento de salários para os parlamentares... Quem teria coragem de colocar esse tema na pauta?...

Nesse desequilíbrio entre poderes, perde o país. Na falta de isonomia entre eles, ganham os interesses particulares. Na insensibilidade de colocar salários corporativos à frente dos grandes temas de valor público, vão-se as lideranças...

Dias inexplicáveis!
Sete Lagoas e o PIB
O desempenho do PIB mineiro e o do setelagoano, comentados abaixo, refletem a realidade do país. Pesquisa do IBGE sobre o PIB nos municípios, divulgada no dia 13, mostra que a riqueza nacional interiorizou-se mas nem por isso se desconcentrou. Interiorizou-se porque o peso econômico das capitais e regiões metropolitanas caiu enquanto o das cidades médias elevou-se. Concentrou-se porque o peso econômico dos municípios pequenos também caiu, aumentando a participação dos 10% mais ricos frente aos 50% mais pobres (subiu de 19,9 vezes para 20,4 a produção daqueles em comparação com a desses outros).

Exemplo do primeiro fenômeno, a cidade de São Paulo, embora tenha preservado a liderança do ranking, teve um desempenho 20% inferior ao de seis anos atrás.

Caso típico, Sete Lagoas, evoluiu junto com outras cidades médias industriais (especialmente com indústria automobilística) ou pólos produtores de petróleo.

14 de dez de 2006

Indústria pesa mais e muda o mapa do PIB mineiro
Crescimento do setor no os últimos três anos altera ranking das cidades mais ricas do estado, abrindo espaço para Ipatinga, Sete Lagoas e Contagem entre as dez mais

O crescimento da indústria em Minas Gerais nos últimos três anos alterou o ranking dos municípios que mais contribuem para a geração de riqueza no estado, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB). Ipatinga, no Vale do Aço mineiro, Sete Lagoas, na região Central do estado, e Contagem, na Grande Belo Horizonte, ganharam participação no mapa das 10 cidades mais ricas do estado, desbancando Uberaba e Uberlândia, no Triângulo mineiro, e Montes Claros, no Norte de Minas, consideradas pólos regionais importantes do setor de prestação de serviços. Os três municípios fortemente influenciados pela expansão da produção siderúrgica, de automóveis e autopeças melhoraram o seu desempenho de 2003 para 2004, conforme estudo da Fundação João Pinheiro, com base nos dados divulgados, ontem, sobre o PIB dos municípios pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
(...)
Sete Lagoas, que juntou à tradicional indústria do ferro-gusa (matéria-prima para a fabricação de aço) a fábrica de caminhões Iveco, do grupo Fiat, saltou duas posições no ranking das principais economias municipais de Minas. O valor da produção de bens e serviços no município somou R$ 2,76 bilhões, mais de 50% acima do resultado de 2003 (R$ 1,83 bilhão), saindo da décima para a oitava posição na lista das maiores cidades do estado. Ipatinga passou do sexto para o quinto lugar, com PIB de R$ 5 bilhões, e deslocou Uberaba, que perdeu posição.
(...)

11 de dez de 2006

Indicadores municipais e outros números...
O lógico e desejável é que os indicadores de gestão pública, em qualquer nível, mostrem sempre a convergência de bons resultados de gerência fiscal com bons resultados da gestão social. Na verdade, a gestão fiscal, a boa saúde financeira do poder público, só tem sentido se ela propicia melhores condições para prestação de melhores serviços à população, sobretudo à população pobre do país. Mas essa lógica não tem sido verdadeira desde que a gestão fiscal, a responsabilidade fiscal tornou-se um bem em si mesmo, sem vinculação obrigatória com a responsabilidade social.

O Valor de hoje, com base em dados da Confederação Nacional de Municípios - CNM, traz a seguinte manchete: "Cidades melhoram na área fiscal e pioram na da saúde". Bom e ruim! Na verdade, paradoxal!

Numa amostra de 3.089 municípios, os "restos a pagar" de 2005 foram de cerca de R$ 11bi e tinham, na virada para 2006, uma cobertura financeira assegurada no caixa da ordem de R$ 19bi, o que fez o sub-índice fiscal (IRFS-F) dos municípios subir 3,31% em relação à média do triênio anterior. O índice da educação (IRFS-EDU) também melhorou, enquanto os que medem o desempenho na saúde (IRFS-SAU) e o desempenho da qualidade da gestão (IRFS-G) cairam, respectivamente 3,4 e 13,1% . O índice agregado, que totaliza esses sub-índices, o Índice de Responsabilidade Fiscal e Social (IRFS), acabou penalizado com queda de 3,15% em relação ao período 2002-2004.

Sintomaticamente, os jornais de hoje informam que o Brasil caiu no ranking internacional de mortalidade infantil, elaborado pela UNICEF, embora venha melhorando, sistematicamente, nas últimas décadas, esse que é um dos indicadores mais importantes da saúde. Em 1970, 135 crianças por mil não chegavam aos 5 anos. Em 1990, caiu para menos da metade: 60 crianças. No último ranking, a mortalidade estava em 34 por mil e ocupávamos a 88ª posição entre 190 países (o 1º do ranking é o de maior mortalidade). Este ano, a mortalidade caiu para 33, mas, ainda assim, perdemos duas posições, agora no 86º lugar. Nos últimos 5 anos o Brasil perdeu 7 posições. Sinal de que outros países têm tido políticas mais eficazes que a nossa...
A mística dos números
Desde que o Presidente colocou o crescimento como o desafio nº 1 do segundo mandato, para o bem ou para o mal, o debate sobre esse tema tem se avolumado. A minha tentativa pessoal tem sido de (até onde acessível para um arquiteto e um não-economista) desmistificar esse debate e, se possível, tratar mais friamente os números que o acompanham.

Pergunta nº 1: é sensato acompanhar a tendência de comparar os nossos modestos números de desenvolvimento de PIB com os números estratosféricos da China, da Índia etc? As nossas realidades econômicas, os processos de avanço são similares? Os estágios de desenvolvimento, os parâmetros ambientais, as condições de remuneração da mão-de-obra, as exigências éticas relacionadas, por exemplo, a combate a trabalho escravo, não uso de mão de obra infantil são comuns a todos?

Pergunta nº 2: qual o preço a pagar para um desenvolvimento maior? A questão da sustentabilidade ambiental, por exemplo, deve ser 'flexibilizada'? Em outras palvras: o que é melhor: um crescimento mediano que incorpora valores ambientais, éticos, sociais ou um crescimento respeitável sem respeito a esses valores?

Pergunta nº 3: As condições para o crescimento não são criadas apenas conjunturalmente. O que se nomeia de PIB potencial depende de taxas históricas de investimento, de infra-estrutura disponível, de taxa de produtividade, de ambiente tributário etc. Há mais de 10 anos esses fatores estruturais da economia não sofrem alteração substantiva. A carga tributária, por exemplo, cresceu ao invés de diminuir. "Em 1995, o investimento em capital representou 22% do PIB. Mostrou uma tendência declinante até 2003 e uma recuperação em 2004. Mas hoje ainda é o que era em 1995 ..." (Eliana Cardoso, Estadão, 11/12/06). E por aí vai... Diante desse cenário o IPEA calculou o PIB potencial de 2007 em 3,7%. Frente a essa realidade, é razoável pensar em um PIB de 5% imediato ou, sensatamente, deveríamos sim assegurar condições para se alcançar esse patamar 'possível' de 3,7% - lembrando que nos últimos 12 anos ele só foi atingido uma única vez, em 2004 - projetando números melhores, progressivamente, para os anos seguintes, implementando-se para isso um esforço racional e estrtuturado de planejamento?

10 de dez de 2006

Machado de Assis
Recomendo a leitura, muito prazeirosa, de 'Machado de Assis: um gênio brasileiro', de Daniel Piza (Imprensa Oficial - IMESP, 2ª edição, 2006). Mais do que nos revelar um Machado de Assis inusitado, hiperativo, precoce, bem humorado, contra a idéia comum de um homem excessivamente discreto, a biografia - premiada com o Prêmio Jabuti 2006 da Câmara Brasileira do Livro - traz o cotidiano muito particular da época em que o escritor viveu. Entre a monarquia e a república, entre o romantismo e o realismo literário, entre o internacionalismo (sobretudo de influência francesa) e o nacionalismo, o autor, de posse de uma pesquisa muito competente, nos revela muito de nossa história brasileira, de nossa intelectualidade, de nosso mundo político.

9 de dez de 2006

Cláusula de barreira e reforma política
A declaração de inconstitucionalidade da chamada cláusula de barreira pelo STF, ao meu ver, amplia o foco sobre a reforma política. A expectativa que se tinha era de que a redução do número de legendas daria início a um processo de moralização do quadro partidário brasileiro, reforçando os partidos de maior representação, e facilitaria a difícil negociação em torno da reforma política. Se esta reforma ficou mais difícil sem a cláusula, ficou, também, agora, mais urgente e necessária.

Ao que parece, o STF decidiu contrariamente à situação de deputados de primeira e segunda classe gerada pela cláusula e favoravelmente à representação das minorias em partidos menores. São duas questões verdadeiras. A das minorias faz sentido, particularmente, quando observamos os casos do PV e do PCdoB, por exemplo, legendas que têm tradição na política brasileira, ocupam espaços ideológicos definidos, têm identidade programática e têm demonstrado efetiva capacidade de contribuição na política nacional. O diabo, nesse caso, é separar o joio do trigo: junto com esses partidos vêm aqueles criados por puro oportunismo e que constituem-se exclusivamente em legendas de aluguel, franqueadas ao nepotismo, ao personalismo, ao utilitarismo.

