13 de jun de 2016

O país dos elegantes

Eu confesso que não sei a verdade: não sei se Lula é ou não dono de um triplex no Guarujá como não sei se FHC é ou não dono de um apartamento na Avenue Foch, em Paris.
Sei apenas que a presunção de ser dono de um triplex no Guarujá é inequivocamente associada à corrupção e a presunção de ser dono de um apartamento em Paris não tem nada a ver, obviamente, com corrupção.
Especialmente se o apê do Guarujá for um tanto novo-rico e o apê de Paris, um tanto elegante.
A questão é estética.
Lula carregando uma caixa de isopor e sendo dono de um barco de lata é uma cômica farofa. Se FHC carregasse uma caixa de isopor e fosse dono de um barco de lata seria uma concessão à humildade.
A questão é classista.
Um Odebrecht sentado à mesa com FHC é um empresário rico. O mesmo Odebrecht sentado à mesa com Lula é um pagador de propina.
Nada disso tem a ver com corrupção. Nada disso revela qualquer preocupação com o país.
A cada dia que passa, é mais evidente que o que está em discussão é quem são os verdadeiros donos do poder.
E os donos legítimos do poder são os elegantes. Aqueles com relação aos quais não interessa saber como amealharam riqueza porque, simplesmente, a riqueza lhes cai bem.
A casa grande tem um perfume que inebria toda a lavoura arcaica e sensibiliza até a senzala. É o que estamos assistindo.
Tudo o mais, tudo o que não é casa grande é Lula e os amigos de Lula!
A questão é preconceito.
Vejam como um fraque cai naturalmente bem em FHC. Um fraque assim em Lula, certamente, deveria ter sido roubado.
O Brasil é o país dos elegantes. De uma elegância classista, racista e preconceituosa deitada eternamente no berço esplêndido do aristocrático século XIX.
[FHC, por favor, levante a gravata do seu lado direito, está um pouco torta, isso, perfeito!]


[Texto publicado originalmente no perfil do Facebook em 31/01/2016]

'Cidade Aberta'

Vã ilusão!

Já é por si lamentável que circunstâncias administrativas e pessoais tenham levado o governo municipal a fazer duas trocas de secretários da Saúde, em pouquíssimo tempo. Em áreas de gestão muito complexa, como é o caso, continuidade administrativa é desejável. O pior, no entanto, é que a posse do atual secretário tenha chegado aos jornais não com anúncios sobre novas prioridades da Saúde, mas apenas com a manchete de que sua missão é reduzir os gastos do setor. Aí é inadmissível!

3 de jun de 2016

'Cidade Aberta'

Um beco sem saída

É comum os jornais estamparem manchetes sobre novas empresas vindo para Sete Lagoas e, ao lado, sobre o aumento da violência na cidade. A primeira é lida pela maioria das pessoas de forma alvissareira e a segunda, com temor. No entanto, já passou da hora de lê-las como faces de uma mesma moeda: o nosso modelo econômico contém, ele próprio, o DNA da violência.

'Cidade Aberta'

O nome disso não é modernidade

Cobradores de lotação, faz tempo, estão com os dias contados. Eles integram aquelas profissões que vão perdendo a razão de ser pela extinção de suas funções; no caso, pela substituição do trabalho humano pela bilhetagem eletrônica. Uma coisa, entretanto, é que esse processo ocorra por força da realidade; outra, de maneira precipitada e temerosa.

22 de mai de 2016

'Cidade Aberta'

Apartheid

Na imprensa internacional, o ministério do governo interino, composto exclusivamente por homens brancos, causou espanto. Na imprensa nacional, sempre muito tendenciosa, alguns jornalistas ainda tentaram justificar o injustificável com o papo de que não se escolhe ministros por sexo ou cor, mas por mérito. Se isso é verdade, é uma verdade que não se aplica ao governo Temer. 

15 de mai de 2016

'Cidade Aberta'

Um negócio da China

Em geral, a política parece ter o seu melhor desempenho quando se descola da realidade. A dura vida real raramente lhe oferece o glamour e o sucesso rápido de que ela precisa. Só num mundo paralelo, com temas emprestados ou artificiais, livre de percalços, ela encontra palanques mais favoráveis.