Contrariando a expectativa do país em torno da reforma, os jornais que já vinham pondo em dúvida a sua vinda - relembrando as históricas polêmicas que ela suscita e as enormes dificuldades de consenso ou de construção de maioria em torno dos seus pontos centrais - passaram a considerá-la enterrada depois da decisão do STF. Pelo contrário, alguns pontos passam a ser, agora, ainda mais relevantes. Um deles, a fidelidade partidária. Penso que a vinculação do mandato ao partido produz por si só um estrangulamento desses partidos de baixa representatividade, sobretudo daqueles que se prestam a alojamento temporário, num perverso calculismo eleitoral.
Sete Lagoas: ainda sobre as eleições de outubro...
O resultado eleitoral mostrou que até deputado Mário Reinaldo, que confirmou sua liderança na cidade se elegendo para mais um mandato federal com votação prá lá de expressiva, vê nessa sua liderança sinais de erosão ou, digamos, que ela já apresenta uma certa 'fadiga de material': sua votação em Sete Lagoas, percentualmente, vem caindo a cada pleito. Em 1998, teve 49,5% dos votos; em 2002, caiu para 47,4%; agora, em 2006, queda ainda maior para 42,1%. Nominalmente, sua votação esse ano (40.946 votos) foi menor do que a de 1998 (41.368 votos), embora o eleitorado tenha crescido 25% nesses 8 anos. Da última eleição prá cá, o deputado perdeu quase 7 mil eleitores na cidade...
Sete Lagoas: voltando às eleições de outubro...
Revendo os resultados das urnas de outubro para deputado estadual, algumas reflexões...

A profusão de nomes cogitados como eventuais candidatos a deputado estadual em Sete Lagoas fez surgir, bem no início do processo eleitoral, a tese bastante plausível de que esse excesso provocaria uma dispersão de votos e levaria todos à lona. Abertas as urnas, como se sabe, a previsão se confirmou: nenhum candidato local foi eleito e Sete Lagoas ficará sem um representante no legislativo estadual. Mas, curiosamente, essa multiplicidade de nomes parece não ter sido o real motivo ou, pelo menos, o único motivo. Analisando os números do pleito, eles deixam a entender que o que nos faltou não foi exatamente uma boa estratégia, mas uma boa liderança.

Como o eleitor setelagoano reagiu diante dos 9 nomes postos à sua avaliação? Aqueles que entendiam ser importante um nome local na Assembléia fizeram o que a racionalidade política não fez: descartou 6 e centrou votos em 3. Só esses 3 tiveram mais do que 10% dos votos válidos na sua terra natal o que, convenhamos, é uma condição mínima de competitividade. Ainda assim, apenas metade do eleitorado agiu dessa forma. A outra metade passou os olhos nos 9 nomes e preferiu ir atrás de um nome de fora. Apesar de serem muitos os candidatos, esses eleitores acharam pouco!

Votar em nomes de fora não é feio. Não existe xenofobismo na política. Existem razões pessoais, ideológicas, partidárias que podem levar a esse movimento. Em todas as cidades acontece o mesmo. Será que Sete Lagoas fugiu ao padrão? Os números sugerem que sim. Desconsiderando a região de Belo Horizonte, onde há um atropelo de candidatos, e Uberlândia e Juiz de Fora, que têm o triplo de nossa população, nós fomos a cidade que mais votou em candidatos de fora. Mais do que cidades do nosso porte ou superior como Divinópolis, Ipatinga, Governador Valadares, por exemplo. Além dos nossos, outros 563 candidatos foram lembrados pelos setelagoanos.

Do fundo das urnas eletrônicas, mais um indicador dá o que pensar: diante de 9 opções nativas, o eleitor criou uma 10ª e deu a ela a terceira maior votação: os nulos e brancos receberam 15,21% da preferência. Normal? Não: quase o dobro da eleição de 2002.

Individualmente, esses dados podem não dizer nada. No conjunto, entretanto, sinalizam que nenhum, nem 2, nem 9 candidatos foram suficientes para estimular o eleitor e levá-lo a acreditar que valia a pena seguir nessa ou naquela direção. Bons nomes havia entre os nove, não há dúvida, mas nem por isso a tendência se inverteu. Isso não é um problema de estratégia, mas de liderança! Liderança orgânica, capaz de compreender o nosso momento político e de estar em sintonia com os nossos desejos de cidadãos. Liderança capaz de nos demonstrar que não vive de personalismos, mas que tem compromissos públicos. E, mais importante, liderança capaz de jogar luzes sobre o nosso futuro e nos trazer uma mensagem otimista de que podemos construir dias melhores. Essa me parece a verdadeira razão do nosso fracasso eleitoral: faltaram líderes, faltaram idéias...

7 de dez de 2006

Rumo...
Ou: não há crescimento sem planejamento...

Não faz sentido colocar o Meio Ambiente como 'o' obstáculo ao crescimento. Ele pode ter suas mazelas - e as tem - mas também tem seus méritos e, independente deles, não merece a acusação que recebe...

A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, em entrevista ontem, reconheceu que culpas setoriais não procedem e apontou o cerne do problema: falta de planejamento! O que não deixa de ser uma auto-crítica do próprio governo que, passados 4 anos, não logrou implementar um sistema de planejamento eficaz...

As projeções publicadas de crescimento do PIB para 2007 não vão além de 3,6 a 3,7%, diferente dos desejados 5%. Há um lastro que emperra vôos surpreendentes no exercício seguinte. Há aí a exigência de um mínimo de tempo para que as medidas econômicas de agora surtam efeitos no sistema produtivo e contaminem, amanhã, os indicadores. De uma hora para outra, de um ano para o outro, o resultado é quase nenhum...

Se o curto prazo não resolve, o que está posto na mesa são as decisões de médio e longo prazo. Ou seja, são as decisões que dependem de planejamento e do desenho de planos de ação consistentes. E o fato é que, não esse governo, mas, via de regra, os governos democráticos pós-1985 foram progressivamente pondo de lado os planos de desenvolvimento integrado de maior fôlego e se entregando apenas a não-planos, a medidas de curtíssimo prazo, de reação puramente conjuntural. Prova disso, o PPA, o Plano Plurianual, que trabalha com um horizonte de 4 anos, que cada vez mais vai se tornando um instrumento puramente formal, sem valor estratégico real, incapaz de orientar decisivamente as ações de governo.
Firmeza e serenidade II
A ministra Marina continua mostrando enorme dignidade em conviver com as hostilidades do momento. Não bate, mas sabe se defender com uma lucidez impressionante. Em entrevista a'O Globo, de hoje, reitera suas posições da entrevista de domingo. Ao negar disposição para 'flexibilização' de sua gestão, foi lapidar: "Eu perco o pescoço, mas não perco o juízo".
Conta correta
Na análise da derrota do governo (ou da base aliada), a conta correta não é 172 contra 148. À favor da oposição devem ser computados, também, os votos dados aos candidatos do PSDB e do PDT. O resultado é mais perverso: 242 a 148! Diante desses números, vale a expressão setelagoana: "não tem base não!". Literalmente...

6 de dez de 2006

Reprovado no teste
Em dia de crise aérea (que ninguém mais consegue explicar, entender e suportar), o governo fez seu primeiro teste na nova base aliada e não se deu bem. Em votação para o TCU, o nome da base - o deputado não-reeleito Paulo Delgado/PT.MG - escolhido na prévia por 213 parlamentares, perdeu no plenário com apenas 148 votos. Venceu o deputado, também não-reeleito, Aroldo Cedraz/PFL.BA, com 172 votos (atente-se: do derrotado PFL baiano de ACM)... Como interpretar? Alguns comentários em circulação:

a) Qualquer relação com o PMDB é mais efêmera do que o próprio pemedebista de oposição Jarbas Vasconcelos vaticinou...
b) O PMDB, por ora, está apenas precificando (e aumentando o valor...) do produto que negociou e prometeu entregar...
c) No atual Congresso, 'baixo clero' não perde eleição...
c) A calmaria das águas de novembro começa a gerar enjôo a bordo...

4 de dez de 2006

Firmeza e serenidade...
É o que demonstra a ministra Marina Silva em sua entrevista à Folha do dia 01/12/2006. Em dias de críticas cerradas aos supostos problemas colocados pelas licenças ambientais ao crescimento, críticas inclusive do presidente Lula, a ministra repõe o tema no lugar adequado com absoluta dignidade. O título da matéria já é indicativo: "Meio ambiente não é o vilão do crescimento". Alguns trechos:

"O setor ambiental não pode, no meu entendimento, ser tratado como o que dificulta nem como o que a priori facilita [o crescimento".

"Ninguém pode propor a um gestor público que relaxe o cumprimento da lei (...)"

"Nos últimos 8 anos a média de licenciamento do IBAMA era de 145 licenças pora ano. Atualmente é de 225 licenças. (...) E é engraçado que não havia um levante nesse país em decorrência disso".

"[A questão ambiental] não é uma questão de sensibilidade, é uma questão de objetividade. Um país que tem 165.000 km² de área desflorestada abandonada ou semi abandonada pode dobrar a sua produção de grãos sem precisar derrubar mais um pé de mato. (...)"

"No debate deste momento, é importante que fique claro que licenças foram dadas e obras licenciadas não foram iniciadas".

"(...) o meio ambiente não é o vilão do desenvolvimento. Os países em desenvolvimento têm cerca de 50% de seu PIB a partir de sua biodiversidade. Quem, em sã consciência, quer sacrificar 50% de seu PIB?"
A velha decepção com o PIB
Nada de novo no front: o crescimento do PIB do 3° trimestre ficou em 0,5%; a expectativa do crescimento anual caiu, agora, para 2,9%. Com isso, 150 países terão expansão econômica maior que a nossa. A Rússia, mais do que o dobro. A China, mais do que o triplo... Pelo segundo ano consecutivo, na América Latina, pior do que o Brasil, só o Haiti.

O que mais angustia é que são anos e anos de baixo crescimento, apesar de todo arrojo fiscal continuado. Na era FHC, a média de crescimento ficou em 2,3%. Na era Lula, 2,6. Nada de muito virtuoso: o ambiente internacional foi mais favorável nos anos 2003/2006 (crescimento médio de 5,1%) do que nos 8 anos FHC (de 3,6%).

29 de nov de 2006

Novembro insosso...
Novembro, que se iniciou sob o impacto dos resultados eleitorais e promessa de muitas novidades, termina sem maiores emoções... “Ao vencido, ódio ou compaixão...”: a oposição derrotada entrou em crise existencial - o PFL irritado, o PPS vetado, o PSDB reflexivo. Enquanto isso, “... ao vencedor, as batatas”: Lula consagrado tirou das urnas a missão de destravar a economia.

Destravar a economia: essa foi a idéia fixa do mês; não só na cabeça do Presidente, como também nas páginas dos jornais. Por ora, nada de muito novo... A não ser os novos nomes em circulação: de Gerdau a Falconi, passando pelo Luciano Coutinho, até o Mangabeira Unger, todos levantaram idéias polêmicas, mas de polêmicas efêmeras. (Aliás, diga-se, pelas fofocas jornalísticas, muito pelo contrário, idéias convergentes demais e “ousadas” de menos). E não faltaram artigos de economistas... Polêmicos ou não, convergentes ou não, ousados ou não, a impressão que deixaram, para o comum dos mortais, é que há muito diagnóstico sobre o passado e pouca proposta para o futuro. (De onde me vem a frase que dizem fazer referência ao estado-maior do exército francês que “entrava em cada nova guerra perfeitamente preparado para ganhar a guerra anterior”).

Ao vencedor, além das batatas, novos aliados. De fato, a vitória magnetiza! Pode vir desse processo de imantação talvez a única novidade: o governo de coalizão com o PMDB. Mas, nesse caso, cautela é pouco. Primeiro porque, entre nós, não há nenhuma tradição de coalizão, nem à moda parlamentarista, nem ao estilo "de la concertación” chilena. Saberemos superar a tradição fisiológica que temos de sobra? Depois porque, entre nós, ninguém desconhece o PMDB, ou mais literalmente, ninguém conhece o PMDB. Será capaz de marchar nacionalmente unido ou só consegue, quando consegue, alguma unidade regional? Veremos...

Junto com o PMDB, no mesmo propalado espírito de coalizão, vêm o PV sem Gabeira e o PDT sem Cristóvam. Se essa toada der certo (Deus permita!), que contribua para reforçar programática e pragmaticamente a trincheira ambiental, um; e educacional, o outro. Sobretudo aquela, tão criticada ao longo do mês como obstáculo (será?!) ao desenvolvimento...

Voltando à economia, a boa-nova do mês, não exatamente nova, é que o governo estaria disposto a um aumento do PPI - o Projeto Piloto de Investimentos - em R$ 6,5 bi, para logística de transporte e saneamento, pela redução do superávit primário de 4,25 para 3,75%, em 2007. Essa posição que já foi bravamente defendida nos primeiros anos do governo, contra Palocci, andava um tanto fora de circulação...

Ainda na economia, o mês termina com a menor taxa selic da história (pasmem!)..., ainda assim a maior do mundo: 13,25%, ou uma taxa de juro real de 8,7%. O mercado adjetivou, mais uma vez, a queda de 0,5% como conservadora, na medida que a inflação continua apontando para um número bem abaixo do centro da meta, alguma coisa na casa de 3,15%. Se bem que para bem abaixo da meta, mesmo, o que vem apontando é o crescimento do PIB do ano: a expectativa que já foi de 5, caiu pra 4, depois 3,5, esteve em 3,2, com fortes intrigas, agora, de que não chegará a 3% pelos evidências de um resultado ruim no terceiro trimestre...

Para um mês de tantas expectativas, nem especulações sobre ministros que caem, ministros que sobem proliferaram....
Prioridades do Judiciário
A crítica ao aumento salarial do judiciário, comentada abaixo, derivou hoje, nos jornais, para críticas aos "templos majestosos da Justiça". Especialistas dizem que outras deveriam ser as prioridades desse poder e não construção de sedes. O subtítulo bate no fígado: 'Construir prédio é ótima porta para corrupção'. O detalhe: enquanto o Judiciário, no Orçamento 2007, planeja gastar R$ 260 milhões em reformas e construções de tribunais, a verba prevista para modernização do sistema penitenciário está orçada em R$ 199 milhões.

28 de nov de 2006

De novo, números: a invasão chinesa na AL
Artigo de Rubens Barbosa (FIESP) n'O Globo, de hoje:
- O comércio Brasil-China em 2006 alcançou US$16 bi. Notícia boa: a relação é superavitária para o Brasil em US$1,38 bi;
- Notícia ruim: o superávit brasileiro está em queda. Em 2003, foi de US$2,3 bi;
- Notícia pior ainda: considerando apenas produtos manufaturados (de maior valor agregado), sem commodities, a balança comercial é deficitária em US$6 bi;
- Notícia mais grave: a China nos ultrapassou em volume de exportações para, justamente, a América Latina. A China forneceu US$7,8 bi, o Brasil 6,5 bi; Em 1995, a situação era absolutamente inversa: US$5,7 bi para nós contra apenas 1,4 bi deles...
Mais números: Previdência
Os jornais revelam que a estratégia do governo para a Previdência é recrudescer os esforços de gestão nos próximos anos. Basicamente em duas linhas: recadastramento e fiscalização. Leia-se: combate a fraudes do sistema para redução de déficit. Nesse caso não se fará, por ora, reforma previdenciária, priorizando as reformas políticas e tributárias.
No futuro, entretanto, reformas estruturais serão necessárias. O que significa uma repactuação social em função da delicadeza desse tema. Mais números (O Globo, 28/11/06 - artigo do Ali Kamel):
- Progredindo por faixa etária quando da aposentadoria, 14,4% dos aposentados passaram a receber benefícios com menos de 45 anos; 36,7% deixaram de trabalhar com menos de 50 anos (41,5% para os homens e 28,6% para mulheres); e mais da metade (54,8%) com menos de 55 anos (nesse caso, 63,2% entre homens e 41,5% entre mulheres);
- No setor público, a mesma coisa: 1/3 se aposenta com menos de 50 anos; mais da metada com menos de 55;
- A idade média de brasileiros no momento da aposentadoria é, hoje, de 57 anos para homens e 53 para mulheres;
- Para comparar, no mundo, respectivamente para homens e mulheres, as idades mínimas para aposentadoria são as seguintes: Alemanha, Holanda, Suécia, México e Peru, 65 / 65; Argentina, 65 / 60; Colômbia e Cuba, 60 / 55; Noruega, 67 / 67. No Reino Unido, a idade mínima é de 65 para homens e 60 para mulheres e o primeiro-ministro Tony Blair encaminhou ao Parlamento projeto propondo 65 anos para ambos os sexos a partir de 2020 e 68 até 2046;
- Embora tenha população com mais de 65 anos menor do que aqueles países o Brasil compromete maior percentual do PIB com aposentadorias;
- As aposentadorias públicas e do INSS consomem 56% dos gastos não-financeiros do governo;
- Para atender um milhão de funcionários públicos, o déficit é de R$32 bi, para 21,1 do setor privado, o déficit do INSS é de R$42 bi.
Números: salários do Judiciário e do Legislativo
Legislar em causa própria não é de todo ruim...

A Ministra Ellen Gracie do STF parece ter recuado, hoje, na sua proposta de jetons para aumento do próprio salário e de outros 14 membros do CNJ e de reajustes dos salários dos Ministros do Supremo, com os aumentos em cadeia que eles geram.

Aos números (FOLHA, 27/11/06):
- Entre 1995 e 2005, os salários do Judiciário subiram quase 6 vezes mais do que a média do funcionalismo federal. No Legislativo, duas vezes mais. No MPF, cinco vezes;
Nesse período, o aumento de contratações no Executivo foi de 5,5%; no Judiciário, 28%; no Legislativo, 45% e no MPF, 59%. Ou seja, comparativamente ao Executivo, os outros poderes contatam mais e pagam mais;
- O Judiciário, o Legislativo e o MPF representam 8% do funcionalismo federal e consomem 21% dos salários federais;
- No Brasil, a média salarial dos ocupados é de cerca de R$1 mil. No Executivo é de R$4,4 mil para civis e R$2 mil para miliatares. No Legislativo, R$9,7 mil. No Judiciário, R$10,3 mil e no MPF, R$11,9 mil...

27 de nov de 2006

MUNIC 2005
A pesquisa da vez é a Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE que começou a ser divulgada na semana passada. E, naturalmente, já começa a dar manchetes nos jornais: "Municípios incham máquina" e "Orçamento participativo vira rotina nas cidades" apareceram no Estadão do dia 25/11.

Está lá: em seis anos, o aumento de funcionários foi de 38,8%. Apenas em 2005, os municípios expandiram seus quadros em 5,4% com 246 mil novos servidores. Os empregados municipais passaram a representar 5% da PEA. Nesse processo, houve aumento em 80% de contratados sem vínculo formal e queda de 35% daqueles com carteira assinada.

Ainda que tenha havido aumento de atribuições municipais, com necessária contratação na área da saúde e da segurança patrimonial, por hipótese, o aumento e a natureza dele não deixam de revelar a precariedade institucional dos governos municipais. É bom lembrar, por exemplo, que os contratos sem vínculos, ou seja, de consultores, temporários e prestadores de serviços terceirizados são categorizados orçamentariamente como custeio e não como despesas de pessoal, fugindo aos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal...