'Cidade Aberta'

O desterro das utopias de esquerda

Na Câmara, o golpe foi um show de horrores. No Senado, segue como um vergonhoso teatro do absurdo. Crime, comprovadamente, não se aponta; mas há uma maioria já acertada, disposta a conspirar. Em menos de uma semana, vai se abrir um período difícil para o país: uma presidente legítima será afastada, um presidente ilegítimo estará em exercício e a crise política ganhará fôlego novo. É nesse contexto que se darão as eleições municipais de outubro.

30 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

5 anos

Em 2011, o dia 29 de abril caiu numa sexta-feira. Naquela manhã, o SETE DIAS circulou pela primeira vez com esta coluna Cidade Aberta. Hoje, 29 de abril também cai numa sexta. A coluna continua aqui, nesse canto da página 2. E lá se foram 5 anos!

22 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Parlamentarismo de clientela

É inútil discutir a decisão da Câmara pelo impeachment da presidente. Ela passou longe de qualquer apreciação séria sobre razões jurídicas e políticas capazes de justificá-lo ou não. Os deputados que votaram sim, em especial, não pelos votos dados, mas pelos seus motivos bizarros, ofereceram um show deprimente ao país. Com desempenhos histéricos, teatrais, não pareciam estar decidindo algo gravíssimo, mas se exibindo numa festa de várzea. Dedicaram seus votos a Deus e ao diabo, mas não cumpriram seu dever institucional, naquele momento crítico. Independentemente da opinião de cada um, não concebo a ideia de que cidadãos ajuizados não tenham se sentido envergonhados com aquele circo. Se bem que os fogos comemorativos, na cidade, ao final do espetáculo, deram a entender que muita gente gostou do que viu.

'Cidade Aberta'

Politicagem

O presidencialismo de coalizão – modelo que obriga o presidente eleito a formar maioria parlamentar para garantir estabilidade – entrou em colapso em 2013 e tornou-se um dos principais objetos de repúdio dos brasileiros. Tanto mais repúdio quanto mais essa prática tem que lidar com partidos políticos cada vez mais vulgares, explicitando um toma-lá-dá-cá sempre mais vergonhoso. O curioso, no entanto, é como a população recrimina essa prática no plano federal, ignora no estadual e admite, com naturalidade, na sua vizinhança municipal.

12 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Soluções mágicas não existem

Tenho visto muita gente opinar favoravelmente ou não ao impeachment. É curioso que o impeachment tenha se tornado uma matéria opinativa. A rigor não deveria ser: ou se tem base jurídica e se aplica ou não se tem e não se aplica. Independentemente de opiniões individuais.

3 de abr de 2016

'Cidade Aberta'

Apocalipse político

Nesses tempos de guerra, tenho amigos que pensam como eu, outros que não. Com muitos desses a troca de ideias tornou-se impossível, não pelas ideias, mas pela intolerância. Mas com aqueles que a amizade e o respeito falam mais alto não apenas o diálogo tem sido fácil, como a busca por decifrar esse momento, sob ângulos opostos, de parte a parte, tem sido um alento.

24 de mar de 2016

'Cidade Aberta'

Justiça ou armação?

Caro leitor, permita-me fazer uma simulação. Pense num caso litigioso. Digamos que de um lado esteja um empresário, um empresário do gusa, como há por aqui; de outro, um ambientalista, como também há por aqui. O primeiro está sendo acusado de crime ambiental e corre o risco de ver sua empresa quebrar. O segundo está sendo acusado de calúnia e corre o risco de ver sua conta bancária quebrar.

'Cidade Aberta'

Preconceito

O perfil dos manifestantes, no domingo, em SP, “se manteve muito elitizado” com “renda e escolaridade muito superiores à média da população”: 77% eram brancos, 77% tinham curso superior e 63% recebiam mais de 5 salários. Ou seja, a ampla maioria dos presentes tinha esse caráter “elitizado”, não na minha opinião, mas segundo o Datafolha.

Não vai aí nenhuma crítica: todo brasileiro tem direito a livre manifestação e deve exercê-lo ao máximo. Sem generalizar, a minha crítica é outra.

'Cidade Aberta'

Terapia

Anos atrás, na OFICIO PROJETOS, desenvolvemos a arquitetura de uma garagem de ônibus em uma capital do Nordeste. Tinha um porte razoável: comportava mais veículos do que os que rodam em Sete Lagoas, hoje, somados os dos permissionários e da concessionária. Além dos desafios inerentes a esse tipo de projeto, havia dois adicionais impostos pela prefeitura local. Um, como se aplicava uma multa altíssima caso um ônibus ‘quebrasse’ em via pública, era que a garagem devia estar preparada para uma manutenção rigorosa. Outro, como condição de aprovação, que ela não podia gerar nenhum impacto no trânsito da região.