Surpreendentemente, o IBGE constatou que 72% (pasmem!) dos municípios aplicaram, em 2005, algum tipo de gestão orçamentária participativa. A razão disso, para analistas, está sendo atribuída ao Estatuto das Cidades...
Cresce número de negros nas universidades
A semana da Consciência Negra terminou com pelo menos uma notícia positiva: o IBGE, com base na mais recente PNAD, revelou que de 1995 a 2005 o percentual de negros e pardos no ensino superior pulou de 18 para 30%. Especialmente depois de 2001, esse processo de inclusão ganhou ritmo acelerado apontando para a perspectiva de que, em 2015, se alcance a eqüidade, ou seja, a participação desse grupo nas universidades será, então, compatível com a sua presença na população.

19 de nov de 2006

Mais sobre os negros
Elio Gaspari, em sua coluna neste domingo, citando o livro de Marcelo Paixão [UFRJ] que está nas livrarias (Manifesto Anti-Racista...) dá mais uma informação maldita sobre as nossas desigualdades raciais, complementando pesquisa do IBGE divulgada ontem. "Em 2001 [e não se tem porque duvidar que também nos anos seguintes...], quanto mais educado era o negro, maiores suas chances de ficar desempregado". E segue mostrando percentuais de desemprego crescentes para os negros, com o aumento de escolaridade, em cotejamento com os brancos...

18 de nov de 2006

Cotas: voltando à discussão...
Na postagem abaixo “Educação não garante emprego” comentamos estudo da UNB que revela que para o mesmo nível de escolaridade os pobres têm menos oportunidades de emprego do que os ricos. Pesquisa Mensal de Emprego (PME-IBGE) divulgada ontem põe mais lenha nessa fogueira, agora com enfoque racial: pela ótica da renda, para a mesma escolaridade, os negros ganham menos. Pior, a diferença de renda aumenta conforme os anos de estudo. Um negro sem instrução ou com um ano de estudo ganha cerca de 15% menos que um branco na mesma condição; outro negro com 11 anos de escola ganha metade de seu colega branco.

A pesquisa diz mais: a taxa de desemprego entre os negros é maior que entre os brancos; embora sejam minoria, representam metade dos desempregados; só são maioria na construção civil e nos trabalhos domésticos; segundo a renda, as mulheres negras são obrigadas a respeitar a seguinte ordem: primeiro, ganham mais os homens brancos, depois as mulheres brancas, depois os homens negros, só então elas...

Essas revelações abalam fortemente a crença de alguns de que nossas diferenças sociais resultam apenas de diferenças de acesso. E, portanto, se igualarmos o acesso à educação, por exemplo, caminharemos para a equidade. Mentira! Os “currículos sociais” e os “currículos raciais” foram esquecidos nessa conta. Tudo reforça a tese de que não chegaremos lá se não consorciarmos educação com políticas de reconhecimento de direitos: políticas de proteção social e políticas afirmativas para mulheres, negros e minorias. A discussão sobre cotas precisa permanecer na pauta!

16 de nov de 2006

The Corporation
Impressionante! Documentário muitíssimo crítico de Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan sobre o mundo definido pelas grandes corporações [Canadá, 2004] com entrevistas com Noam Chomsky, Naomi Klein, Vandana Shiva, Michael Moore, Milton Friedman e outros. Questiona o status legal dessas corporações como “pessoa” imortal e sem consciência moral (amoral). “Sem alma a salvar ou corpo a ser preso”. Acima do bem público, dos governos e dos países. Sem dever de lealdade. E fora dos sistemas de controle político e social. Fala de sua capacidade, sem paralelo, de doutrinamento e de construção de estilos de vida, mais do que de vendas de produtos. De determinar a vida dos povos sem ter mandato para isso. De sua capacidade de transformar o cumprimento da lei em decisão meramente comercial (custo x benefício). Compara as corporações a formas tirânicas como o nazismo e o bolchevismo. Questiona o seu direito a patenteamento sobre formas de vida. Critica a sua estratégia de criação de mercados flexíveis e trabalhadores inseguros. Denuncia suas externalidades: a exploração de mão-de-obra em países pobres, o trabalho infantil e escravo, a poluição química e ambiental, o comprometimento do habitat. A geração de riquezas ao custo de destruição. Extraordinário!

Para quem gosta de documentários, outra dica: SOB A NÉVOA DA GUERRA do diretor Errol Morris. The Fog of War: eleven lessons from the life of Robert S. McNamara – EUA, 2003. Também muito bom!

14 de nov de 2006

E o dólar?
As críticas mais fortes que tenho ouvido contra o governo vem de amigos ligados ao setor agropecuário e tem um endereço certo: o dólar e a excessiva valorização do real. O GLOBO, desta terça, traz artigo sobre o assunto, da Míriam Leitão (Panorama Econômico), no mínimo, esclarecedor. Em linhas gerais, ela mostra que todas as medidas preconizadas por especialistas já foram adotadas pelo governo, sem resultados. E deixa a entender que esses resultados, para sofrimento dos exportadores, só virão no longo prazo com medidas de aumento de competitividade das empresas brasileiras (leia-se reformas tributárias, trabalhistas...) e maior abertura econômica.

A jornalista mostra, uma a uma, as medidas sugeridas que, uma vez aplicadas, ainda assim, não mudaram em nada o cenário. As indicações de intervenção do BC para retirada de dólar excedente do mercado, a redução da dívida externa e o acúmulo de reservas não foram nada eficazes. No governo Lula a dívida externa pública líquida foi reduzida para US$74 bi, enquanto as reservas chegaram a US$80 bi. Nada! Os juros, apesar de altos, cairam 6 pontos. Nada! A indicação de mudança legal para permissão a empresas de manutenção de dólares no exterior foi efetivada e... nada!

Os comentários de alguns entendidos no assunto vão de encontro ao que pensa o senso comum. Luiz Schymura [IBRE] contraria a idéia de que o dólar baixo é resultado de muito dinheiro especulativo. Diz que "a queda de juros derrubaria o câmbio se o país tivesse muito capital especulativo. Mas o fluxo é pequeno". Na mesma direção, opondo-se à máxima de que o dólar alto deriva dos juros altos, afirma Nathan Blanche [Tendências]: "a abundante oferta de dólares no mercado é basicamente função do comércio exterior. Ou seja, se os juros continuam a cair, isso não vai afetar a taxa cambial." Para completar, uma fala do Gustavo Loyola [ex-BC]: "A queda do juros derruba também o risco-país o que mantém a atratividade do mercado brasileiro" [ié, mais dólares no mercado...].

12 de nov de 2006

A classe média tem razão de chiar...
Outra matéria no Estadão deste domingo tem título pesado: "Classe média vive crise de renda, de emprego e de perspectivas". Os dados de pesquisa da UNICAMP confirmam: enquanto a classe pobre teve aumento de renda de 7,9% ao ano entre 2001 e 2005, a classe média teve perda de 0,5%. Enquanto quem ganha entre 1 e 2 salários viu aumentar os postos de trabalho com carteira assinada em 86,1%, entre 2002 e 2004, a classe média viu recuar em 10,6%.

Para piorar, vê-se obrigada a gastar 42,6% de sua renda com tributos e 31% com despesas típicas do Estado, como saúde, educação, previdência e segurança. "Em outras palavras, a classe média é cada vez mais taxada, mas recebe cada vez menos serviços de volta do Estado".

Não discuto a prioridade do governo com os pobres e com a redução da desigualdade. Mas a classe média merece um refresco!!! Mesmo porque, voltando à matéria, "(...) a classe média não foi indispensável para ganhar a eleição, mas pode ser indispensável para governar".
Diferenças regionais continuam
Matéria publicada no Estadão de hoje, com esse título, dá lugar a uma leitura difícil. Por um lado, abre uma discussão absolutamente importante sobre a redução da velocidade da queda de disparidades regionais no Brasil. De 1970 a 1986, essa desigualdade diminuiu, em média, 2,9% ao ano. De lá prá cá, 1%. Ruim! Um habitante do DF tem renda 690% maior do que a de quem mora no Piauí. Outro de SP, 500% maior do que a de um cidadão maranhense. Por outro lado, o lado perverso, é o interesse de matérias como esta de exarcebar um regionalismo extemporâneo: querer apontar São Paulo como culpado de todos os pecados nacionais. Isso não é nada bom... Na economia, na política essa tese vai ganhando força...
Educação não garante emprego
Mais um título de matéria publicada n'O GLOBO deste domingo. Esse merece uma profunda reflexão... Ninguém duvida que educação aumenta empregabilidade. Ninguém duvida, sobretudo, que educação é a política social mais transformadora para o cidadão e para o país. Mas os dados são duros e reforçam uma tese importante: o crescimento econômico, as políticas emancipatórias são apropriadas de forma desigual pela população. Os 'mais desiguais' tem menos atributos para disputarem oportunidades. Ou seja, temos que conciliar políticas de crescimento, políticas de capacitação com políticas de redução de desigualdade. O nosso padrão de desigualdade estraga tudo!

Os resultados da pesquisa do economista Carlos Alberto Ramos (UNB) revelam que, para o mesmo grau de instrução, a taxa de desocupação da elite brasileira (10% mais ricos) é 17 vezes menor do que a dos pobres (10% mais pobres). 2,64 contra 46,55%. Mais: ao sair do ensino médio, o desemprego entre os jovens pobres é 4 vezes maior que entre os jovens ricos.

Os especialistas dizem que a razão disso é a diferença de 'currículo social': a qualidade da escola de uns e outros, o ambiente familiar, o bairro onde moram e a renda dos amigos. Esses são os quesitos que as empresas consideram na seleção para contratação. Sinceramente: dá vontade de chorar... Isso é puro preconceito!!!

Será que não há um olhar mais ético? Não é de se admitir que um jovem pobre que conseguiu a mesma escolaridade de um jovem rico pode ser um profissional muito melhor? Afinal de contas ele teve que vencer uma corrida de obstáculos para chegar lá... o outro não! Que mundo!!!
Bolsa Família causa migração de retorno
Esse é o título de matéria de O Globo deste domingo. Estudo do demógrado José Marcos Pinto da Cunha (NEPO/UNICAMP), utilizando a PNAD 2004 e o Censo 2000, conclui que nordestinos que migraram nos anos 70 e 80 para a capital paulista estão retornando às cidades de origem. Pela primeira vez se identifica que mais nordestinos sairam do que entraram em São Paulo. O fenômeno é atribuído ao desestímulo decorrente da 'deteriorização' do mercado de trabalho paulistano, numa ponta; e o estímulo provocado pelos programas sociais do Governo Federal, em particular o Bolsa Família e a aposentadoria rural, que permitem melhores condições de sobrevivência para esses migrantes nas cidades onde nasceram, na outra ponta.

11 de nov de 2006

A FEMM e o futuro de Sete Lagoas
Artigo publicado no Jornal Sete Dias, edição de 03/11/06

Potencializar o nosso desenvolvimento pressupõe identificar os atores sociais com capacidade transformadora. No passado, esses atores eram individualizados e a compreensão do processo linear. A metáfora era com ferrovias: “a cidade no trilho”, “o setor tal como locomotiva do progresso” etc. Hoje, numa sociedade mais complexa, os atores são múltiplos e o processo tridimensional. Prevalece a noção de rede. E ao observar nossa rede social, estou cada dia mais convencido que a Fundação Educacional Monsenhor Messias vem se impondo como um dos seus nós mais articulados e vitalizados.

A FEMM comemora os seus 40 anos no momento em que é credenciada como Centro Universitário. Isto não é pouco! Acompanhei esse processo em Brasília e posso testemunhar que ela alcança esse mérito sem dever nada a ninguém, senão aos próprios esforços. Esse credenciamento coroa uma escolha correta no passado. Quando viveu um de seus momentos mais dramáticos, com a baixa classificação da Faculdade de Direito, ao invés de ‘carteiradas’ e lobbies, preferiu encarar um exigente processo de profissionalização. E venceu!

Além do nível de institucionalidade e profissionalismo, a FEMM e o UNIFEMM, vêm assumindo características muito peculiares. Uma delas a grande ancoragem regional. É impressionante sua penetração em todas as cidades da região e a importância que têm na formação de capital humano para todas elas. Digo isso como aluno que sou e pelos colegas que tive. Somam-se a isso, a sua dimensão histórica, resultado da participação das melhores cabeças de nossa vida social na sua construção; e a sua dimensão comunitária, presente desde suas origens, dedicada ao favorecimento de jovens carentes. Um ou outro desses atributos várias entidades podem ter, todos eles, muito poucas ou nenhuma. Por isso mesmo, diversas faculdades podem acorrer a Sete Lagoas e constituírem-se em centros de produção de conhecimento, porém centros de conhecimento com capacidade de transformação regional só a FEMM e o UNIFEMM.

Ao se capitalizar, a Fundação amplia desafios e ganha responsabilidades. Sua direção sabe disso. Sabe que o futuro da FEMM está condicionado exatamente ao aprofundamento dessa vinculação com o desenvolvimento local e regional que a particulariza. As escolhas da FEMM passam a dizer respeito não apenas ao seu próprio destino, mas ao destino de Sete Lagoas. Os cursos que abrir alterarão não apenas seu próprio perfil, mas definirão novos nichos de serviços e negócios para a cidade. Nessa perspectiva, espero que a FEMM contribua fortemente, por exemplo, para a modernização de nossas administrações municipais, há anos entregues a um tradicionalismo anacrônico e estéril. E mais, que se aproxime de outras entidades e da iniciativa privada, particularmente dos jovens empresários da região, para contribuir na alavancagem do nosso crescimento e na criação de oportunidades para nossa juventude.

9 de nov de 2006

A lógica do pecado
A condenação, a expiação, a capitulação e o esquecimento...

Sou petista e tenho bons amigos não-petistas. Nos últimos dois anos, com os ditos 'escândalos', a maioria deles migrou da posição de não-petistas para a de anti-petistas. Com muito poucos, a conversa política conservou alguma racionalidade. Com a maioria, essa conversa passou a não ter racionalidade alguma...

Mais do que fatos, valem versões. Algumas versões vendidas pela oposição e compradas pela mídia tornaram-se verdades: estávamos diante do “maior escândalo da história”, e do “governo mais corrupto da história”. Não que eu quisesse tampar o sol com a peneira. Queria, apenas, contextualizar os fatos para chegar a um mínimo lógico. Mas contra versões não há argumentos... nem lógica. Por exemplo: ‘maior’ e ‘mais’ com relação a quê? Qual o parâmetro comparativo? Ninguém tinha dados objetivos. O clima de prévia condenação dizia que eu estava errado por querer justificar o injustificável...

Minha opinião era baseada em algumas evidências: primeira, todo governo é eleito com maioria de votos e com minoria parlamentar. Ou seja, tem problemas! Segunda, está obrigado a construir governabilidade. Sabe Deus como! Terceira, não é a primeira vez que se fala em algum esquema de apoio financeiro (compra de votos para reeleição de FHC, pagamento de dívidas de campanha, caixa-2 etc): o preço da tal governabilidade! Quarta, o PT não errou por ter aceitado uma regra clássica e inevitável, mas, sobretudo, por não tê-la mudado quando era possível, se é que era possível... Quinta, conceitos de ‘maior’, ‘mais’, ‘mensalão’ eram da categoria das versões, não dos fatos. Cansei de insistir nessa opinião, em vão... Tempo de pura expiação!

Por falar no tempo, ele às vezes ajuda a explicar. E ele já vem oferecendo alguns dados curiosos... Um: apesar das restrições legais, esta eleição presidencial custou mais do que o dobro da anterior atualizada. Na interpretação do presidente do TSE inibiu-se o caixa-2 e um maior volume dos recursos foi contabilizado. O PSDB foi o partido que mais arrecadou. O PT foi o quarto... Oops: não era só o PT que usava ‘recursos não contabilizados’? Outro: da direita à esquerda, todas as campanhas eleitorais entoaram o mantra da necessidade da ‘reforma política’ como forma de se evitar novos escândalos. Ora, se todos entendem que há necessidade de uma reforma política deduz-se que todos entendem que o problema é sistêmico. Oops: o ‘problema’ não era uma exclusividade petista e de uma ‘quadrilha’ ligada ao partido? Antes, interessava a estigmatização. Agora, os fatos parecem levar à capitulação.

Para encerrar, duas notícias da semana: “Apesar das promessas de campanha, grandes legendas fazem corpo mole e não devem aprovar relatório [da reforma política]” – O Globo, 05/11/06. “Fazer ou Desistir – a reforma política chegou àquele ponto em que deve ser feita ou então arquivada para não servir mais de panacéia (...)” – Tereza Cruvinel, O Globo, 07/11/06. Ou seja: a reforma pode não vir??? Cada dia mais acredito que, desta vez, diante dos escândalos, quem foi manipulado não foram os pobres, mas os formadores de opinião, ou seja, a classe média. Não quis apurar os fatos, assumiu uma incompreensível ingenuidade e deixou-se levar pela versão extraída do acirramento político. Passada a disputa, o mais corrupto, o maior escândalo e a reforma política parecem, aos poucos, perderem a importância... Vem, agora, o esquecimento?

Minha posição: independente da versão, os fatos foram muito graves e destruidores. O mundo político, petista, não-petista e anti-petista, deve ao país uma solução ética para o futuro. Reforma política sim!

31 de out de 2006

Razões prováveis de vitória e derrota
A interpretação formal que fazemos do país nem sempre vai ao encontro da realidade. O país muda e nem sempre somos capazes de atualizar a nossa percepção. Isso pode explicar, em parte, o sucesso eleitoral de Lula e o insucesso de Alckmin.

Não me refiro aos programas de cada partido. Tampouco me refiro aos estigmas que marcaram cada candidatura (popular ou elitista, privatista ou estatista etc). Refiro-me apenas à aderência da mensagem de cada candidato no ambiente social. E a hipótese é que Lula conseguiu construir uma mensagem otimista para um país modificado que ele percebeu e por isso venceu; e Geraldo Alckmin optou por uma mensagem sempre muito crítica e negativa imaginando estar falando para um Brasil que, na verdade, já não existia mais e por isso perdeu.

Há evidências de que os indicadores clássicos que usamos para falar do país não são suficientes. O PIB agrega riquezas individuais mas não é capaz de registrar outras dimensões da produção nacional. O IDH não é também sempre consistente para mensurar ganhos humanos e sociais. Há lugares em que esses índices, contraditoriamente, apontam resultados divergentes. O IPEA mostrou, em estudo recente, que se isolarmos as variáveis que falam da produção de riquezas entre os mais pobres o Brasil teve um aumento de PIB chinês, diferente do agregado nacional. Outras evidências mostram que, nesta eleição, o chamado efeito “pedra no lago” não funcionou. Ou seja, a decisão de voto não acompanhou, do centro para a periferia, a posição do ‘formador de opinião’. Sinal de que, por razões concretas, algum nível de resistência bloqueou e provavelmente inverteu o sentido dessa propagação. ‘Razões concretas’, no caso, significam mudanças reais de vida, ganhos reais capazes de interferir na formação autônoma de opinião. Houve uma mudança na vida da maioria da população que Lula viu e apostou nela e Alckmin relevou.