'Cidade Aberta'

Alpendres metafóricos

Faz muito tempo que as pessoas, ao construírem suas casas, passaram a desprezar o espaço do alpendre, interligando a rua, cá fora, e a sala, lá dentro. Antigamente, eram indispensáveis: cadeiras nos alpendres e calçadas constituíam-se em ambientes aprazíveis de convívio com transeuntes, com a vizinhança e com a família. Hoje, os alpendres acabaram; as casas se fecharam para a rua e ensimesmaram-se.

'Cidade Aberta'

'Déficit de gestão'

Na semana passada, o inglês The Guardian publicou um ótimo artigo da jornalista Eliane Brum: ‘O mosquito do vírus Zika desmascara a desigualdade e a indiferença no Brasil’. Ela comenta que o governo federal está chamando os cidadãos a limparem suas casas, quando, na verdade, o mosquito tem proliferado pela negligência do estado. A certa altura, diz ela: “o Aedes desmascara um país caracterizado por enormes desigualdades, um sistema público de saúde frágil e uma vergonhosa falta de saneamento básico”. Nas devidas proporções, creio que isso se aplica a outras esferas de governo, inclusive à municipal.

'Cidade Aberta'

Coincidência

A licitação para o transporte coletivo de Sete Lagoas, uma novela de anos, terminou de uma forma que não surpreende ninguém: a TURI, a empresa que detém a concessão do serviço há 25 anos, venceu o certame e continua na cidade por outros 15. Essa história de empresa que já presta serviço vencer nova licitação tornou-se habitual. Há pouco tempo, outra concorrência, aqui, então para limpeza urbana, teve o mesmo desfecho: foi vencida pela VINA, que também já prestava o serviço. Tanta coincidência tornar-se coisa habitual não quer dizer, no entanto, que é coisa normal.

14 de fev de 2016

'Cidade Aberta'

Os outros

A experiência cotidiana de vida urbana tem sido marcada pelo temor sem limites a tudo o que se desconhece. Tudo o que não está circunscrito ao que cada um chama de seu, tudo o que diz respeito aos outros ameaça. Os outros lugares: os lugares desconhecidos, fora da rotina de cada um, conspiram. Os lugares segregados, abandonados, periféricos, esquecidos apavoram. Os outros, homens e mulheres: os outros na rua, na janela do carro, no sinal acionam enormes sirenes de alerta. Os outros segregados, abandonados, periféricos, esquecidos afrontam a delicada segurança dos que não são os outros.

'Cidade Aberta'

Sinais trocados

Em tempos de redes sociais, as pessoas andam tão compulsivamente opinativas, mas, paradoxalmente, tão desinteressadas em qualificar opiniões que se torna impossível chegar a entendimentos pacíficos sobre qualquer tema. Um deles, polêmico como nunca, é o da meritocracia.

'Cidade Aberta'

Incapazes


Ultimamente, muitas pessoas têm tomado aversão à política. O principal pretexto tem sido a corrupção atribuída ao PT. Creio que corrupção é sim um motivo suficiente para aversão. Mas discordo desse pretexto, da forma apressada como é posto, por duas razões. Uma, porque ele partidariza um fato que sempre fez parte do Estado brasileiro, ainda que oculto. Outra, porque não entende a corrupção como sintoma de um problema maior: o do colapso de nossas lideranças.

'Cidade Aberta'

Essa nossa coleção de crateras

Em todo lugar, chuvas constantes são desastrosas para a pavimentação asfáltica das ruas. Numa cidade como Sete Lagoas, com severos problemas de drenagem urbana, seja pela topografia muito plana, seja em função do pouco prestígio que esse tema sempre gozou, nas várias administrações, a situação se agrava. De qualquer forma, as águas torrenciais dos últimos dias explicam, mas apenas em parte, o estado deplorável de nossas ruas, não aqui e ali, mas em toda a cidade.

'Cidade Aberta'

Usurpação

Se você trabalhasse transportando carga pesada num caminhão velho, fumando, com motor quase fundindo, de duas uma: você se esforçaria para retificar o motor e recuperar a capacidade de trabalho ou faria uma lanternagem geral para o caminhão parecer novo, ainda que continuasse se arrastando? A resposta parece óbvia, mas, na política, não é.