Alckmin apegou-se aos indicadores clássicos. Quis convencer a maioria da população de que o crescimento do Brasil foi pífio no Governo Lula. Usou estatísticas que provavelmente não faziam sentido na experiência de vida dessa população. Para uma doença que a maioria não enxergava, receitou um remédio que ninguém entendia (“choque de gestão”).

Há uma enorme diferença na capacidade de comunicação de cada candidato, mas esse não é o ponto aqui. Atendo-nos apenas às mensagens, o fato é que, na medida que não via repercussão nas pesquisas, Alckmin reforçou o tom crítico. Foi se tornando com isso cada vez menos capaz de agregar à sua mensagem uma retórica otimista e esperançosa com o futuro.

Sem competidor para falar para esse ‘novo Brasil’, Lula conseguiu o que parecia impossível: agregar um tom épico, uma dose de emoção a uma campanha que todos imaginavam que seria apenas dura e sangrenta nos tempos pós-mensalão e pós-dossiê. Superando escândalos, saindo da defesa própria de quem está na situação e é ‘o homem a ser vencido’, contrariando expectativas, Lula conseguiu embrulhar seu projeto num manto de otimismo e atacar. Na prática, assumiu o papel de oposição, colocando o adversário no desconfortável papel de situação. Inverteu o jogo. Com isso, lançou luzes sobre o seu governo, mobilizou a militância e... conquistou eleitores.

30 de out de 2006

Legitimidade e legitimidade...
Para superação de um ambiente político tão contaminado, era importante que o resultado das eleições fosse muito expressivo. E foi! Com a votação recorde de 58,3 milhões de votos (em 2002 foram 52,8 milhões), apesar da sucessão de obstáculos, Lula alcançou o mesmo patamar, percentualmente, da sua vitória contra Serra (Agora, 60,83%; antes, 61,27%). Mais do que ganhar, ganhar com legitimidade era o alvo. Vitória com absoluta legitimidade foi o resultado!

Para se chegar a isso, o 2° turno foi uma manobra estratégica do eleitorado. Graças a ele, Lula se viu poupado de uma vitória apertada em troca de uma votação consagradora. Viu Alckmin perder fôlego e subtrair 2,4 milhões de votos no que tinha obtido anteriormente. Viu o surgimento de um arranjo de governos estaduais muito favorável. Viu o discurso golpista de 3° turno desmoralizar-se. Viu reduzir enormemente sua diferença para o adversário nos 7 estados onde perdeu. Viu outros 3 estados e o distrito federal lhe devolverem a liderança perdida. Viu desaparecer uma geografia eleitoral que dividia o Brasil ao meio. Sobretudo, viu o surgimento de um espaço inesperado de repactuação social e política... Literalmente, o segundo turno salvou a pátria: atribuiu a necessária legitimidade ao resultado eleitoral, dissipando a neblina de confronto e desconfiança. Nem o mais esperto dos estrategistas políticos previu esse desfecho. Essa manobra Lula fica devendo, exclusivamente, à sabedoria do eleitorado!
Curiosidades: deu no g1.com.br...
NÚMEROS REVELAM CURIOSIDADES SOBRE A VOTAÇÃO
Em município maranhense, Lula teve mais de 97% dos votos válidos. Já Alckmin foi "rei" em Arroio do Padre (RS), onde alcançou 85,07%. Em 5 estados, o tucano não ganhou em nenhuma cidade. (André Luís Nery, do G1, em São Paulo)

Tudo Igual - Em um país com 5.565 municípios, coube à pequena Glicério (na região noroeste de São Paulo) registrar um fato curioso no segundo turno da eleição presidencial: o petista Luiz Inácio Lula da Silva e o tucano Geraldo Alckmin terminaram exatamente iguais na apuração dos votos. Cada um dos dois presidenciáveis recebeu 1.383 votos.
Lula é rei - O pequeno município de Central do Maranhão (MA) registrou a maior diferença percentual de votos entre Lula e Geraldo Alckmin. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula alcançou 97,20% dos votos válidos no município maranhense, com 3.501 votos. Já o adversário do PSDB recebeu apenas 101, ou míseros 2,80%.
Amazonas é o 'Amalula' - Assim como no primeiro turno, o presidente Lula conseguiu seu melhor desempenho no estado do Amazonas, onde teve mais de 86% dos votos válidos. Depois, vieram o Maranhão (mais de 84% para o petista) e Ceará (mais de 82%).
Lula só perde no Sul - Das cinco regiões do país, Lula só não ganhou na Sul, onde ficou mais de 1 milhão de votos atrás do adversário, Geraldo Alckmin. O petista foi o mais votado no Nordeste, Norte, Sudeste e Centro-Oeste.
Aqui, só dá Alckmin - Foi na pequena cidade gaúcha de Arroio do Padre, que conta com apenas 2.111 eleitores, que Geraldo Alckmin conseguiu a maior vantagem sobre Lula. Ele teve 1.624 votos (85,07%) e Lula, 285 (14,93%).
Alckmin: derrota 100% - Em cinco estados, o candidato Geraldo Alckmin não conseguiu vencer a disputa em nenhuma cidade. Nos estados do Amazonas, Amapá, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, Lula foi o mais votado em todos os municípios.
Lula vira quatro vezes - No segundo turno, Lula venceu em 19 estados e no Distrito Federal, enquanto Alckmin ganhou em sete. Em relação ao primeiro turno, o petista conseguiu virada em três estados (Rondônia, Acre e Goiás) e no Distrito Federal. O tucano não virou em nenhum estado.
Hora da vitória - A confirmação da reeleição aconteceu às 19h12, hora de Brasília, quando tinham sido apurados 85,75% das seções. Nesse momento, Lula tinha uma vantagem de 17.626.901 votos sobre Alckmin. O petista liderava a apuração com 50.516.442 (contra 32.889.541 do tucano), e não podia mais ser alcançado.
PMDB domina governos - O maior vitorioso nas eleições estaduais foi o PMDB, que elegeu sete governadores (AM, ES, MS, PR, RJ, SC e TO). O PSDB venceu a disputa em seis estados e o PT, em cinco. O PSB elegeu três governadores e o PDT, dois. PPS, PP e PFL ganharam em um, enquanto um eleito, Blairo Maggi (MT), está sem partido.
Segundo turno - Dos dez estados com segundo turno, em três houve virada em relação ao primeiro. No Maranhão, Jackson Lago (PDT) derrotou Roseana Sarney (PFL); em Pernambucano, Eduardo Campos (PSB) superou Mendonça Filho (PFL); e no Pará, Ana Júlia (PT) venceu Almir Gabriel (PSDB).
Diferença mais apertada - No Paraná, o peemedebista Roberto Requião foi reeleito com apenas 10.479 votos de vantagem para Osmar Dias (PDT). O candidato do PMDB terminou a disputa com 2.668.611 votos (50,10%), contra 2.658.132 (49,90%) de Dias.
Maior vantagem no 2º turno - Primeiro a ter confirmada a vitória no segundo turno, o candidato do PMDB, Sérgio Cabral, foi eleito governador do Rio de Janeiro com 68% dos votos válidos (5.129.064). Sua adversária, Denise Frossard (PPS), teve 2.413.546 (32%).
Espelho do Brasil - O município de Aricanduva (MG)
apresentou a apuração mais próxima do resultado final da eleição presidencial. Na cidade mineira, Lula terminou com 60,82% dos votos, contra 39,18% de Alckmin. Na apuração nacional, o petista conseguiu 60,83% e o tucano, 39,17%.
Abstenções - A cidade paraense de Melgaço
teve o maior percentual de abstenções do segundo turno da eleição presidencial. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 56,55% dos eleitores do município não compareceram para votar no domingo.
Votos nulos - Já o maior percentual de votos nulos aconteceu em Buíque (PE), onde 16,12% dos eleitores anularam o voto. Na seqüência, aparecem São Benedito do Sul (PE), com 16%, e Cavalcante (GO), com 15,95%.
Votos brancos - O maior percentual de brancos foi registrado na cidade gaúcha de Vanini, com 4,17% de votos em branco. Depois, aparecem outros três municípios do Rio Grande do Sul: Santana da Boa Vista (4%), Ilópolis (3,86%) e David Canabarro (3,79%).

28 de out de 2006

Chega de eleição, mas...
Eu não queria postar mais nada sobre eleições, debates etc. Mas não consegui me segurar... Estou lendo um livro curioso de Dick Morris, que foi assessor de Bill Clinton, chamado "Jogos de Poder - ganhar ou perder: as estratégias dos grandes líderes da história". Morris define categorias de políticos e analisa casos bem e mal sucedidos de estratégias eleitorais dentro de cada uma das categorias. Um caso apresentado de insucesso é o de Al Gore, que "abandona suas convicções ambientalistas e... é derrotado". Um trecho, em especial, torna-se hilário pela similitude com nossa eleição. Tudo bem! Eu sei que nem Gore, nem os democratas guardam relação direta com tucanos, nem muito menos Bush e os republicanos têm semelhança com petistas, mas o trecho, cotejado com o nosso caso, substituindo Gore por Alckmin e Bush por Lula fica impagável:
"Ficou evidente para os eleitores que assistiam aos debates Bush-Gore que o candidato democrata simplesmente não sabia quem ele era. Não somente estava fugindo dos seus mais fundamentais princípios, mas dava a impressão de ser incapaz de encontrar sua própria persona.
No primeiro debate, Gore parecia o Mike Tyson da política - espumando, socando, até mesmo mordendo, na fúria de ver Bush entrar no seu terreno da previdência social, assistência à saúde e programa Medicare [vide Alckmin na Band].
Tendo se tornado mais moderado depois da reação popular negativa, ele voltou ao ringue com modos magnânimos, dando crédito ao seu rival e mencionando as divergências em tom amável [vide Alckmin no SBT]. No terceiro debate, Gore parecia tão confuso sobre sua própria identidade quanto os eleitores [de novo Alckmin, agora na Record e Globo]."
Detalhe: o livro de Dick Morris frequentou a mídia com fama de livro de cabeceira dos assessores de Alckmin com a intenção de desconstruir a candidatura Lula. Ou seja, se leram, não entenderam...

26 de out de 2006

Não ao golpismo...
O núcleo duro do anti-lulismo – Bornhausen, Jereissatti, ACM, Freire e Agripino à frente – tem insistido, desde o mensalão, na tese de impedimento do presidente. Mais do que interesse no claro e necessário esclarecimento dos fatos o que motiva esse grupo é o enfrentamento a qualquer preço, coisa que o cientista político Wanderlei Guilherme dos Santos identificou, desde a primeira hora, como “golpe branco”.

Na sexta, 22, um primoroso artigo no Estadão, assinado por Renato Lessa, retoma o tema com grande discernimento. Recuperando 1946 e as forças golpistas contra Getúlio, Juscelino e Jango, dá ao artigo o título de “A volta das vivandeiras de tribunais” (naquela época eram as vivandeiras dos quartéis e todos sabemos no que deu...). Vale a pena ler.

Hoje, dois artigos de colunistas independentes da Folha – mais que independentes, críticos duros do governo Lula – voltam ao tema com propriedade. Clóvis Rossi, sem perder de vista a necessidade de prosseguimento das investigações (o que se não acontecesse seria também uma forma de golpismo), conclui seu comentário dizendo:

“Mas o TSE não pode desconhecer um argumento, que não é juridicamente perfeito, mas é factualmente correto: a vitória de Lula não será devida ao caso dossiê. Portanto, impugnar a candidatura seria desconhecer a vontade do eleitorado, manifestada mesmo depois de dada toda a devida e necessária divulgação ao escândalo. Não é argumento juridicamente válido, porque as urnas só registram o voto, não o motivo dele. Mas é bom senso, sem ‘golpismo’ de um lado ou de outro”

Jânio de Freitas, na mesma edição da Folha, não é menos explícito. O artigo “O vício resiste” tem a seguinte chamada: “Nas circunstâncias atuais, a pretensão de impeachment de Lula disfarça mal a idéia de um golpe branco”.
De qualquer forma, a nossa sociedade parece ter aprendido com os golpes passados. Alguns fatos permitem essa conclusão: um deles, que o PT não teve a perda de votos que esse núcleo golpista apregoou. Na verdade, o feitiço parece ter se voltado contra o feiticeiro: a raça que está sendo exterminada não é a do PT ou a da esquerda, como o Bornhausen imaginou, mas a do seu próprio partido. O PFL teve a maior perda proporcional na bancada da Câmara (quase 20%), não governará nenhum estado, apenas o distrito federal, perdeu seu principal reduto, a Bahia de ACM, e só não terá perdas no Senado porque a longevidade dos mandatos assegura um ciclo de renovação mais longo.
Golpismo não! Nossa democracia ainda é muito jovem. Tem e terá um longo caminho pela frente. E será tanto melhor quanto mais aprender com seus acertos e seus erros!!!

25 de out de 2006

Lugares comuns
Na verdade, não sei nada do cinema argentino. Assisti e gostei muito de dois filmes de Juan José Campanella (“O mesmo amor, a mesma chuva”, de 1999 e “O filho da noiva”, de 2001, ambos com Ricardo Darín). Gostei mais ainda de "Valentin" (2004) de Alejandro Agresti. Assisti, agora, o filme do diretor argentino Adolfo Aristarain, de 2002, que é uma preciosidade: “Lugares Comuns”. Além de profundamente sensível – o que me parece ser uma marca comum a esses 4 filmes – tem um texto de uma densidade e beleza estarrecedoras. O filme deu a Mercedes Sampietro o prêmio de melhor atriz de Goya, Gramado e San Sebastian.

24 de out de 2006

Cortes de gastos públicos: eficiência e justiçaQuero voltar a esse tema, objeto do terceiro comentário abaixo. O debate eleitoral tem focado temas relevantes como esse, mas não aprofunda nenhum deles. O mais comum é se estabelecer uma certa dicotomia diferenciadora: um candidato numa posição, o outro no extremo oposto. Ao se falar em gastos públicos, por exemplo, os princípios da eficiência, da melhoria de qualidade, da melhoria de gestão são postos como atributos tucanos, portanto, impronunciáveis nas hostes petistas. Tudo bobagem!

Aceitar a tese da “melhoria da qualidade dos gastos” não pode ser proibido entre os petistas, nem entendido como uma capitulação a valores tucanos. Há formas e formas de fazê-lo. A perspectiva tucana tem sido a de sobrevalorizar a questão, a de pregar cortes de gastos como um bem em si como se, necessariamente, repercutisse em vantagens sociais. Os exemplos mineiro e paulista mostram os resultados midiáticos dessa ação - os “déficits zero” - mas, no entanto, não explicitam os preços pagos, sempre com eliminação de investimentos sociais, terceirizados para o governo federal. Posição estratégica no curto prazo, sim, mas insustentável no horizonte mais longo.

O governo Lula pode ter errado em não radicalizar essa agenda de qualificação e racionalização de gastos, em alguns momentos, ou de haver operado cortes excessivamente ortodoxos, em outros, mas acertou e acerta em cheio na orientação estratégica principal: a eficiência no corte de gastos públicos não pode ser uma desculpa para a ineficiência dos gastos sociais. A maior herança desse primeiro mandato será a comprovação de que os gastos sociais podem se consolidar, sem paradoxismo, como investimento econômico.

Um artigo e um comentário publicados nesse final de semana ajudam a refletir esse assunto. O artigo está no caderno de fim de semana do Valor Econômico: “A ética da economia com menos desigualdade” e é assinado por Cyro Andrade. Discorre, a princípio, sobre a idéia de que as escolhas políticas, a forma de distribuir recursos refletem o posicionamento ético não apenas do governo, mas de toda a sociedade. Atribui a nossa desigualdade social à naturalidade com que a encaramos e à nossa incapacidade de vê-la como fruto de nossas escolhas históricas. Antes de seguir adiante, passa pelo que interessa aqui, ao citar o bengalês Amartya Sen, com a discussão sobre a funcionalidade econômica [a “economia positiva”, o mundo como ele é e funciona] e a ética econômica [a “economia normativa”, o mundo como deve ser]. Transcrevo um trecho: “(...) diz Sen, é preciso cultivar a convergência entre economia positiva e economia normativa, de modo que disso decorra, explica Gonçalves da Silva (em Ética e Economia – Impactos na Política, no Direito e nas Organizações), uma reavaliação do pressuposto de racionalidade em economia; uma conseqüente reavaliação sobre a relação ente auto-interesse, egoísmo e altruísmo; e, por fim, uma reconsideração de como os resultados derivados da teoria econômica positiva podem definir o cenário sobre o qual as proposições normativas e éticas podem ser feitas”. Sem distorcer o conteúdo do artigo que é muito mais amplo, o que me chama a atenção é uma das apreciações que ele permite de que nossas escolhas econômicas – aí nossa discussão sobre gastos públicos – devem se pautar não apenas pelo princípio da eficiência, mas em igual medida, pelo de justiça. Sentido ético este que não consta da cartilha liberal tucana...

O comentário está no blog do Luís Nassif (www.luisnassif.com.br) com o título “A volta do pêndulo”. Ele fala do movimento da opinião pública e do desenvolvimento brasileiro como pendular. Idas e vindas: marcha-se numa direção até ultrapassar o limite e volta-se na direção oposta. Ao falar do nosso liberalismo tropical (ou neo-liberalismo) afirma que “foi um período caracterizado por ampla complacência com os juros altos, e amplo rigor com qualquer forma de gasto social. A Previdência Social foi demonizada, assim como as vinculações orçamentárias, os gastos obrigatórios em educação e saúde". Adiante diz: "Há limite para tudo. Mídia e mercado consagraram alguns soldados para cumprir a missão de matar feridos em campo de batalha. São os que montam suas planilhas e acenam com o fim do mundo, se não cortarem os benefícios sociais (...)". Mais: "Esse jogo acabou. Hoje em dia, a equipe de cada presidenciável sabe que o déficit da Previdência se resolve com crescimento, que a redução de impostos só será possível com crescimento; e crescimento só se alcançará com juros reduzidos". Até concluir: "O país aprendeu a respeitar a responsabilidade fiscal. Agora, está reaprendendo os princípios de responsabilidade social".
Debate da Record
Pode ser que quem tenha assistido a esse debate e não viu os outros, consiga identificar elementos para opinar sobre quem ganhou, quem perdeu. Eu confesso que perdi a capacidade crítica... O posicionamento de cada um, as perguntas, as respostas, as citações, os exemplos, de um e de outro candidato, tudo se tornou absolutamente previsível! As primeiras repercussões usam as qualificações de enfadonho, de mesmice, de repetitivo.

Lula esteve mais tranqüilo e menos irônico. Alckmin voltou a subir o tom, mas não tanto quanto no 1º debate. Aliás, a única surpresa possível tem sido esta: em que tom o Alckmin virá? Já quanto ao seu figurino, nada de novo: mais uma vez, tirou a gravata amarela e copiou o tradicional modelo petista...

23 de out de 2006

Estamira ...

Muito impressionante o documentário “Estamira” de Marcos Prado (Brasil, 2006). Estamira é uma mulher com distúrbios mentais que vive no aterro sanitário de Jardim Gramacho, onde é depositado o lixo da cidade do Rio de Janeiro. O filme é o seu discurso: messiânico, apocalíptico, irado, herético, filosófico, poético, absolutamente inusitado... Estamira é imperdível!!!