'Cidade Aberta'

Muitxs

Há tempos, eu venho acompanhando, ainda que à distância, as discussões do Muitxs, um coletivo de BH que reúne pessoas, grupos e movimentos sociais, sempre em espaços públicos e abertos, em torno de soluções novas para ‘a cidade que queremos’. Nesta semana, um conjunto de 10 propostas formulado pelo coletivo foi parar nas páginas do jornal O Tempo. Ainda que digam respeito à nossa capital, essas propostas, no espírito de cidade que elas traduzem, são muito inspiradoras para nós, sete-lagoanos.

'Cidade Aberta'

Uma utopia, por favor!

Colocando as paixões ideológicas de lado, tanto quanto possível, o que nos resta é um ano de 2015 de uma pobreza terrível. Desde meados de 2014, quando iniciou-se o processo eleitoral, até hoje, são impressionantes as cenas que a sociedade brasileira viveu. Do ódio de parte a parte, a um racismo absurdo de alguns e a um anacronismo militarista de outros, da falta de civilidade de muitos, a uma ruptura com a história de vários e a um desdém de outros tantos com nossa própria experiência democrática, chegamos ao pior dos mundos: atiradas todas as pedras, não temos nada nas mãos. Não temos um projeto para o país, senão apenas ideias velhas que vão e voltam, de olhos no passado, que indicam que os modelos que tínhamos se esgotaram. Não temos lideranças, senão apenas personalidades narcisistas que dizem muito pouco a muito pouca gente. Nem as ideias se inovaram, nem os homens se renovaram.

'Cidade Aberta'

Não termina nunca!

Há dois, três anos, quem imaginaria que estaríamos vivendo essa bagunça que o país virou? O ano de 2014 nos armou e nos pôs todos contra todos. Quem pensou que as eleições aplacariam os ânimos errou. 2014 não acabou e, em estado de ódio, invadiu 2015. Seguimos nós nessa guerra fria, o palco perfeito para todo tipo de dissenso e oportunismo. E o que é pior: uma pane de lideranças promete empurrar esse clima para 2016. A crise econômica virou fichinha perto da crise política. Enquanto as famílias brasileiras sofrem com uma insegurança crescente, a política se diverte.

'Cidade Aberta'

Indignação e perplexidade!

Toda convicção ideológica e toda prática política, de direita à esquerda, são legítimas desde que respeitadas as regras do Estado Democrático de Direito. Para além desse limite, qualquer ação é golpista e precisa ser rechaçada sem subterfúgios.

4 de dez de 2015

'Cidade Aberta'

Nero Tupiniquim

O dia 02 de dezembro entra para a história como o Dia Nacional da Chantagem. Ao deflagrar o processo de impeachment contra a presidente Dilma, usando o cargo, ilegalmente, para vingança pessoal, em razão do partido da presidente ter se posicionado contra ele, horas antes, no Conselho de Ética, Eduardo Cunha ofereceu aos antidemocratas do país o seu mais grotesco espetáculo: enfim, pôs fogo em ‘Roma’.

'Cidade Aberta'

Com brilho nos olhos

Sete Lagoas comemora, nesta semana, seus 148 anos. A data, inevitavelmente, fica um tanto sombreada pela proximidade com os seus 150 anos, logo à frente, tão mais simbólicos. Seja como for, cada um comemora a seu modo, entre a exaltação e a crítica.

20 de nov de 2015

'Cidade Aberta'

Terrível, não?!

O site do SETE DIAS repercutiu, nesta semana, matéria do jornal Hoje em Dia sobre o aumento de crimes violentos em MG, de janeiro a setembro de 2015 face ao mesmo período de 2014. A notícia não é boa: entre as maiores cidades mineiras, as com população acima de 200 mil habitantes, Sete Lagoas figura num preocupante 4º lugar, depois apenas de Ribeirão das Neves, Santa Luzia e Montes Claros.

14 de nov de 2015

'Cidade Aberta'

Papelaria

Em 2011, quando a região serrana do Rio de Janeiro derreteu-se, a causa apontada não foi apenas a temporada de chuvas intensas, mas a sua associação com a ocupação desordenada das áreas rurais com uso urbano. À época, os urbanistas consultados foram obrigados a reconhecer que os planos diretores das cidades afetadas haviam fracassado no seu objetivo de promover o ordenamento territorial. Eram apenas papéis inócuos na defesa do interesse público frente ao pragmatismo dos interesses privados.

'Cidade Aberta'

Obscurantismo

As câmaras de Sete Lagoas e Campinas viraram motivo de chacota, nas redes sociais, por terem aprovado monções dirigidas ao MEC, repudiando a inserção de uma questão no ENEM sobre igualdade de gênero. Se a questão, baseada na conhecida frase de Simone de Beauvoir de que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, publicada no longínquo pós-guerra, pretendesse suscitar uma reação opinativa do estudante sobre o tema, ainda assim seria pertinente por sua atualidade. Não obstante, ela sequer teve essa intenção, focando, na verdade, na sua dimensão histórica, sobre com qual movimento essa frase havia contribuído na década de 1960. Testar o conhecimento do aluno de ensino médio sobre os movimentos de protesto, no mundo todo, em especial na França, naqueles anos, é algo absolutamente adequado, embora os vereadores não pensem assim.

'Cidade Aberta'

Um sonho intenso

No último sábado, assisti a um documentário fantástico no canal Curta!, debatendo o processo de industrialização e o modelo de desenvolvimento brasileiros, de Vargas a Lula, a cada período político. Dentre outros,  contava com a participação de economistas como Adalberto Cardoso, Belluzzo, Maria da Conceição Tavares, José Murilo de Carvalho, Carlos Lessa, João Manuel Cardoso de Melo e Francisco de Oliveira. A um só tempo, mostrava, de maneira equilibradíssima e compreensível, tanto o lado contraditório quanto o evolutivo da história nacional, nesse quase um século. O nome era, em si, muito sugestivo: ‘Um sonho intenso’.

29 de out de 2015

'Cidade Aberta'

Trapalhadas

Penso que estamos adquirindo o péssimo hábito de tratar precariamente temas públicos importantes. Levantamos a lebre, mas nunca conseguimos construir soluções seguras por uma indisfarçável incapacidade de negociação.

20 de out de 2015

'Cidade Aberta'

Remando contra a maré

Toda vez que se fala em revitalização da área central de Sete Lagoas, especialmente das ruas Monsenhor Messias e Emílio de Vasconcelos, depara-se com, pelo menos, dois problemas aparentemente intransponíveis: a falta de um lugar na Prefeitura que, efetivamente, planeje e coordene projetos de política urbana e a presumida resistência ou falta de consenso dos comerciantes da região. Nesse caso, talvez valha a pena tomarmos conhecimento do que disse a secretária municipal de Transporte de NY, Janette Sadi-Khan, no Seminário ‘A bicicleta em SP: políticas públicas para transformar a cidade’, no final de setembro.

9 de out de 2015

'Cidade Aberta'

Esse calor infernal

Esse calor infernal de primavera tem evidenciado o quanto Sete Lagoas, se já era uma cidade quente, tornou-se mais quente ainda. Em dias de baixa umidade do ar, então, a sensação térmica anda insuportável. Isso atesta que a forma como temos pensado a cidade, especialmente os espaços públicos, ignora solenemente a região em que estamos.

8 de out de 2015

'Cidade Aberta'

Gatos escaldados

Frequentemente, acho que temos um comportamento político meio doentio. Elegemos um assunto como prioridade, mobilizamo-nos em torno dele, fazemos um oba-oba danado e, aí, damo-nos por satisfeitos. A prioridade, propriamente, fica do mesmo tamanho, sem solução alguma.

'Cidade Aberta'

Revoada

O término do prazo de filiação para as eleições de 2016 está obrigando os políticos a uma apressada acomodação e abrindo uma animada temporada de especulações. Quem vai, afinal, desafiar o prefeito para tomar-lhe a cadeira do terceiro andar da Barão do Rio Branco?

18 de set de 2015

'Cidade Aberta'

Tanto faz

Uma coisa é, em torno de um projeto de cidade ou um plano de governo identificado com uma liderança política, a convergência de apoios de outras lideranças, ainda que com perfis ideológicos distintos. Outra, muito diferente, é um acordo feito em torno de projeto nenhum como mera estratégia de disputa eleitoral. Se a sociedade brasileira não tem visto com bons olhos uma coisa, imagine a outra!