22 de out de 2006

Cortes de gastos públicos: tentando entender...
A agenda que mais interessa à sociedade brasileira é a do crescimento. A exigência de que seja um crescimento com inclusão social é a mais importante contribuição do atual governo. De toda forma, sem crescimento não há inclusão... E o nosso padrão de crescimento, há décadas abaixo de 3%, é insuficiente para o país. A fórmula para se chegar ao crescimento desejado parece razoavelmente lógica: os gastos públicos devem impulsionar o crescimento, não reprimí-lo. Menos 'gastos', mais 'investimentos'... A questão de fundo é que precisamos criar um ambiente competitivo para as empresas brasileiras. O 'x' do problema parece estar na redução do custo que as onera: juros mais baratos, menor carga tributária e melhor infra-estrutura, além de maior segurança juridico-institucional. E para reduzir juros sem comprometer o controle da inflação e reduzir a carga tributária e realizar investimentos sem comprometer o ajuste fiscal os holofotes apontam para a redução dos gastos públicos. Esse parece ser o ponto!
Mais do que um ponto, uma encruzilhada! Para entender melhor o assunto, vale conhecer alguns dados ilustrativos publicados na Folha de hoje, domingo 22/10, atribuídos, em sua maioria, ao especialista em contas públicas Raul Velloso: - "... 89% das despesa federais estão protegidas por leis e pela Constituição. Pior: são gastos que crescem rápido, diminuindo ano a ano o espaço para economizar"; - Desse valor "blindado", 75% diz respeito a pessoal ativo, previdência, inativos e pensionistas e benefícios assistenciais e subsidiados, 14% a saúde e transferências federativas; - "A margem para economizar qualquer valor representativo dentros dos 11% passíveis de corte é pequena"; - Nesses 11% inserem-se o custeio da máquina e os investimentos; - Em 20 anos, as despesas obrigatórias ("blindadas") duplicaram em termos percentuais: foram de 46 para os 89% atuais, enquanto as discricionárias (os atuais 11%) foram reduzidas, só nos investimentos, de 15,4% do total para 3,1% e de 38 para 8,3% nas despesas de manutenção.
Nos últimos anos, ainda segundo a Folha, "toda a elevação do gasto no governo federal foi financiada pelo aumento da carga tributária". FHC elevou essa carga de 25 para 35%. Como as despesas continuam crescendo, sobretudo as obrigatórias, e a carga tributária bateu no teto, a questão de corte de gastos correntes toma a dimensão crítica de hoje.
Alckmin fala em cortes estratosféricos apenas com o tal "desaparelhamento" do estado, a redução de ministérios, a eliminação de desperdícios e coisas similares. Ainda que isso tivesse a dimensão que ele acusa, equivale, nas palavras do jornalista Elio Gaspari, a "cortar os cabelos para quem precisa emagrecer". Lula 'dispensa' o corte de gastos confiando que o crescimento o tornará desnecessário. O raciocínio aí é o de cortes graduais: se as despesas, mesmo que cresçam, crescerem a taxas sempre menores do que a do PIB, os indicadores fiscais resultarão sempre mais favoráveis e adequados no longo prazo... Muita gente aponta, entretanto, riscos nessa tese: ela seria mais dependente da manutenção do bom cenário internacional e, sem cortes de gastos mais rápidos, da queda mais acelerada dos juros (o que, intrincadamente, pode exigir, por si só, certo volume de corte de gastos para evitar efeito inflacionário).
Depois de ler e reler, minha opinião caminha na seguinte direção: no curto prazo, não tem discussão, temos que apostar com mais firmeza na questão da "melhoria da qualidade dos gastos públicos" que ambos os lados da disputa presidencial, de um jeito ou outro, propõem. Isso é absolutamente discrionário e pode ser radicalizado! Pode e deve! Estamos falando aí em priorização e seletividade, tecnologia e gerencia, controle e eficiência de gastos. É uma agenda que, associada a implementação de uma "cultura" de redução rigorosa de gastos de custeio (ainda que gastos de valor pouco substantivo para o tamanho do problema, mas passíveis de serem previamente planejados), já podia estar mais avançada... Já os cortes estruturais creio que, inevitavelmente, só poderão ser desenhados como tendências de longo prazo. Mas nada impede que tenham, desde já, metas claramente estabelecidas e pressupostos bastante bem identificados. Grande parte desses cortes depende de reformas estruturais, ou seja, depende de acordo político o que não tem sido uma virtude do atual ambiente político. Acordo para conclusão da reforma tributária, para a previdenciária e para a reforma trabalhista, por exemplo. E, por que não dizer, acordo para revisão dos valores "blindados", avaliando-se sua atualidade ou seu anacronismo.
O fim da política
1. Tereza Cruvinel, hoje, domingo 22/10: "... Levantamento realizado pelo deputado Alexandre Cardoso, líder do PSB, conclui que apenas 38% dos deputados foram eleitos pelo voto partidário ou de opinião; 62% são clientelistas e personalistas. Donos de seus próprios mandatos, dificultarão a construção de uma aliança institucional e partidária, forçando a abertura do velho balcão de negociações com o Executivo". Comentário: hoje, apenas uma estatística. Daqui a um ano nos surpreendemos com o efeito que isso gera e ficamos indignados...
2. Folha, hoje, domingo 22/10: "Um terço da nova Câmara é de milionários. Levantamento da Folha mostra que 165 dos deputados eleitos neste mês declararam patrimônio superior a R$1 milhão. Cientista político diz que número de ricos pode ser maior porque nem todos listam bens patrimoniais de forma completa". Comentário: Nada contra milionários. É natural e importante que estejam presentes no parlamento. Mas nesse percentual estão sobre-representados. Apesar das novas regras, o poder econômico continua prevalecendo nas eleições...

20 de out de 2006

Sem projeto...
Alckmin assumiu, ontem, ter errado ao embarcar no debate da privatização. As pesquisas mostram que, de fato, ele errou aí. Mas isso me parece apenas a ponta do iceberg. O erro, na verdade, é muito maior: ele errou e erra na defesa frágil que tem feito do projeto tucano que representa.
Lula diz, com razão, que o que está na disputa são dois projetos diferentes. Alckmin confirma quando diz que ele e o adversário não são iguais. Lula defende o seu projeto defendendo o seu governo. Os números conspiram a seu favor. Pela ordem natural das coisas, os números de Alckmin serão sempre descartáveis perto dos números gigantescos do adversário. Alckmin insiste numa seara que não é a sua. Mais do que a defesa de seu governo em São Paulo, o seu eixo deveria ser a defesa do seu projeto, em sentido amplo, que contém um modelo fundamentado, que afirma uma visão de estado, que explicita uma concepção de desenvolvimento etc. Gostemos ou não. Confrontemos com ele ou não.
Ao render-se às orientações de marketing, ao invés de apoiar-se nesse projeto, ele parece envergonhar-se dele; para esconder FHC, põe de lado teses importantes, como a visão, por exemplo, sobre privatização. Se a defendesse com grandeza, poderia perder a eleição, mas não perderia o discurso. Ao escamoteá-la, não acumula nada ao próprio projeto e, pelo visto, perde até amigos como Mendonça de Barros que, ontem, irritou-se com a "falta de coragem" do candidato...
Um pelo outro ...
Filme francês por filme francês, assista Caché com Juliette Binoche e Daniel Auteuil (Caché - FRA, 2005). Tempos modernos: o terror à porta, a fatura das mágoas nascidas do colonialismo francês na Argélia entregue debaixo da sua porta...
PS. Aviso aos arquitetos: reparem na casa do casal.
Não perca tempo
Não assista "O tempo que resta" (Le temps qui reste - FRA, 2005) do diretor François Ozon. A única coisa boa é o comentário na mídia, a leitura de que seria parte de uma trilogia sobre a morte. Nada mais...

19 de out de 2006

E agora Geraldo?
1. O histórico: a não-vitória de Lula no 1º turno, ou seja, a necessidade de um 2º turno, foi, em si, uma vitória de Alckmin. 0 a 1. Na primeira semana, Lula avança nos acordos estaduais e empata. 1 a 1. No debate da Band, Alckmin avança o time todo. Ou faz gol ou faz gol. As pesquisas, 3 dias depois, apontam: não fez! Lula 2 a 1. Na segunda semana, na guerra de estigmatização, Lula põe Alckmin na defensiva. Inacreditável: como desafiante, ao invés de pautar é pautado. Passa a semana dizendo que o corte de gastos não vai prejudicar o Bolsa Família e que não é privatista. Perde o eixo: 3 a 1.
2. Estratégia para o debate do SBT: tentei pensar uma saída para Alckmin. Não consegui... Insistir no ataque? Suicídio! Recuar? Suicídio! Não vislumbrei uma estratégia e, pelo visto, nem ele... Perdendo por 22 pontos (Vox Populi, hoje: 61 a 39% de votos válidos), Alckmin resolve jogar pelo empate??? É tarde!!!
3. Resultado do debate do SBT: comparado ao anterior, esse foi até um jogo elegante. Lula mais à vontade. Alckmin de volta ao seu estilo mais sereno. Um ou outro ataque. Pouca agressividade. Muito toque de bola no meio campo. Alckmin não erra aqui, mas paga o preço da estratégia errada no debate anterior. Lá, tinha que avançar para ameaçar: avançou demais e não deixou uma linha de recuo. Quando descobre que pôs o campeonato a perder, vê que não tem mais bala. Perde a iniciativa. Para não tomar mais gol, tenta rearmar a defesa. Recua. Parece jogar pelo empate... Muito tarde!
4. Resumo: Alckmin não faz a menor idéia do que fazer para ir além do meio campo. Enquanto o juiz não apita, reza por mais um erro do adversário, que é mestre em fazer gol contra. Ele próprio já não tem mais fôlego. Quem não faz, leva!!!