[Foto publicada na coluna Sem Reserva, no SETE DIAS, em 18/09/2015]

14 de set de 2015

'Cidade Aberta'

Insegurança

A função social da propriedade é o fundamento constitucional que permite às legislações urbanísticas, nas várias cidades, definir o que pode e o que não pode ser feito nos terrenos urbanos. Isso tem efeitos práticos. Por exemplo, por ser proprietário, você não pode fazer o que bem quiser em seu lote, mas apenas o que a lei permitir. Outro: o direito de construir não é igual para todos, mas varia, sobretudo, segundo a inserção de cada terreno no contexto urbano. Mais: se a lei mudar e você não tiver edificado em seu lote, o seu direito de hoje não prevalece amanhã; a função social acompanha a dinâmica urbana; não há direito adquirido, nesse assunto.

4 de set de 2015

'Cidade Aberta'

#CentrodeCulturaCompartilhadoEuApoio

Uma moçada ligada à arte está propondo a conversão do antigo Zoológico da Boa Vista, fechado há alguns anos, em um Centro de Cultura Compartilhado. É uma ideia que, a meu ver, tem duas grandes virtudes: a boa ocupação e a ressignificação de um espaço público abandonado e o reconhecimento de uma forma inovadora de organização política, em torno da cultura.

27 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

Pitanga e jabuticaba

A ampla maioria das administrações municipais segue um modelo que eu chamaria de provedor. A tarefa que lhe é posta resume-se a prover serviços demandados pela população. Serviços de água, esgoto, saúde, pavimentação, educação e por aí afora. Todas as administrações sete-lagoanas, nos últimos anos, com maior ou menor sucesso, trilharam esse caminho.

21 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

Profundo silêncio

Depois de ter se transformado num escândalo nacional, a suspeita de desvios de recursos na Câmara Municipal de Sete Lagoas foi guardada no mais profundo silêncio. Na própria Câmara parece ter se tornado um assunto proibido. Ou perigoso. E, naturalmente, onde impera o silêncio, falta transparência e sobram especulações.

19 de ago de 2015

A Marcha do Terror

São duas coisas diferentes.

Uma coisa é indignar-se com escândalos de corrupção. Ou, por razões ideológicas, discordar e opor-se frontalmente aos governos do PT. E, em razão disso, ir às ruas e manifestar-se, energicamente. Isso é legítimo!

Outra, em nome do combate à corrupção, é fechar os olhos para a realidade da política brasileira e demonizar um lado e endeusar o outro. É levantar bandeiras sem questionar suas consequências, nessa lógica de ser oposição por ser oposição. Isso ou é inocência ou é oportunismo.

Mas, sobretudo, em nome da falácia pretensamente inocente das boas causas, é marchar atrás de faixas de ódio como as que foram levantadas no último domingo. Quem admite estar ao lado de cartazes sangrentos como 'por quê não mataram todos em 1964' e 'Dilma, pena q não te enforcaram no DOI-CODI', em alguma medida, compactua-se com eles. Não há desculpas: o nome disso é terrorismo!

15 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

Todos os gatos são pardos

A crise é política! Essa afirmação ecoou nesse início ameaçador de agosto. Filha legítima da crise na economia com a crise ética da Lava jato, ela traiu sua origem para se entregar à paixão do poder pelo poder. Inversamente, é ela, agora, que agrava a crise econômica e apropria-se como quer do escândalo de corrupção.

11 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

Amadorismo

As revelações desta semana, estampadas em jornais, sobre o desvio de recursos na Câmara Municipal desmontam a impressão inicial de que tudo se resumia a uma ação pontual e pessoal e sinalizam tratar-se de algo amplo, sistemático e institucionalizado. É pouco crível que um esquema assim tenha operado por quinze anos, apropriando valores equivalentes a 20% da receita anual da Casa, sem uma organização própria e sem a cumplicidade de vereadores em cargos de direção. A conferir.


10 de ago de 2015

'Cidade Aberta'

A degradação do espaço público

A gente vai se acostumando tanto com a degradação do espaço público que perde de vista o seu potencial em oferecer aos cidadãos possibilidades de uso mais instigantes e de convívio mais dinâmicas e em criar ambiências mais ricas e de maior qualidade estética pra cidade.


25 de jul de 2015

'Cidade Aberta'

O poder terapêutico do asfalto

Por certo, muitas pessoas fazem juízos muito abalizados da administração municipal; a maioria, não! Dessa administração e de todas as outras. Tenho pra mim que a maioria da população, na verdade, muda de humor por razões bem prosaicas. Nesse caso, acho que não há nada mais influente no humor sete-lagoano do que o poder terapêutico do asfalto!

23 de jul de 2015

'Cidade Aberta'

O ovo e a galinha

O uso do carro particular tornou-se um costume tão arraigado, entre nós, que quem o utiliza não vê futuro sem ele. Pode-se viajar ao exterior, apaixonar-se pelos sistemas de transporte de lá, que, quando se retorna, aqui, não se desapega do próprio carro, de jeito nenhum. Como no caso do ovo e da galinha: a adoção espontânea pelo cidadão de novas práticas de locomoção é que pressionará a melhoria do sistema público ou a melhoria do sistema é que estimulará as pessoas a deixarem o carro na garagem?

12 de jul de 2015

'Cidade Aberta'

Um beco sem saída!

Até os anos 1980, Sete Lagoas cresceu de maneira razoavelmente equilibrada. Os mapas mostram uma malha urbana coesa em torno da área central. Já nos anos 1990, evidencia-se uma característica que ganhou força, adiante: a fragmentação. O tecido urbano passou a se esfarrapar nas bordas, seguindo eixos viários não planejados. Esse modelo de crescimento desordenado e periférico, hoje bastante bem configurado, apresenta impactos muito ruins: oneração das redes de serviços públicos, ampliação das distâncias com agravamento das condições de mobilidade, pressão sobre áreas ambientais frágeis e áreas rurais produtivas e, o que é pior, segregação social. No limite, têm-se guetos ricos e pobres que dão razão a uma frase maldita: “diga-me o seu CEP e eu lhe digo sua classe, sua renda e sua cor”.

7 de jul de 2015

'Cidade Aberta'

Nos primórdios da civilização

A Prefeitura está concluindo a chamada estação de transbordo, na esplanada da Estação Ferroviária, e já se pode, agora, observar o resultado daquela obra interminável. É lamentável! Não me refiro a uma observação estética porque isso é subjetivo e secundário. Refiro-me ao porte, à tipologia e à adequação da construção frente à natureza e ao tamanho do problema que ela se propõe a resolver e ao conforto que oferece à população usuária. É simplória demais!

Dúvidas não faltam...

Em atenção a um leitor anônimo, que disse que eu devia ter postado o texto anterior ['O sete-lagoano não merecia coisa melhor?!'] há três anos e não agora, publico artigo da coluna Cidade Aberta, publicado originalmente no SETE DIAS, em 23/06/2011, portanto, quatro anos atrás, sobre o mesmo tema: a tal estação de transbordo.

27 de jun de 2015

O sete-lagoano não merecia coisa melhor?!

Terminal de Transporte Coletivo made in Sete Lagoas...

Várias cidades têm se esmerado na construção de seus equipamentos públicos. Estações de transbordo, terminais de transporte coletivo, de maneira geral, têm sido objeto de projetos primorosos. Mas não em Sete Lagoas! Aqui, numa esplanada cênica, num ambiente urbano fantástico, a Prefeitura foi capaz de construir uma central de pontos de ônibus indescritível! Não apenas do ponto de vista estético, mas, sobretudo, do ponto de vista do [des]conforto do cidadão. Francamente: o sete-lagoano não merecia coisa melhor?!

Entrevista sobre o Vetor Norte de Sete Lagoas no SETE DIAS

SD: Em suas colunas, no SETE DIAS, você tem questionado o empreendimento Vetor Norte, em frente à IVECO. Por que você se opõe a ele?
FC: Não se trata de oposição. Não resta dúvida de que Sete Lagoas precisa de novos investimentos. Mas é obrigatório que novos negócios estejam subordinados a um plano global de desenvolvimento urbano. E não estão! Estamos errando nesse ponto fundamental! Essa é a minha crítica.

SD: O empreendedor alega que desenvolveu todos os estudos necessários. Isso não é fato?
FC: Os projetos desenvolvidos destinam-se exclusivamente à garantia da viabilidade do negócio. Nenhum estudo foi realizado para avaliar os impactos ambientais, sociais e urbanos de um empreendimento dessa magnitude sobre a cidade e quais as contrapartidas e condicionantes seriam necessárias. O empreendedor cuidou muito bem dos seus interesses privados; faltou quem zelasse pelo interesse público.

SD: Qual o papel do Legislativo e do Executivo nesse processo?
FC: Na Câmara, apenas um vereador questionou o projeto, todos os demais aprovaram-no sem medir as consequências. Duvido que qualquer um deles seja capaz de, ao menos, descrever o empreendimento. Isso vale também para o Executivo. As nossas autoridades agiram com um descaso inaceitável.

SD: Quais os problemas você vê nesse empreendimento?
FC: O Vetor Norte envolve uma área de 800 ha, a geração potencial de 25 mil empregos e uma população residente de 20 mil pessoas, além de um enorme complexo industrial. Ele traz os problemas inerentes a todo mega empreendimento: altera toda a lógica de desenvolvimento da cidade. Não de parte, mas de toda a cidade. Essa nova lógica pode ter efeitos favoráveis ou desastrosos. É uma ilusão acreditarmos que seremos uma Campinas se cometemos os mesmos erros de uma Betim. Um exemplo: os condomínios residenciais do Vetor Norte são exclusivos para renda alta; nada de Minha Casa Minha Vida. O que ocorrerá com os trabalhadores de baixa renda que são a maioria em projetos industriais? Formarão, no entorno, um cinturão de ocupação desordenada? Outro exemplo: ainda que o rodoanel saia do papel, como ficará a conexão dessa nova cidade com o centro urbano; continuará sendo feito pela Santa Juliana?

SD: O que era de se esperar da Prefeitura?
FC: Que se posicionasse na mesa de negociação com altivez e não com submissão. Que recepcionasse bem a proposta do Vetor Norte, mas respondesse com um aparato de planejamento, no mínimo, no mesmo padrão do apresentado pelo empreendedor. Que realizasse todos os estudos necessários para mensuração dos impactos do projeto e estabelecesse, com firmeza, as condições para que esse empreendimento se colocasse a serviço da cidade e não o contrário, como ocorreu. Mais do que facilidade, que oferecesse segurança.

SD: O que ainda é possível fazer nesse sentido?
FC: Esse projeto foi aprovado sem que ocupação e uso similares estivessem previstos no Plano Diretor para aquela região, o que é uma exigência legal. Isso o torna vulnerável a questionamentos pelo MP. Por outro lado, a mesma Prefeitura protocolou na Câmara novos projetos de revisão da legislação urbanística que, estranhamente, invalidam o Vetor Norte. Inacreditável! Quero dizer que temos uma obscuridade de regras que não oferecem garantia à cidade sobre o seu futuro nem um ambiente de negócios seguro para empreendedores. Com urgência, a Prefeitura deveria fortalecer a sua estrutura de planejamento urbano e iniciar um processo sério de revisão do Plano Diretor, não para gerar mais um plano genérico, mas um que, efetivamente, tome as decisões que precisam ser tomadas, com visão estratégica. E, sobretudo, discuta essas decisões publicamente.

SD: A cidade participou pouco dessa decisão do Vetor Norte, não?
FC: Esse assunto foi escamoteada pela Prefeitura; ora tratado como um inofensivo aumento de perímetro, ora como apenas um porto seco; nunca com a sua complexidade real. Eu tenho conversado sobre isso com cidadãos bem informados e o desconhecimento é geral. Essas grandes decisões definem a rotina do sete-lagoano. Se ele está obrigado a se blindar contra a violência, a conviver com serviços públicos ruins, a sofrer com o trânsito, ele tem o direito de opinar sobre o futuro da sua cidade.

'Cidade Aberta'

'Universidades do crime'

O Ministério da Justiça divulgou, nesta terça, 23, o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias. Segundo o INFOPEN, com mais de 600 mil presos, o Brasil tem a 4ª maior população carcerária do mundo. Embora pareça não causar espécie, há aí um dado estarrecedor: a maioria dessa população é composta por jovens, pobres, negros e de baixa escolaridade. Exatamente o mesmo perfil da população que é, também, a maior vítima de assassinatos no país. Isso não é normal! Uma sociedade que estigmatiza seus jovens, pobres, negros e de baixa escolaridade não é normal!

'Cidade Aberta'

Vale tudo

Creio que há um razoável consenso de que o aumento da violência urbana, nas suas formas mais graves, está diretamente ligado a certa licenciosidade no trato com infrações menores, inclusive as de trânsito. Por essa lógica, ambientes onde se difunde uma maior consciência cidadã tendem a ser mais seguros e vice-versa. É esse o argumento que tem justificado políticas de tolerância zero, implantadas mundo afora. Se ele for verdadeiro, a observação do desrespeitoso trânsito nas ruas de Sete Lagoas dá dicas de por que a nossa taxa de criminalidade anda nas alturas.